O Vale Nerd – Big Mouth – O absurdo da puberdade

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vim falar da absurda animação da Netflix, criada por Nick Kroll, Andrew Goldberg, Mark Levin, Jennifer Flackett que chegou chutando o balde logo no episódio piloto e cuja quarta temporada acaba de estrear. Hoje vou falar de “Big Mouth”.

Quando assisti ao trailer da primeira temporada me pareceu que veria algo na linha de “Os Simpsons”. Imaginei que assim como na animação da família amarela haveria apenas insinuação de nudez e piadas com sexo, eu não poderia estar mais enganado! Logo no primeiro episódio temos um enorme “close” no pênis de uma das personagens, no mesmo episódio vemos um “jogo de basquete em que os jogadores são enormes pênis????!!!” Mais pra frente veríamos uma garota conversando com sua vagina, e por aí vai.

Algumas lições foram tiradas dessas primeiras cenas:

1 – Não é uma animação para crianças. Não mesmo! De jeito Nenhum! Sem chances! Estou falando sério!

2 – Sexo não é parte do tema. É o tema principal.

3 – Nada de insinuações, “Big Mouth” é explícito!

4 – O humor é do tipo absurdo. Pênis jogando basquete?????

Matéria do Everton sobre uma animação com pênis jogando basquete, essa promete!!!

De forma resumida, a animação é uma ideia de Nick Kroll baseada em suas próprias experiências e vivências durante a puberdade. Ou como diz uma das personagens: “Todos odeiam a puberdade! Por isso fizeram um show sobre isso!” A puberdade é uma fase da vida cheia de complicações e possivelmente muito traumática, mas se olhamos para trás com um olhar de adulto, talvez possamos notar o quão absurdos eram os problemas vividos naquela época. É isso que fazem os criadores da animação, transformam coisas ruins em comédia, uma comédia cheia de exageros, absurdos, metalinguagem, surrealismos, metáforas, sarcasmos. Eu simplesmente não consigo lembrar de um único episódio em que eu não tenha gargalhado assistindo.

Um exemplo dos absurdos criados pela série é a personificação do “monstro dos hormônios”. De forma metafórica a mudança hormonal ocorrida quando entramos na adolescência pode ser vista como um monstro pois muda nosso humor, muda nosso corpo, muda nossos interesses e parece até que controla nossos pensamentos. A série personifica a metáfora na forma de um monstro real, um ser enorme e peludo que transforma um garoto inocente em um maníaco por masturbação e filmes pornôs e uma garota meiga em uma fera descontrolada que nunca mais poderá proferir a palavra “mãe”.

A animação é certeira ao mostrar que não existem padrões, pois a puberdade vem de formas diferentes para cada pessoa e é com certeza a fase mais confusa da vida. Mas o antropomorfismo não para nos diferentes monstros dos hormônios, praticamente todas as neuras da adolescência são retratadas na forma de um ser vivo: vergonha, depressão, ansiedade. Além disso, as emoções e reações ganham efeitos materiais, como quando alguém diz “Garotas também se masturbam!” e a cabeça dos garotos literalmente explode.

Os Monstros dos Hormônios, responsáveis por boa parte da audiência da antiga Sexta Sexy

A sátira também é presença constante na série, há um episódio em que “Apocalipse Now” é parodiado, outro em que os super heróis são referenciados, outro com inspiração em filmes de terror. O humor vem de todos os lados, a todo momento os monstros dos hormônios fazem comentários impróprios, mostram algo surreal ou acontece algo simplesmente absurdo (tipo um travesseiro engravidando).

Além de hormônios e sentimentos, “Big mouth” também vem despertar um novo monstro da atualidade: o “politicamente correto”, afinal, o mundo de hoje está chato demais não é? O politicamente correto acabou com toda a graça do humor. Essa geração mimizenta reclama de tudo e se você falar de cabelo vai aparecer alguém reclamando de preconceito contra careca não é mesmo? Não, não é mesmo! Desculpe acabar com seus sonhos, mas essa história de “mimimi” e “politicamente correto” não existe.

Há uma cena na primeira temporada que ilustra isso muito claramente, é quando o monstro comenta a possibilidade de apresentar a ideia de um show sobre crianças na puberdade pensando em sexo e se masturbando o tempo todo à algum “showrunner”. Nesse momento uma das personagens pergunta “Isso não seria basicamente pornografia infantil?”. Pois é, “Big Mouth” tem muita coisa que poderia ser chamada de “politicamente incorreta”, ao mesmo tempo tem muita coisa que poderia ser chamada de “lacração” então, afinal de contas, de que lado do espectro polarizado do humor atual está a animação?

O Monstro dos Hormônios é violento e só se acalma com chocolate

Vamos falar sério, essa história de que existe um complô do politicamente correto querendo impor sua própria vontade aos outros e censurar todos aqueles que discordarem de sua própria ideologia é a maior besteira do mundo. O que existe hoje em dia são redes sociais e pessoas dispostas a usá-las, se você desagradar o público, ele vai se manifestar na internet. Isso é consequência, não é censura. Por isso um programa como “Os trapalhões” não seria exibido atualmente (não naqueles moldes), o humorístico tinha piadas racistas, tinha piadas homofóbicas e tinha piadas xenofóbicas e isso não passaria incólume. E certamente não é culpa do “Monstro do Politicamente Correto”, o mundo mudou, aceitem!

E isso vale para todos, não é coisa de esquerda ou direita. Não houve barulho nas redes quando saiu o trailer de “Super Drags”? Ou com os especiais de natal do “Porta dos fundos”? Qual desses não faz parte da agenda do politicamente correto? Aliás, eu fico me perguntando onde estão aquelas pessoas que protestaram tanto contra a animação “Super Drags” nesse momento? Afinal, “Big Mouth” claramente não é para crianças e é muito mais explícita do que a animação das Drags heroínas, mas nesse caso não vimos nota oficial da “Sociedade Brasileira de Pediatria”, de deputados, de pastores. Fica o questionamento!

E qual é a “lacração” a que me refiro? A série é incrivelmente representativa, tem personagens gays, lésbicas, bissexuais, panssexuais, transsexuais, tem um episódio todo dedicado a falar sobre o espectro da sexualidade, com a participação especial do “The Queer Eye”, um episódio nada sutil sobre como o comportamento social muda de acordo com sua cor da pele. Enfim, “Big Mouth” é uma animação bastante adulta, com muitos palavrões, peitos, pênis, vaginas e bundas, mas acima de tudo, com muito conteúdo. É um humor absurdo, “nonsense”, surreal e rasgado que merece ser conferido.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre seu episódio preferido de “Big Mouth” ou de outras animações adultas. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o episódio 3 da temporada 1, é o primeiro episódio em que uma das personagens questiona a própria sexualidade ao ficar excitada com alguém do mesmo sexo. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e lutou diversas vezes contra o Monstro dos Hormônios durante sua adolescência.

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