O Vale Nerd – “Preacher” – Até o fim do mundo

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vou discutir a adaptação para a TV, da famosa HQ de Garth Ennis (“The Boys”) e Steve Dillon (“Hellblazer”) sobre um reverendo que ganha o “poder da palavra”, não ele não ganha o poder de fazer pregações capazes arrebanhar multidões mas sim o poder de transformar em realidade praticamente qualquer coisa que diga, hoje vou falar de “Preacher”.

Antes de analisar a série da AMC que adapta os eventos da HQ, tenho que explanar um pouco sobre os quadrinhos em si e sobre minha experiência pessoal com eles. Quando ouvi falar de “Preacher” pela primeira vez, imaginei que estaria diante de uma obra prima tal qual “Batman – O Cavaleiro das Trevas” ou “Watchmen”, e minhas expectativas se ampliaram pelo fato da história do Pastor Jesse Custer ter sido publicada pelo selo “Vertigo” (a divisão da DC, responsável por histórias “adultas”). O primeiro ponto da questão é que “Preacher” era sempre descrita como polêmica, controversa, chocante e todo o tipo de sinônimos, mas quando finalmente li o primeiro volume só consegui pensar “não é para tanto!”. Esse é o grande problema da expectativa, raramente a realidade consegue superá-la.

O segundo ponto da questão é que os temas mais sensíveis ou controversos da HQ são a violência e a sátira religiosa e quando eu finalmente li “Preacher” eu já estava muito calejado com a temática. Afinal de contas, há anos ela vem sendo desgastada e até banalizada por programas como “South Park” e “Family Guy”. O somatório disso tudo é que a história não causou em mim o impacto que deveria ter causado.

Preacher, violência e sátira religiosa que hoje em dia já não causam o mesmo impacto

Para piorar, não tinha lido nada de muito bom sobre a série de TV, então foi por pura curiosidade que resolvi maratonar as quatro temporadas do programa que agora estão disponíveis na “Amazon Prime Video”. Sem muito interesse ou grandes expectativas a situação se inverteu e o resultado foi um veredito do tipo “não é tão ruim”!

Tem uma forma de resumir a sensação de assistir “Preacher”: Nos quadrinhos, quando a “palavra” atinge Jesse ela causa uma enorme explosão, destrói a igreja em que ele se encontra, matando assim todos os que nela estavam. Na série, quando Jesse é possuído, nada acontece. Os episódios prosseguem com ele descobrindo seu novo poder, tramas e personagens sendo apresentadas e uma temporada inteira depois nós finalmente veremos uma explosão. Ou seja, parecia que eu estava sendo enrolado, ao mesmo tempo parecia que algumas tramas estavam sendo introduzidas precocemente. Era muito confuso, e eu acho essa falta de fidelidade ao material original muito estranho visto que um dos produtores executivos da série é o próprio Ennis.

Eu aceito o fato de que nem todos os eventos sejam adaptados literalmente, mas a mudança na personalidade das personagens, essa sim me incomoda (muito mais do que a mudança nos visuais, e olha que foi difícil engolir aquele topete “Luan Santana” no Reverendo Custer). Nos quadrinhos, tanto Jesse quanto sua ex-namorada Tulipa são personagens extremamente deprimentes e carregadas de dor e sofrimento, sobrando ao constantemente extasiado vampiro Cassidy, o papel de contraponto ao mal humor dos dois. Nada disso se traduz na série, falta peso às personagens, falta tragédia.

Outra coisa que falta na série é um pouco mais de “pé na estrada”, a HQ é praticamente um “Road Movie” com o trio de protagonista partindo numa longa viagem para encontrar Deus e “obter algumas respostas”. Em vez disso, parece que a série dividiu cada temporada em uma única locação, deixando uma indesejada sensação de estagnação. O arco da guerra é completamente eliminado da trama e eu, pessoalmente, senti falta da presença do John Wayne.

Cara de Cu tem esse nome por razões bastante óbvias

Continuando nos problemas, eu achei que o “Santo dos Assassinos” é muito mais intimidador nos quadrinhos do que na série, na TV eu até simpatizei com ele. Outra personagem decepcionante é o Cara de Cu (o nome é esse mesmo, a culpa não é minha), ele deveria ser repugnante e incômodo mas na série ele é só um cara com uma cicatriz (aparentemente a única pessoa de coração puro na série).

Falando assim parece que a série só tem defeitos e não é bem por aí. O Cara de Cu (ou Eugene como preferem chamar na série) pode não estar exatamente igual aos quadrinhos, mas ainda assim é um excelente trabalho de prótese e maquiagem para padrões televisivos. Em matéria de aparência, o Santo dos Assassinos é a personagem mais bem representada de todas, o visual dele é incrivelmente parecido.

Outra coisa que merece muito destaque são as cenas de luta, muitíssimo bem dirigidas, coreografadas e bem filmadas elas deixam no chinelo grandes produções de cinema. Isso porque a direção evita o moderno vício de colocar dúzias de cortes acompanhados de uma câmera excessivamente tremida a cada soco desferido. Esse recurso muitas vezes é usado apenas para disfarçar a falta de habilidade dos atores e na maioria delas resulta em cenas confusas e desinteressantes. Seguindo o caminho oposto, a série traz sequências de luta emocionantes, fluidas e visualmente agradáveis, das melhores que eu já vi numa produção para a TV.

Com quatro temporadas, Preacher possui arcos distintos bem definidos e consistentes. Não consigo me recordar de nenhuma ponta solta ou história que não tenha sido resolvida. Na verdade, a última temporada trouxe uma conclusão impressionantemente satisfatória para cada uma das personagens, é claro que nem tudo é perfeito e algumas coisas – como o destino do filho do Cassidy – poderiam ser melhor acabadas, mas o saldo geral eu ainda considero positivo.

Pensei que ele tivesse dito que a série não era tão ruim

E se você esteve esperando até agora para saber o porquê dessa matéria estar no Vale Nerd vai se decepcionar. Basicamente, no meio da série o vampiro se envolve com outro homem, revelando ser bissexual. O problema é que a forma como isso é introduzido na história é péssima, completamente despropositada, sem sentido e sem nenhuma relação com o restante da trama. Quando “Castlevaniafez isso com o vampiro Alucard houve crescimento da personagem, teve causa, consequência e um contexto, com “Preacher” tudo parece ter sido jogado na história a troco de nada, é triste.

O resultado de todos esses fatores é uma obra que está muito distante da original mas que de forma alguma pode ser considerada uma completa perda de tempo. Tem muito gore mas nem de longe é tão violenta quanto a HQ (há muita diferença entre uma coisa e outra), há também o fato de que ela não consegue ser tão provocativa (até os especiais de natal do “Porta dos Fundos” causam mais polêmica). Mas se a questão é humor ácido e muito nonsense você não vai se decepcionar. O fato de termos uma história com começo, meio e fim também não deixa de ser um fator positivo nesse mar de cancelamentos e histórias sem conclusão no qual vivemos hoje (estou falando com você Netflix!).

E se você quiser conversar comigo, falar de “Preacher” ou outras obras inspiradas em HQ. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a HQ “Motoqueiro Fantasma – Estrada para a Danação”, outro quadrinho escrito por Garth Ennis cheio de humor perverso e inspirações religiosas. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e queria ter o dom da palavra pra obrigar a Netflix a terminar as séries que começa

1 Comment

  1. Julie Any disse:

    Perfeito como sempre 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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