Apesar da mensagem de esperança, Mulher Maravilha se perde em um roteiro alicerçado em uma trama confusa e inverossímil

Por Fernando Fontana

Nos tempos turbulentos em que vivemos, com uma pandemia que nos afasta das pessoas que amamos, ceifa inúmeras vidas, reduz postos de trabalho, gera um ambiente de incertezas e altera drasticamente aquilo que aprendemos a chamar de normal, filmes com uma mensagem de esperança são sempre bem vindos.

Super-heróis, mais do que impedir assaltos e derrotar super vilões, são capazes de se sacrificar quando necessário e de nos inspirar com seus feitos e sua disposição para lutar pelo que é certo; O roteiro de Mulher Maravilha 1984, mais uma vez dirigido por Patty Jenkins, e com Gal Gadot no papel da heroína, mira nessa capacidade de inspirar e de transmitir uma mensagem de esperança, que de fato chega no final do terceiro ato, mas se perde pelo caminho, em uma trama que tem dificuldade para se sustentar.

Os poderes de ambos os vilões, Maxwell Lord (Pedro Pascal) e Barbara Minerva/Mulher Leopardo (Kristen Wiig) tem sua origem em uma pedra mágica que concede desejos. Fica claro que não há um limite para o que pode ser desejado, sendo que a pedra logo depois “cobra” da pessoa que desejou aquilo que ela tinha ou tem de mais importante.

É justamente ao tentar lidar com um poder tão grande quanto esse, justificando as ações de Max Lord, que o roteiro começa a se perder, apresenta furos e coloca a suspenção de descrença na corda bamba. Com as pessoas certas e um mínimo de planejamento, e Lord dominaria o mundo sem sair da cadeira do seu escritório.

Gal Gadot interpreta Mulher Maravilha em WW 1984

A sequência do Shopping Center, onde Diana impede um assalto, lembrou filmes de super-heróis antigos, em especial, Superman (1978) com o eterno Christopher Reeve no papel do Homem de Aço, quando havia um ar de inocência presente e os bandidos se comportam de forma atabalhoada, muito mais engraçados do que ameaçadores. O retorno de Steve Trevor (Chris Pine) e o romance que se segue também lembra as comédias descompromissadas dos anos 80. As piadas ligadas à estranheza que a tecnologia e as vestimentas modernas causam em Trevor tem sua graça, mas que se esgota rapidamente.

Já Bárbara Minerva é interessante e tem bons momentos, como a cena em que ela dá uma surra em um assediador (que mulher já não quis fazer isso), porém, a impressão que temos é que já vimos essa personagem antes, fraca e submissa, mas que de repente torna-se forte e cobra com juros e correção as humilhações que sofreu. Algumas camadas a mais e diálogos melhores fariam bem tanto a ela quanto a Lord.

Nesse ponto é bom que se diga, o filme perde muito de sua força graças ao roteiro e não às atrizes ou atores; Gal Gadot mais uma vez encarna muito bem a Mulher Maravilha, Pascal, Wiig e Pine não decepcionam em suas interpretações, mas o material não ajuda.

Não são muitas as cenas de ação e as que temos não empolgam, decididamente nenhuma delas chega perto do que foi Diana avançando pelas trincheiras da Terra de Ninguém enquanto soldados alemães tentavam alveja-la com tiros de metralhadora em seu primeiro filme.

Em alguns momentos os efeitos especiais, sejam quando ela está voando ou correndo, deixam claro que estamos diante de um fundo verde; não sei se foi proposital para emular um filme da década de 80, ou se foi falta de cuidado na pós produção, mas o certo é que incomoda.

A fotografia é repleta de cores e luz intensa, refletindo tanto a heroína quanto a década em que se passa o longa, destaque para a cena em que Trevor e Diana estão no jato invisível enquanto fogos de artifício estouram ao seu redor.

É possível perceber claramente onde a diretora queria chegar, e como já foi dito, uma mensagem de esperança, assim como mulheres fortes surrando assediadores são sempre bem vindas; se você já assistiu “Todo-Poderoso” (2003) com Jim Carrey e Morgan Freeman sabe que se todos os desejos das pessoas fossem atendidos o mundo entraria em colapso, ganância e egoísmo são péssimos guias para a humanidade.

Ao apostar suas fichas em um artefato que concede desejos com poder ilimitado, e construir sua trama e seus vilões ao redor dele, Jenkins não consegue construir uma história ao mesmo tempo épica e crível, que conduza a um clímax bem construído, e seu “Mulher Maravilha 1984”, mesmo contando com um Jato Invisível e a presença de Lynda Carter na cena pós crédito, não decola.

Não é o pior filme já produzido pela DC Comics, como alguns, exageradamente chegaram a dizer, mas está longe de ser o melhor, sendo inferior inclusive ao primeiro longa de 2017.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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