Em sua nova temporada, série derivada de Karatê Kid repete fórmula do sucesso, mas dá primeiros sinais de cansaço

Por Fernando Fontana

Se você busca o equilíbrio e não quer spoilers fique longe deste texto

Uma crítica jamais é imparcial, o crítico pode e deve fazer o máximo para analisar uma obra sem permitir que suas paixões influenciem no resultado de seu texto, mas invariavelmente, seja em maior ou menor grau, elas estarão lá.

Por isso, é tão difícil escrever sobre séries como Mandaloriano e Cobra Kai, a criança que mora dentro de mim já começa vibrando ao ver seus personagens preferidos de volta para a tela; apaixona-se pela ideia, e não é segredo para ninguém que um dos grandes atrativos, embora longe de ser o único, de ambos os shows, seja a nostalgia, ainda mais presente no caso de Daniel San, Johnny Lawrence e companhia.

Se Cobra Kai se sustentasse unicamente nessa paixão e nostalgia, não conseguiria cativar ou manter o público por tanto tempo, e em sua terceira temporada, primeira como “produto original Netflix”, já que as duas anteriores foram lançadas no Youtube Premium, a série demonstra compreender bem as razões de seu sucesso, o funcionamento de seu universo e a natureza de seus personagens, mas sua fórmula começa a dar os primeiros sinais de esgotamento, o que não chega a ser preocupante, já que em seu final, aponta para um novo rumo, que de certa forma, era inevitável e já antecipado pelos fãs.

Miguel e Johnny Lawrence,

Após o final trágico da segunda temporada, Miguel Diaz (Xolo Maridueña) sai do coma sem saber se conseguirá andar novamente, e Johnny Lawrence (William Zabka), se sentindo responsável e corroído pela culpa, afunda mais uma vez na solidão, consumo de álcool e brigas de bar. Assim como na primeira temporada, aluno e sensei ajudarão um ao outro a se erguerem e ficarem mais fortes.

A forma como Miguel se recupera dos ferimentos seria difícil de engolir em outro cenário, mas no universo de Cobra Kai e Karatê Kid, onde artes marciais são ensinadas através de pintura de cercas e polimento de carros, e o sr. Miyagi (Pat Morita) cura Daniel San (Ralph Macchio) e o devolve para ser campeão no torneio contra Johnny Lawrence (no primeiro Karatê Kid) com habilidades quase sobrenaturais, torna-se perfeitamente aceitável. É na relação entre Miguel e Johnny que está a maior dose de humor de Cobra Kai, com as técnicas nada ortodoxas do sensei e sua completa falta de habilidade com computadores e mulheres.

Ao se dedicar a Miguel, mais uma vez o relacionamento de Lawrence com seu filho Robby (Tanner Buchanan) fica prejudicado, e dessa vez o rapaz, pagando o preço pelo erro cometido na primeira temporada, também se voltará contra seu antigo sensei, Daniel, tornando-se presa fácil para John Kreese (Martin Kove).

Os criadores do show tinham um problema bastante evidente, se veríamos o ponto de vista de Johnny Lawrence e sua redenção, e se obviamente Daniel San não seria transformado em vilão, algum personagem precisaria assumir o papel de grande antagonista, e Kreese tornou-se a opção perfeita.

John Kreese assume o controle do Dojo Cobra Kai

Kreese, ao contrário de Lawrence, seu antigo pupilo, não tem tons de cinza, é um vilão a moda antiga, típico dos anos 80, mal, assustador e desprezível por inteiro, feito sob medida para ser odiado, características reforçadas pelo roteiro e pela atuação de Kove. Ele guia os novos alunos do Cobra Kai, agora sob seu controle, pelo caminho dos punhos, não apenas incentivando um comportamento agressivo e desleal, mas expulsando do Dojo qualquer um que conteste sua visão de mundo ou demonstre qualquer tipo de fraqueza.

