Quando torna-se impossível perdoar!

Por Fernando Fontana

Nos perdoe pelos spoilers no texto a seguir!

A tradição e a religiosidade são dois temas constantes em The Crown, uma vez que são sustentáculos importantes na manutenção da família real britânica, e ambos são abordados em “Vergangenheit”, um dos melhores e mais polêmicos episódios da segunda temporada.

Vergangenheit, que traduzido do alemão quer dizer passado, tem como um de seus protagonistas, Edward VIII, o Duque de Windsor (Alex Jennings), tio da rainha Elizabeth (Claire Foy) e que abdicou do trono da Inglaterra, para poder se casar com Wallis Simpson (Lia Williams), uma socialite norte-americana, divorciada. Com a abdicação de Edward, seu irmão, Albert, (Jared Harris) pai de Elizabeth, assumiu o trono como Rei George VI.

Em diversos episódios anteriores, pudemos observar o quanto o Duque de Windsur era mal visto pela família real britânica, desprezado até mesmo pela própria mãe, a rainha Maria (Eileen Atkins), e em especial pela viúva de George VI e mãe de Elizabeth (Victoria Hamilton). Atribuímos esse comportamento ao fato do Duque ter abandonado seu povo e suas responsabilidades como rei para viver com a Duquesa de Windsor, causando um escândalo, e porque a doença que tirou a vida de George VI, foi considerada por muitos como decorrente da carga de stress de assumir inesperadamente o trono e reinar em um período tão turbulento (Segunda Guerra Mundial).

Ao assistir o sexto episódio da segunda temporada descobrimos que o passado do Duque é muito mais sombrio do que aparentava, e compreendemos os reais motivos pelos quais sua família o transformou em um pária.

O Duque e a Duquesa de Windsur na festa de aniversário de seu cachorro

Outra figura que desempenha papel importante neste episódio é o famoso pastor norte-americano Billy Graham (Paul Sparks), que em sua passagem por Londres foi convidado pela rainha para uma cerimônia na Capela de Todos os Santos em Windsur, seguida por um almoço privado. Vale lembrar que na Inglaterra, o soberano é também o chefe da Igreja Anglicana, e em suas conversas com o pregador, Elizabeth conversa sobre os valores cristãos, sendo um deles, o perdão.

É o perdão de Elizabeth que o Duque de Windsur deseja, possibilitando assim o seu retorno para a vida pública, obtendo um emprego onde possa se sentir útil. Entediado com a vida de festividades e frivolidades que leva ao lado da Duquesa, aciona diversos amigos influentes para que lhe indiquem um trabalho que possa exercer, e o ajudem a convencer o governo britânico. Ele provavelmente conseguiria seu intento, já que a rainha, influenciada pelas conversas com Graham, e líder de uma religião cristã, estava disposta a perdoa-lo.

Seus planos se dissolveram com o reaparecimento dos chamados Arquivos de Marburg, que no passado, a família real, encabeçada pelo pai de Elizabeth, George VI, tentou abafar com a conivência do então Ministro Winston Churchill. Descobertos e posteriormente revelados por historiadores norte-americanos com o apoio de franceses e ingleses, estes arquivos continham documentos que comprovavam, não apenas a simpatia do Duque pelos nazistas, como o fato dele fornecer informações vitais para o regime de Hitler e ter feito parte de um plano onde seria alçado novamente ao trono inglês, no lugar de seu irmão, George, transformando o Império Britânico em um aliado fiel da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

O Duque de Windsur faz a saudação nazista em visita a Hitler na Alemanha

Essa descoberta mostra que a família real, ou pelo menos aqueles que sabiam da verdade, tinham bons motivos para desejarem manter o Duque afastado do país e da vida pública. O homem que abdicou do trono, desejava retoma-lo, e para isso estava disposto a trair seus compatriotas e seu irmão, o rei, unindo-se aos nazistas, responsáveis por matar milhares de britânicos.

Ao conhecer a verdade, ainda que cristã, Elizabeth toma uma decisão definitiva: “Não posso perdoa-lo, a pergunta é: como consegue se perdoar?”.

Sua decisão e responsabilidades como monarca e chefe da família real britânica entram em conflito com os valores cristãos pertencentes à igreja que comanda, e em nova conversa com o pastor Billy Graham questiona: “o senhor acha que existem circunstâncias em que alguém pode ser um bom cristão e ainda assim não perdoar”?

Quem de nós já não se encontrou em posição onde não conseguia perdoar a falha de alguém que nos magoou profundamente?

O pastor Billy Graham em The Crown, um defensor do perdão incondicional

Graham argumenta que se o próprio Cristo perdoou os que o crucificaram, quem somos nós para não perdoar aqueles que nos ofendem. Elizabeth lhe responde com um fato incontestável, somos mortais. Aliás, este é outro dilema que enfrenta a rainha e é mencionado no episódio, como soberana e líder religiosa, na Inglaterra, apenas Deus está acima dela, mas em determinados momentos, tudo o que ela gostaria de ser é uma simples cristã, mortal e falha como tantos outros.

O pastor então oferece uma solução para o dilema moral em que se encontra a rainha, se não consegue perdoar, então ela mesma pede perdão a Deus por sua falha como cristã, condicionada a um sentimento de sinceridade e humildade.

Se honestamente Elizabeth tentou perdoar as ligações do seu tio com o regime nazista e seus planos de tomar o poder na Inglaterra com as bênçãos de Hitler, então ela se volta para o perdão divino.

Trata-se de um episódio que nos faz refletir sobre os limites do perdão, que reforça Claire Foy como atriz de primeiro escalão e que demonstra mais uma vez o porque de “The Crown” fazer o sucesso que faz.

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