A insustentável invisibilidade da Ficção Científica

Por Sidemar de Castro
Mais popular e antiga série britânica de ficção científica da TV, ruma para 60 anos de existência, com mais de 30 temporadas e quase 800 episódios

Mas afinal, quem (who) é o Dr. Who? Doctor Who é uma premiada série de ficção científica inglesa, produzida e transmitida pela mais veneranda rede britânica, a estatal BBC, desde 1963, completando 57 anos dia 23 de novembro último.

A série mostra as aventuras de um Senhor do Tempo, um alienígena viajante das eras passadas e futuras – tão alienígena que possui dois corações – conhecido apenas como “O Doutor” (The Doctor). Ele explora o Universo em sua máquina do tempo, a TARDIS (Time and Relative Dimensions In Space – “tempo e dimensões relativas no espaço”), cuja aparência exterior tomou a forma, na Terra, particularmente em Londres, seu primeiro ponto de chegada ao planeta, de uma típica cabine da polícia londrina dos anos 60, e não conseguiu mais – conveniente para os produtores – voltar à sua aparência alienígena. Mas isso não importa, porque se por fora a TARDIS parece uma apertada cabine telefônica, por dentro é uma vasta crononave, obviamente filmada num cenário diferente. Juntamente com os seus companheiros, o Doutor enfrenta inúmeros inimigos, enquanto luta para salvar de civilizações humanas e alienígenas a pessoas comuns. Com mais de mil anos, o Doutor é o último dos Senhores do Tempo. E seus grandes inimigos são os Daleks, uma raça de ciborgues cujo principal slogan é “Destruir!” “Destruir!”.

TARDIS, a crononave de Dr. Who, que ficou presa na aparência de uma cabine telefônica.

Em suas aventuras, Dr. Who observa e interfere em fatos históricos, conhece personalidades que vão de Cleópatra a Shakespeare e Churchill, e visita incontáveis planetas em diversos sistemas solares. Ao longo dos anos, o Doutor, que jamais revela seu verdadeiro nome, escolhe seres humanos a quem convida para participar de suas viagens e, assim como o próprio protagonista, esses “companions” também vão sendo trocados durante as temporadas, mas por outros “humanos”, sem regenerescer. Regenerescer? What?

Dr. Quem?

Segundo a mitologia da série, antes de ser um dos Senhores do Tempo de Gallifrey, o planeta original da espécie, o Doutor era o “Timeless Child” (Algo como “Criança Eterna ou Fora do Tempo”), um enjeitado alienígena de origem desconhecida. A criança foi levada para Gallifrey, onde sua “capacidade regenerativa” foi unida à raça nativa para criar os Senhores do Tempo.

Uma das características mais marcantes e facilitadoras da longevidade da série é que, como alienígena vivendo sob a forma humana, o Doutor pode trocar de corpo a cada “ciclo regenerativo”, ou seja, o ator pode ser substituído caso fique muito velho, doente ou se canse da série interminável. Assim, desde o início em 1963, um já idoso ator William Hartnell ficou no papel nas quatro primeiras temporadas; porém, ele teve que abandonar a série por diversos problemas de saúde. Com medo do cancelamento pela perda de seu ator principal, os roteiristas Innes Lloyd e Gerry Davis tiveram a ideia genial de criar o conceito da renovação (que depois veio a ser chamada de Regeneração), onde o Doutor consegue mudar o seu corpo quando está perto de morrer. Seguindo essa toada e o sucesso, depois, vieram os seguintes Doutores, em duas fases separadas por um intervalo de alguns anos, dividido por um longa, em que a série foi interrompida:

Muitos atores já interpretaram Doctor Who, que na série troca de corpo de tempos em tempos

PRIMEIRA FASE OU CLÁSSICA

Primeiro Doutor: William Hartnell (1963 – 1966)

Segundo Doutor: Patrick Troughton (1966–1969; 1983; 1985)

Terceiro Doutor: Jon Pertwee (1970–1974; 1983)

Quarto Doutor: Tom Baker (1974–1981)

Quinto Doutor: Peter Davison (1981–1984)

Sexto Doutor: Colin Baker (1984–1986)

