Por Lorena Soeiro

Cobra Kai é um show ‘Azarão”. Das series do Youtube Originals foi a única a ser salva pela Netflix. A história original de Karate Kid também trata -se de um azarão; O Daniel, obviamente o mais fraco, vence Lawrence.

Agora, em Cobra Kai, vemos a história mudar de protagonista. Aqui é Lawrence que vai buscar sua vitória. Temos uma história de universo expandido. Uma continuação vista sob uma nova ótica, a do “vilão” em busca da redenção. E, mesmo sob essa inédita premissa, preciso confessar que, às vezes, me sinto culpada por gostar desse show. Que fique bem claro: Eu adoro Cobra Kai e sou time Johnny Laurence para vida toda desde que Barney (personagem de How I Meet Your Mother) me fez repensar sobre todo 1º Karate Kid.

Veja bem a série tem vários méritos. Toda essa vibe oitentista está em alta de Stranger Things até a excelente ambientação de Wonder Woman.  Adoramos tudo da década de 80. As cores, as roupas, as músicas, os atores conhecidos. Então temos muito apego emocional a essa época mais divertida, mais simples. Principalmente comparada a época atual.

A gente tem mesmo que ouvir a Lorena falar dos problemas do nosso Show?

Porém não podemos deixar que a nostalgia nos cegue para os problemas óbvios do show:

Na última temporada a rivalidade entre Johnny Lawrence (William Zabka) e Daniel Larusso (Ralph Macchio) levou a uma enorme briga de escola entre os adolescentes de seus respectivos dojos. O resultado? O filho de Johnny (e estudante de Danny) Robby Keene (Tanner Buchanan) se tornando um fugitivo, o aluno estrela de Johnny, Miguel (Xolo Maridueña) quebrando suas costas e entrando em coma, e a comunidade contra ambos os dojos por colocar seus filhos no meio dessa violência.

Além disso, Johnny deixa Cobra Kai, seu grisalho e machista ex-mentor John Kreese (Martin Kove) preenchendo o vazio e devolvendo o dojo aos seus princípios de “atacar primeiro, atacar com força, sem misericórdia”(lema de Cobra Kai). Engraçado que, apesar da cidade chocada com essa luta e os seus efeitos, só abordam isso em um único episódio e citam quando o roteiro assim o julga conveniente.

Uma das melhores coisas que o programa nos deu foi a possibilidade de entrar no mundo através do ponto de vista de Johnny – o quintessencial vilão do cinema dos anos 80 que acabou como perdedor do ensino médio que você esperaria. Zabka, visivelmente duro e um pouco cru em suas aparições iniciais, realmente cresceu no personagem, habitando cada pedacinho de sua persona de homem das cavernas enquanto humaniza-o ao longo da série. 

QUIET! Estou lendo a parte em que a Lorena me elogia.

Daniel, enquanto isso, tem encontrado o seu próprio caminho; ele está resolvido, com uma adorável esposa (Courtney Henggeler), filhos (incluindo Sam de Mary Mouser, que segue os passos de karatê de seu pai), e uma concessionária de carros que capitaliza sua fama de 1984. Embora pareçam de mundos diferentes, eles não poderiam ser mais parecidos – tão competitivos, tão dispostos a deixar um torneio de karatê trinta anos atrás definir sua autoestima. É essa dinâmica que o show toca tão bem, especialmente na 3ª temporada, à medida que suas conexões com seus respectivos alunos começam a uni-los de maneiras inesperadas.        

Assim como o sensei acabado em seu centro, Cobra Kai passa muito da 3ª temporada interrogando a velha dinâmica pela qual eles definem suas vidas, e o abismo entre a simplicidade em preto e branco dos anos 80 e as complexidades moralmente cinzentas da atualidade. A produção ainda encontra maneiras de transformar seu orçamento mais baixo e elementos mais bregas a seu favor – a apresentação iluminada e modesta é tão charmosa como as pistas da música heavy metal e ocasionalmente os diálogos que nos remetem a trilogia original. É como se estivéssemos passeando por nossas memorias de sessão da tarde.