O roteiro reserva, no entanto, alguns bons momentos para que compreendamos as razões pelas quais a mente do vilão ficou tão perturbada a ponto de considerar a violência como único caminho e adversários como inimigos que devem ser destruídos a qualquer custo. Temos a oportunidade de ver o seu passado no Vietnã, e a sequência de eventos que o levou a ser quem é. Uma curiosidade é que, em determinado momento, o jovem Kreese, interpretado por Barrett Carnahan, se encontra com um valentão interpretado por Jesse Kove, filho do ator Martin Kove, que interpreta Kreese nos filmes e na série.

Enquanto Lawrence se decida a recuperação de Miguel, Kreese dissemina o caos na cidade, com seus alunos promovendo inúmeras brigas. É nesse ponto e no núcleo dos adolescentes, contando principalmente com Sam (Mary Mouser) e Hawk (Jacob Bertrand) que a série se torna um pouco cansativa; novos e sucessivos confrontos entre os alunos do Cobra Kai e do Miyagi Do ocorrem, e esse artifício perde força a cada vez que é utilizado, diminuindo o impacto e o interesse, nos fazendo desejar ver o quanto antes Johnny e Daniel em cena novamente.

Daniel que tem todo um arco em Okinawa, terra natal do Sr. Miyagi; com uma explicação plausível, precisando solucionar um grave problema relacionado à sua concessionária, ele retorna ao Japão e reencontra antigos conhecidos, como Kumiko (Tamlyn Tomita), seu par romântico em Karatê Kid II (1986) e Chozen (Yuji Okumoto), o oponente com o qual ele lutou no final do mesmo filme.

Chozen e Kumiko, personagens de Karatê Kid 2 retornam em Cobra Kai

Impossível dizer que não é emocionante rever esses personagens, e para dizer a verdade, esse arco em Okinawa passa rápido até demais, havia potencial para estende-lo, e o que vemos de Chozen, na realidade, guardadas as devidas proporções, acaba sendo resumidamente uma repetição da história de Lawrence, o vilão que encontra uma segunda chance e se redime.

E se não bastasse o retorno de Chozen e Kumiko, finalmente vemos Ali Mills (Elisabeth Shue), que já havia sido mencionada nas temporadas anteriores. Ela não fica muito tempo em cena, mas sua presença ajuda a aproximar Daniel e Johnny, uma vez que foi a principal razão para o início da inimizade entre ambos, e agora, passado tanto tempo, traz consigo a conclusão de que eles não devem ficar presos ao passado e que os dois Senseis tem mais em comum do que gostariam de admitir.

Talvez com isso em mente, o final da terceira temporada dê um passo adiante, estabelecendo a aliança entre Johnny e Daniel e colocando-os contra seu inimigo em comum, Cobra Kai e John Kreese; a luta final é empolgante e nós torcemos para que o antigo sensei seja derrotado pelos dois.

E Kreese não estará sozinho na terceira temporada, além de contar com Robby, que ao perder a confiança em seu pai e em Daniel, acaba sendo seduzido pela “lado sombrio” do Karatê, o vilão, com uma ligação, recruta um velho amigo do passado, alguém que lhe deve a vida, e ao que tudo indica, será Terry Silver (Thomas Ian Griffith), que já atormentou a vida de Daniel San e tomou uma surra do Sr. Miyagi em karatê Kid 3 (1989).

Daniel San e Johnny Lawrence, finalmente juntos contra um inimigo em comum

E para que não digam que não falamos das cenas de luta, em uma série sobre Karatê, elas estão melhores, não comprometem, mas ainda não são de encher os olhos.

Com uma boa terceira temporada, embora não tanto quanto as anteriores, e correndo o risco de esgotar a fórmula, a decisão de avançar a história vem em boa hora, criando grande expectativa para o que está por vir. Com protagonistas fortes e pelos quais torcemos, e um vilão que garante o ódio do público, Cobra Kai ainda é uma excelente opção para quem quer maratonar uma série empolgante e divertida, capaz de agradar tanto o público mais antigo quanto os mais jovens.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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