Superman: Para o Alto e Avante

Tom King busca compreender o que realmente significa ser o Super-Homem

Por Fernando Fontana

Tom King é um escritor que ficou famoso por suas abordagens mais adultas e complexas dos super-heróis. Em “Visão”, minissérie publicada em 2018, King narra a tentativa do sintetizoide de se encaixar, criar uma família perfeita, morando em uma casa de subúrbio e imitando a forma como as pessoas “normais” vivem. Já em “Senhor Milagre”, o escritor aborda o tema da depressão, com o filho do Pai Celestial e esposo da Grande Barda sendo obrigado a lidar com a doença enquanto segue com sua rotina de super-herói, mestre do escapismo, esposo e general de Nova Gênese.

Ao escrever uma história do Superman, personagem que inaugura a Era de Ouro dos quadrinhos em 1938, e que até hoje se mantém como um dos mais poderosos e conhecidos super-heróis de todos os tempos, poderíamos, portanto, esperar qualquer coisa, menos um roteiro comum.

Em “Superman – Para o Alto e Avante”, King tenta nos responder o que realmente significa ser um Superman, e deixa claro que em sua concepção vai muito além do que simplesmente ter super poderes extraordinários.

Superman salva milhares de vidas todos os dias, seria correto abandonar a Terra para salvar uma única criança?

Na trama, Batman chama o Superman e lhe diz que uma menina chamada Alice foi sequestrada por alienígenas e levada para o espaço; incapaz de ir atrás dela, Bruce pede que Clark parta em uma missão de resgate sem tempo para acabar, já que os sequestradores poderiam estar em qualquer parte do universo.

Aqui se apresenta o primeiro grande dilema da narrativa, Superman salva milhares de vidas todos os dias, quando está ausente ou ocupado, pessoas podem se ferir ou morrer, sendo assim, seria justo ou correto, ele abandonar o planeta Terra para salvar uma menina que ele sequer sabe se está viva ou não, e cuja busca pode se arrastar por meses?

Ser o Superman implica em uma responsabilidade monstruosa; Em Astro City, fantástica série de histórias em quadrinhos criada por Kurt Busiek (roteiro) e Brent Anderson (ilustração), somos apresentados ao “Samaritano”, sua versão para o Superman; na história “Em Sonhos”, descobrimos que assim como vários super-heróis, ele pode voar, mas o único lugar onde ele realmente desfruta da sensação causada pelo poder é em seus sonhos, já que segundos de distração no mundo real podem significar a morte de um inocente.

Por outro lado, como o Batman faz questão de frisar: “Há uma diferença entre você e eu, entre você e todo mundo. Nós somos nós, você é o Superman”. E se ninguém mais tem os recursos necessários ou se importa o suficiente com a criança para tentar salvá-la, o Superman torna-se sua única esperança. O homem que é incapaz de matar também é incapaz de deixar que uma criança morra por omissão.

Filosoficamente falando, se o Superman optasse por ficar, ele estaria seguindo o utilitarismo, um sistema de ética que requer a maximização da felicidade total ou do bem estar resultante de nossas ações, ou seja, ficar na Terra seria a decisão correta, porque ele poderia salvar milhares ou milhões de vidas, ao passo que, partindo, uma única vida seria salva, a da pequena Alice.

Ao partir para o espaço, Superman segue uma doutrina ética conhecida como deontologia, onde julgam um ato não pela quantidade de bem estar que ele pode eventualmente trazer, mas pelas características intrínsecas ao próprio ato. O Batman não mata o Coringa ou o Espantalho porque matar é moralmente errado, ponto, não importando o quanto de sofrimento eles poderiam em teoria causar no futuro. O Superman também não mata e se recusa a permitir que Alice seja deixada para morrer nas mãos de alienígenas pela mesma razão.

Superman em uma luta de boxe, não foi a primeira vez que o personagem esteve em uma.

Se o modo de pensar do Homem de Aço nos é revelado nas primeiras páginas, o restante da história é reservado para desvendar o adjetivo “super” que acompanha o homem. Inspirando-se em eventos que fizeram parte do passado do herói, como lutas de boxe e corridas contra o Flash para descobrir quem é o homem mais rápido do mundo, o escritor leva o Superman seguidamente até o seu limite tanto físico quanto psicológico.

Para King, tem muito mais a ver com fazer o certo e se recusar a se entregar ou cair quando alguém precisa dele. Há uma famosa entrevista de Roberto Bolaños, onde o apresentador lhe pergunta o que acha de heróis como Superman e He-Man, e o criador de Chaves e Chapolin dá a seguinte resposta:

Não são heróis; heróis é o Chapolin Colorado, e isso é sério. O heroísmo não consiste em não ter medo, mas superá-lo; aqueles não tem medo, Batman e Superman são todo poderosos e não podem ter medo. O Chapolin Colorado morre de medo, é burro, débil, tonto, etc., e consciente dessas deficiências, ele enfrenta o problema, isso é um herói”,

Há muita verdade na fala de Bolaños, heroísmo não é deixar de ter medo, mas superá-lo, porém, de acordo com King, ele erra ao acreditar que o Superman não sente medo. Certamente ele não teme ser atingido por socos, tiros ou explosões, mas ao enfrentar desafios e oponentes de poderes avassaladores, receia falhar e por conta disso, ser o responsável pela morte de inúmeras pessoas, entre elas as que mais ama, como seus pais e Lois Lane.

Superman vs Flash, em uma corrida pela caridade

Sua maior força estaria então nessa disposição de se sacrificar pelos demais, na constante busca por ultrapassar limites e na consciência de que cada vida importa, ainda que a maioria a considere comum, descartável.

Não há espaço aqui para questões sobre como ele faz o que faz, de onde ele tira forças quando está prestes a desabar, ou quem venceria uma luta entre o Superman e o Batman, “Superman – Para o Alto e Avante” trata do que o herói simboliza.

Alguns nomes me fazem querer ler uma história em quadrinhos assim que os vejo nos créditos, e Tom King definitivamente tornou-se um deles.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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