Quando governantes esquecem suas responsabilidades, culpam Deus e o povo sofre

Por Fernando Fontana

Com um orçamento estimado em 130 milhões de dólares por temporada, “The Crown” é a série mais cara já produzida pela Netflix, e sua popularidade justifica o alto investimento; a quarta temporada, que estreou recentemente e conta com Gillian Anderson (eterna Dana Scully), como Margaret Thatcher e Emma Corrin, como Lady Diana, desbancou “O Gambito da Rainha” e tornou-se o centro das atenções.

Não é sobre a quarta temporada, no entanto, que quero falar, mas sobre o quarto episódio da primeira temporada, intitulado “Ato Divino”, nele, creio eu, podemos encontrar muitas semelhanças com o momento atual que o mundo, as nações e seus governantes vivem.

O episódio é baseado nos eventos ocorridos entre 05 e 09 de dezembro de 1952, quando um denso nevoeiro tóxico, causado pelo rigoroso inverno, aliado à intensa queima de carvão e a uma inversão térmica, cobriu as ruas de Londres, provocando o caos e levando milhares de londrinos para os hospitais.

Na série, o então Primeiro Ministro Winston Churchill é interpretado por John Lithgow; Churchill ficou famoso por seu pulso firme na resistência contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, quando se recusou a se render às forças de Hitler. O filme “O Destino de uma Nação” (2017), também disponível na Netflix, narra justamente esse período e tem um irreconhecível Gary Oldman no papel do Primeiro Ministro, em uma atuação que lhe rendeu praticamente todos os prêmios como melhor ator daquele ano, incluindo um Oscar e um Globo de Ouro.

The Crown Season 1 EPISODE 4 PHOTO CREDIT ROBERT VIGLASKY PICTURED John Lithgow

É justamente na popularidade de Churchill e na sua crença inabalável de que sabe o que é melhor para a nação, ancorada principalmente nas glórias do passado, que reside um dos principais motivos para a demora do governo britânico em responder apropriadamente a emergência climática.

Importante papel é desempenhado por uma personagem fictícia inserida na trama pela criador da série e roteirista Peter Morgan, a jovem secretária de Churchill, Venetia Scott (Kate Phillips); ela demonstra ser uma admiradora dos feitos do Primeiro Ministro, lê suas memórias, cita frases que por ele foram ditas. Chamada pela amiga para irem ao bar, diz que ao invés de se relacionar com homens medíocres, prefere ficar na companhia de um homem notável, lendo a biografia de Churchill.

De fato, pelos olhares trocados entre os personagens, e pala admiração quase apaixonada de Venetia, o episódio habilmente nos leva a acreditar que um nada apropriado romance esteja surgindo entre o casado Churchill e sua secretária, o que aumentará a dramaticidade e o impacto da cena que veremos em breve.

Churchill chamado pela rainha (Claire Foy), para dar explicações sobre o nevoeiro e duramente criticado pelos seus pares, torna-se agressivo, recusa-se a enxergar a gravidade da situação. Para ele, trata-se de um fenômeno climático, que como tantos outros, chega e vai embora, um ato de Deus, como ele proclama na reunião com os membros do partido.

O nevoeiro que tomou Londres em 1952 provocou o caos e a morte de inúmeros londrinos

O Primeiro Ministro demonstra uma preocupação muito maior com a política externa do que com os problemas internos da Inglaterra, algo que pode encontrar explicação justamente no fato de que suas maiores vitórias vieram da guerra e da diplomacia, e não do combate à inflação ou respostas a alterações climáticas. Ele chega a apontar o fato de Philip, Duque de Edimburgo (Matt Smith), esposo da rainha, estar tendo aulas de voo, algo mais preocupante do que o nevoeiro.

A minimização do caos provocado e a demora em responder apropriadamente resultou em consequências gravíssimas, dezenas de milhares de londrinos se amontoaram nos hospitais, com recursos e número de profissionais inadequados, estimativas primárias apontaram para um total de 3500 a 4000 mortes, mas foram posteriormente elevadas para 12000 vítimas fatais.

No episódio, Venetia é atropelada por um ônibus que não a enxergou em meio ao nevoeiro, morrendo logo em seguida. Somente após ir ao hospital e se deparar com o cadáver de sua secretária é que Churchill percebe a gravidade da situação, com médicos e enfermeiras correndo sobrecarregados pelos corredores.

Venetia, que representou a admiração e confiança do povo em seu Primeiro Ministro, agora representa a tragédia que se abate sobre os londrinos devido a ineficiência de seu governo. Churchill não poderia ser culpado pelo nevoeiro (embora seja mencionado em determinado momento que seu partido não tomou nenhuma medida para reduzir as emissões poluentes derivadas do carvão e que aumentaram drasticamente no inverno), mas sim, pela omissão, por não dar a devida importância a uma tragédia que levou milhares de cidadãos.

Churchill no Hospital, percebe a gravidade do nevoeiro

Retirado de seu estupor, Churchill, ainda no hospital, informa aos repórteres que tomará medidas urgentes: “Somente Deus pode dissipar o nevoeiro, mas eu, como Primeiro Ministro, estou em posição de aliviar o sofrimento”.

Interessante notar que a imprensa e os londrinos, desesperados por qualquer tipo de ajuda, não enxergam a demora em tomar medidas para aliviar o sofrimento, mas tão somente a presença do político no hospital e sua retórica. Churchill, auxiliado pelo desaparecimento do nevoeiro e pelos aplausos do público, evita o pior e mantem seu cargo.

Vale ressaltar aqui, a alegria dos opositores políticos de Churchill com o agravamento da situação e o aumento dos mortos e feridos, demonstrando na prática estarem muito mais preocupados com a possibilidade de retirar o poder das mãos do Ministro do que com o sofrimento do povo, embora, claramente o discurso seja outro.

“Ato de Deus” é um episódio que revela os danos que podem causados por governantes, sejam eles quais forem, que superestimam seu conhecimento, se recusam a ouvir a ciência (Churchill ignorou o alerta do Centro Meteorológico) e minimizam a dor e o sofrimento alheio, tornando-se assim, mais atual do que nunca.

Todas as temporadas de “The Crown” estão disponíveis na Netflix!

_____________________________________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *