O Vale Nerd – “Mulan” menos fidelidade e mais ação

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e preciso fazer algumas confissões. A primeira delas, e talvez a mais polêmica, é de que eu não sou um grande fã das animações da Disney, sejam elas os grandes clássicos, ou os chamados “novos clássicos”. É claro que como qualquer criança eu assisti muita coisa do estúdio, mas não sou daqueles que decorou cada fala de cada filme e assistiu absolutamente tudo. Não, eu deixei para trás filmes como “Mogli”, “Bambi”, “A bela e a Fera”, “Aladdin” e até bem pouco tempo eu não havia conferido “Mulan”. Então o resumo da história é que eu só assisti ao filme uma vez, e quando já era bem crescidinho. Por conta dessa minha peculiaridade é que eu não estava no “hype” para ver o “live action” baseado na animação.

A minha segunda confissão é que eu amo filmes de ação e artes marciais, mas do tipo “quanto pior melhor”. Gosto daqueles filmes muito exagerados em que os lutadores praticamente voam, tem socos e chutes tão poderosos que arremessam o adversário do outro lado da arena; em especial os filmes mais antigos do Jet Li do tipo “A saga de um herói”, sabe aqueles que passavam toda semana na Band? É claro, também gosto dos mais produzidos como “Herói”, ou o filme que elevou esse tipo de cinema de ação a um novo patamar: “O tigre e o dragão”. Bem, eu simplesmente amo acompanhar aquelas cenas absurdas, exageradas e ultra bem coreografadas, e se tiver espadas, lanças e shurikens eu irei ao delírio.

E por que eu estou falando isso? Porque essa foi basicamente a percepção que eu tive ao assistir “Mulan” na plataforma “Disney Plus”. Muito mais do que adaptar fielmente à animação de 1998, o filme tenta ser fiel ao cinema oriental. Mas se você não compartilha desse gosto peculiar por exageros, pode ficar tranquilo, o filme é bem mais comedido do que os que eu acabo de citar acima. Para a maioria das pessoas isso pode significar um alívio, para mim, esse é o grande defeito da adaptação. O que eu posso dizer é que estava gostando tanto das cenas de ação que eu queria muito mais delas, queria ver Mulan (Liu Yifei de “Once Upon a Time”) saltando, girando, chutando e usando aquela espada durante o filme todo. Infelizmente para mim, todo filme precisa de uma história, até os de ação.

Infelizmente decidiram que Mulan precisa de um pouco de história entre as lutas de espada

Uma coisa que eu posso dizer sobre essas adaptações dos grandes clássicos das animações é que quando transpomos a mídia para o cinema real temos uma dimensão diferente de tudo, inclusive estava falando disso com um amigo meu nesse fim de semana. Nos desenhos tudo parece mais grandioso, um exemplo disso é a magistral cena da invasão da cavalaria. Na animação vemos todos aqueles soldados cavalgando montanha abaixo em meio à neve. É lindo, é impressionante, é memorável, já na versão com atores de carne e osso, não posso dizer que tenha visto algo que seja vagamente parecido.

Entretanto, são justamente esses comparativos que eu quero evitar. Primeiro porque, como eu disse, não sou um ávido fã do original e portanto não estaria apto para comparar. Segundo porque, como eu também disse, o filme está mais preocupado em ser uma boa produção por si só do que em ser uma adaptação fiel. As diferenças na história são gritantes, o dragão falante que é substituído por uma fênix sem falas e que funciona muito mais como uma metáfora do que como uma personagem, o tom que é muito menos cômico, as cenas de batalha que são muito mais sérias embora não cheguem a ser sangrentas ou violentas, e a história que não se preocupa em seguir à risca o roteiro original.

O filme tem uma pegada muito feminista, e isso é óbvio, a lenda de “Mulan” é feminista. É uma lenda que inspira garotinhas chinesas a serem fortes e corajosas e o filme consegue isso sem ser “panfletário”. Tudo na narrativa é natural e orgânico, o preconceito da sociedade gera incômodo, afinal, desde o início vemos que a garotinha Huan Mulan é uma exímia artista marcial, como dizem no filme, ela tem um forte “Chi” e a única coisa que a impede de trabalhar esse seu lado e seguir os passos do pai (um grande herói de guerra) é o preconceito. Para aquelas pessoas, mulheres devem se casar, gerar filhos, servir o chá e cuidar da casa. Mais do que isso, elas nem tem o direito de escolher com quem irão se casar.

Quando a heroína diz para os soldados que a mulher ideal deve ser corajosa eles riem da cara dela e isso não está lá para fingir feminismo, está lá por que faz sentido na história, está lá por que tem que estar. E nesse sentido, me incomodou um pouco a rapidez com que os soldados mudam de opinião e aceitam uma guerreira mulher quando o roteiro precisa. Por outro lado, se a identidade feminina é descoberta meio que por acaso na animação, no filme é uma atitude deliberada da protagonista uma representação de empoderamento feminino, eu gosto!

Na sociedade em que Mulan vive, mulheres devem se casar, gerar filhos, servir o chá e cuidar de casa, tudo menos ser uma guerreira.

Muito se fala da animação original ter um representante do vale, afinal a protagonista iniciaria um romance com o Capitão Lee Shang enquanto ainda estava disfarçada de homem e continuaria após se revelar mulher. Isso significaria que o capitão é Bissexual, bem eu não notei nada disso no filme, pois essa nova versão está muito mais preocupada em mostrar seu lado de guerreira do que em mostrar possíveis romances. Entretanto… não posso dizer que não me chamou atenção a cena em que o Comandante Tung (Donnie Yen) oferece sua filha em casamento à Mulan (enquanto ainda acredita que ela é um homem) e ela fica super feliz. Estaria ela tentando manter o disfarce masculino? Estaria ela simplesmente feliz pela honrosa proposta vinda do superior? Seria ela lésbica? Não sei. O fato é que mostrar uma heroína mais preocupada com a guerra do que em arrumar um marido (ou uma esposa) é um claro exemplo de roteiro essencialmente feminista.

Outra coisa muito importante também é o fato de haver maior destaque à vilã, a poderosa bruxa Xianninang (Gong Li), do que ao vilão Bori Khan (Jason Scott Lee). Tem muita coisa interessante nessa dinâmica, coisas que podem ou não fugir aos clichês mais corriqueiros de filmes de ação, o fato é que nenhum deles me incomodou. Na verdade o que realmente me incomodou (além do fato de eu querer mais porrada no filme) foram os efeitos especiais. Algumas construções, algumas localidades, e os malabarismos com aqueles tecidos que parecem estar vivos são simplesmente falsos demais para uma produção desse tamanho, faltou refinamento, faltou cuidado para que o CGI não ficasse tão gritante na tela. A única coisa que me agrada visualmente é a fênix, justamente por que a criatura não precisa parecer real.

Ming-Na Wen, a atriz que dublou Mulan na animação de 98, mas que eu prefiro chamar de Melinda May de “Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.”, Fennec Shand de “The Mandalorian” ou até mesmo de Chun-Li de “Street Fighter – A Batalha Final” e de quem eu sou muito fã, faz uma pequena participação no filme, também vemos Jet Li, de quem eu já falei no início da matéria fazendo o imperador.

Jet Li como o Imperador em Mulan

Se você é muito fã do desenho animado e ainda não assistiu ao “live action” deve ter notado que alguns nomes não batem, isso por que o roteiro original não é seguido fielmente (será que eu já disse isso nessa matéria?) e as mudanças incluem até mesmo as personagens, tem personagens novos, tem personagens excluídos e tem personagens baseados nos originais. Por exemplo, Chen Honghui é baseado em Lee Chang, Bori Khan é baseado em Shan Yu e por aí vai.

Resumidamente, “Mulan” é bastante diferente do original e pode desagradar aos fãs mais puristas. Por outro lado é também um ótimo filme de ação e artes marciais e uma das poucas boas opções do escasso catálogo inicial da plataforma “Disney Plus”.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Mulan” ou outras adaptações de desenhos animados. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e vai assistir todas as adaptações de animações que saírem na Disney Plus

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