Sétimo Doutor: Sylvester McCoy (1987–1989; 1996)

Oitavo Doutor: Paul McGann (1996)

SEGUNDA FASE OU NOVA

Nono Doutor: Christopher Eccleston (2005)

Décimo Doutor: David Tennant (2005–2010)

Décimo Primeiro Doutor: Matt Smith (2010–2014)

Décimo Segundo Doutor: Peter Capaldi (2013–2017)

Décima Terceira Doutora: Jodie Whittaker (2017–2020)

Uma fato curioso: quando tinha 13 anos, o ator David Tennant escreveu um texto na escola chamado “Overdose Intergalactic” onde estava “convencido” que iria fazer o papel do Doutor na TV, quando crescesse. Ele conseguiu realizar seu sonho, pois foi escolhido para ser o 10º Doutor, que permaneceu na série por três temporadas e se tornou um dos mais populares intérpretes do The Doctor pelos fãs.

Outros atores também interpretaram o Doutor em especiais, como é o caso de Rowan Atkinson, que depois seria o popular Mr. Bean; contudo esta e outras encarnações não são consideradas “canônicas”, tanto pelos fãs, quanto pela própria BBC.

Marcada no Guiness como “a mais longa série de TV de ficção científica do mundo” (a mais longa na literatura é uma série alemã, Perry Rhodan, que futuramente será abordada nesse espaço) também é reconhecida pelas histórias imaginativas, pelos seus criativos e baratos efeitos especiais e pelo uso pioneiro de música eletrônica. Características bem próximas da série clássica de Star Trek.

A Décima Terceira Doutora, encarnada por Jodie Whittaker

Where? Onde começar?

Ao contrário de outra série clássica de ficção científica, como Star Trek, dificilmente alguém das gerações mais recentes e que não tenha vivido na Grã Bretanha nas décadas de 60 e 70 poderá se gabar de ter assistido a série toda; infelizmente, entre os anos de 1964 e 1973, boa parte dos episódios (cerca de 97) se perdeu devido à má conservação e inutilização das fitas originais. Alguns foram recuperados de cópias vendidas a outros países ou gravadas por fãs. O primeiro episódio de 1963, entretanto, ainda em branco e preto, pode ser encontrado para download em alguns sites de fãs na internet.

E para quem quiser assistir, por onde começar uma série com mais de 30 temporadas e quase 800 episódios? Não se desespere: Dr. Who tem duas produções distintas, a Clássica e a Nova, sendo a Clássica a que mostra as aventuras dos sete primeiros Doutores, com 26 temporadas; houve uma interrupção na produção durante alguns anos e logo, até a Nova produção, em 2005, da nona temporada em diante (a oitava aparece em apenas um filme). Dr. Who tem até o momento 12 temporadas, a atual com uma Doutora, pela primeira vez, vivida pela atriz Jodie Whittaker. A 13ª temporada já está confirmada pela BBC, mas está atrasada devido a pandemia.  

Portanto, comece assistindo a nova série a partir de 2005, onde cada temporada tem 10 episódios e alguns especiais. Mesmo assim você pode se perguntar “Dá pra entender mesmo não tendo assistido a série Clássica?” Sim! É claro que quem tem conhecimento da clássica terá mais referências, mas a série nova é bem autoexplicativa e ideal para quem quer começar a se aventurar nesse universo de tempo e espaço.

Doctor Who possui diversas séries derivadas, como K-9 and Company (1981), Torchwood (2006 – 2011), The Sarah Jane Adventures (2007 – 2011) e K-9 (2009), assim como marca presença em outros formatos como inúmeros livros, programas de rádio, histórias em quadrinhos e games. Um grande sucesso off USA, embora nem tanto conhecido por aqui onde, exceto na TV paga, foi exibida recentemente pela TV Cultura de São Paulo, evidenciando seu caráter de “série cult”, gerando uma base de fãs brasileiros.

Em 2023 a série comemorará os seus 60 anos, e apostaria que ainda contará com vários episódios e talvez um novo Doutor (ou outra Doutora; ou a mesma). Um bocado de tempo, mesmo para um(a) viajante do tempo que tem a eternidade a seu dispor.

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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