O roteiro é excelente quando está na boca de Johnny, Daniel e Kreese (Kove tendo mais chances de adicionar camadas ao seu mentor alfa-macho tóxico, fervendo com o machismo de Jesse Ventura); mas quando o roteiro está na parte malhação do show, falha ao escrever diálogos para seu elenco expandido de personagens adolescentes. Ainda assim, o show consegue torná-los cativantes também, particularmente o revitalizado show de pai e filho de Maridueña com Johnny (os dois tem uma química incrível) e a amizade abalada entre os ex-nerds-rivais Hawk (Jacob Bertrand) e Demetri (Gianni Decenzo).

Ela disse que nossos diálogos são ruins?

Apesar de seus objetivos, Cobra Kai mistura suas mensagens com muita frequência, especialmente considerando a forma como a dinâmica do show está começando a voltar para a dicotomia do bem contra o mal que assola suas inspirações dos anos 80. O ponto inicial do show era que Danny e Johnny, apesar de seus ânimos diferentes, queriam a mesma coisa – usando karatê para melhorar a vida das crianças que ensinam – mas deixam queixas pessoais atrapalharem esses objetivos. Com a chegada de Kreese, no entanto, e a introdução na terceira temporada de alguns bons e velhos valentões do ensino médio dos anos 80 para nossos rivais se reconciliarem, estamos perigosamente perto de encontrar nossos heróis tentando chutar e socar seu caminho para resolver seus problemas.

Outro ponto baixo para mim foram os flashbacks de Kreese – pensei que fossem usados para humaniza-lo, porem, diferente do que foi feito muito bem com o personagem do Lawrence, o recurso não serve para humaniza-lo, pelo contrário só entrega mais um vilão clichê da década de 80.

Nesta temporada temos 3 Senseis, mas, ao meu ver, nenhum dos 3 está apto –ainda – a ser mentor dessas crianças. Não de acordo com as regras ensinadas por Sr. Miyagi no primeiro Karatê Kid.

Daniel San, não existe personagem ruim, só roteirista ruim!

Mesmo assim, a terceira temporada ainda está inundada de charmosos personagens e sobrancelha arqueada que fez dele um sucesso tão cult em primeiro lugar, e até começa a expandir sua lista de referências para além do primeiro filme karatê Kid (alguns rostos familiares da sequência aparecem, e eu aposto que veremos Hilary Swank aparecer antes da série acabar. (Principalmente depois da maravilhosa participação da Elisabeth Shue e todo o arco oriental). 

Fundamentalmente, o show permanece sendo sobre nossas lutas para recuperar ou reparar os erros do passado, e que o empurrar e puxar entre o rancor e a cura para nossos dois combatentes de caratê é a energia que mantém Cobra Kai à tona. Ainda há problemas com certeza, e o show ameaça em vários momentos ser vítima de seu próprio hype. Mas enquanto o arco dos adultos for mais interessante que o arco de adolescentes (algo inédito em shows) ainda devemos ter mais algumas temporadas de Cobra Kai. 

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Lorena Ferreira Soeiro é Professora tradutora de inglês, Nerd e DCnauta. Ocasionalmente viaja para participar de eventos Nerds e colabora com alguns sites de cultura pop. Atualmente está aperfeiçoando o Golpe da Garça!

3 Comments

  1. João Batista Rodrigues Freitas Bittencourt disse:

    Excelente texto, parabéns,linguagem inteligente e acessível,vou recom nfar pros amigos

  2. Persona disse:

    Parabéns Lorena, ótimo texto, gostei dos pontos abordados e principalmente da dinâmica com as imagens dos personagens interagindo kkkkkkkk… Massa mesmo!

  3. Ulisses Citrinitti disse:

    Legal!
    Gostei!
    Parabéns pelo texto e reflexões. Falou tudo, sobre a questão da dinâmica melhor ser focada no elenco original.
    John Kreese é um babaca, sempre foi e sempre será, talvez por isso seus flashbacks não deixam dúvidas que, diferente do Daniel e do Johnny, Kreese não se vê como vítima e culpa os outros. Ele só sabe ver vencedores e perdedores… E ele se nega a perder!

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