Em mais um acerto, nova animação da Pixar nos faz refletir sobre a impossibilidade de se adiar a vida

Por Fernando Fontana

Dizer que a Pixar não erra é um exagero, mas desde o primeiro Toy Story lançado há 25 anos, ela errou pouco, e quando acertou a mão, produziu ouro puro, e tal como o pequeno Remy em Ratatouille, seus roteiros misturam com precisão os ingredientes para nos entregar a receita perfeita, que com suas muitas camadas, diverte e emociona tanto crianças quanto adultos, embora de formas diferentes.

Em Soul conhecemos Joe Gardner (dublado por Jamie Foxx no original e por Jorge Lucas na versão brasileira), professor de música em uma escola pública que acaba de receber a notícia que foi efetivado no cargo. Se para a mãe de Joe essa é uma grande notícia, para ele nem tanto, seu sonho é viver de música, mas não ensinando e sim tocando, sua grande paixão.

O comportamento de Libba, sua mãe, não é incomum; em nossa sociedade, sucesso e felicidade são costumeiramente atrelados ao quanto você ganha e quanto patrimônio acumulou durante a vida, por isso mesmo, é natural que pais, que muitas vezes passaram por dificuldades no passado, desejem que os filhos sigam uma profissão que garanta estabilidade e um bom rendimento em detrimento daquilo que amam fazer, acreditando fazer o melhor para eles.

Joe, por sua vez, acredita que só será verdadeiramente feliz quando tocar em uma banda, fizer sucesso e conseguiu se sustentar com esse trabalho. Sua chance chega quando um ex aluno o chama para um teste para pianista na banda de Dorothea Williams (Ângela Bassett no original, Luciana Mello na versão brasileira), uma famosa musicista de Jazz.

Joe Gardner tocando piano, sua grande paixão

Infelizmente, no dia em que faria sua apresentação, Joe morre e vai parar acidentalmente (ao se recusar a ir em direção a luz) no lugar onde jovens almas são preparadas para embarcar na sua jornada pela vida. Ele se torna tutor de “Vinte e Dois” (Tina Fey no original, Carol Valença na versão brasileira), uma alma que há muito tempo se recusa a descobrir sua missão e com isso tornar-se apta a nascer.

É bastante óbvio que da interação, ambos irão retirar lições valiosas, mas a obviedade cessa por aí, Gardner e Vinte e Dois, mesmo sem saber, tem muito em comum, ambos estão adiando a vida.

Se Vinte e Dois tem medo de viver, Gardner acredita que sua vida só irá começar de verdade a partir do momento em que tornar-se um músico de sucesso. A primeira irá tentar de tudo para não nascer, e o segundo para voltar a vida e comparecer ao seu “grande dia”, onde irá tocar ao lado de Dorothea Williams.

Soul não critica a paixão por algo e a busca pelos sonhos, mas esse adiamento da vida enquanto eles não se realizam, ou a obsessão com este único aspecto dela, perfeitamente materializados na figura das almas perdidas, seres humanos que estão tão presos a uma ideia ou objetivo, que se desconectam da realidade e tornam-se criaturas sombrias vagando entre o mundo físico e o imaterial.

Vinte Dois e Joe Gardner, almas que estão deixando de viver

Ao colocar todas suas fichas em um possível futuro, abandona-se o presente, e as pequenas coisas que tornam a jornada tão interessante, como um abraço apertado, um pedaço de sua pizza favorita, o nascer do Sol ou um bom filme. Você certamente sabe do que estamos falando, começar a semana esperando pelo fim de semana, estar em um almoço com a família pensando no compromisso de amanhã cedo, o eterno mantra: serei feliz quando terminar a faculdade, serei feliz quando tiver um bom emprego, serei feliz quando tiver um namorado(a), quando publicar um livro, quando tiver um filho, um carro novo, uma casa nova, quando viajar, e assim por diante.

É uma ilusão que já foi bem retratada em filmes como “Clube da Luta”, “Beleza Americana”, entre outros, mas que em Soul ganha novas cores. Assim como um peixe pode passar a vida buscando o oceano sem saber que já está nele, pessoas podem passar uma existência buscando uma vida que valha a pena ser vivida sem perceber que ela sempre esteve diante de seus olhos.

Não, Soul não pede que você ou eu abandonemos nossas paixões, planos ou sonhos, mas que não nos desesperemos ou nos consideremos um fracasso quando as coisas não saem exatamente como planejávamos. Você pode não seguir a carreira que imaginou ou seguir e não ficar milionário, mas ainda assim tocar vidas, faze-las melhores, e encontrar realização nisso.

E a animação não deixa de mencionar o tipo de pessoa que irá diminuir seus feitos para poder se sentir melhor com seus próprios fracassos. Você também já deve ter trombado com elas: se formar em faculdade particular qualquer um se forma, passou em um concurso por sorte, publicar um livro por conta própria é fácil, qualquer um tem um canal no Youtube hoje em dia, e por aí vai.

O antes da vida retratado em Soul

Com um roteiro que faz refletir, belíssimas imagens, soluções interessantes para retratar o além e o antes da vida com toda sua espiritualidade, mas sem mencionar qualquer religião, e um final em aberto que funciona perfeitamente, Soul chegou no dia 25 de dezembro como um presenta da Pixar para todos nós que passamos um ano turbulento.

Deixa o celular no mudo, acomode-se na poltrona, e curta essa belíssima animação, você não irá se arrepender.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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