Coluna Nemo: Robôs – Um Centenário

Há 100 a palavra “robot” era usada numa peça teatral, pela primeira vez com um sentido próximo do que usamos hoje – o de seres artificiais e inteligentes construídos pelo ser humano

Por Sidemar de Castro

Cada vez mais, robôs deixam de ser apenas um dos vários subtemas da ficção científica, para se tornarem presenças reais, junto com seus irmãos computadores, em nossa sociedade informatizada.

Linhas de montagem industriais totalmente robotizadas e outros tipos de autômatos com as mais diversas utilidades, no transporte, medicina e pesquisa espacial ficam cada vez mais comuns. Em diversos institutos de pesquisas e empresas de tecnologia dos países mais desenvolvidos, a ciência robótica continua evoluindo, em busca da criação de um verdadeiro “ser artificial” inteligente.

Estamos muito longe, no entanto, do robô inteligente, a Inteligência Artificial (I.A.) prevista em livros e filmes. Foi numa peça teatral, entretanto, há exatos 100 anos, que o conceito e a palavra “robô” foram usados pela primeira vez do que se tornou uma imagem clássica da ficção científica: o ser artificial mais forte e inteligente que o humano e que, imbuído de algum tipo de razão ou sentimento, revolta-se contra seu dono e criador. Ressalve-se aqui que esse era, até certo ponto, o conceito por trás do livro Frankenstein, de Mary Shelley, escrito no século anterior, mas que tinha contornos mais góticos e de terror, embora baseado em princípios científicos (pelo menos para a sua época). Mary Shelley, aliás, é considerada, junto com Jules Verne e H. G. Wells, uma das fundadoras da ficção científica. O conceito atual de robô, entretanto, foi lançado numa peça de teatro hoje pouco conhecida, mas revolucionária quando encenada pela primeira vez em 25 de janeiro de 1921, completando um século este mês (janeiro de 2021). Seu nome era R.U.R.

Imagem da peça R.U.R (1921)

R. U. R. é uma peça teatral de ficção científica escrita pelo escritor checo Karel Capek. R. U. R. significa “Rossumovi Univerzální Roboti”. A frase em inglês “Rossum’s Universal Robots” foi usada como legenda na versão checa original. A peça introduziu a palavra “robot”, derivado do checo “robota”, que significa “servo de trabalho forçado”, e que adquiriu desde então tanto na ficção científica quanto na ciência real o significado de ser mecânico, máquina inteligente, vida artificial tecnológica.

Não que a ideia já não existisse, mas até então, autômatos não passavam de manequins movidos a engrenagens e eletricidade, e a ideia de que pudessem adquirir “vida”, “consciência” e se revoltassem contra seu “opressor” humano não se podia imaginar – com a possível exceção da criatura de Frankenstein. R. U. R. rapidamente tornou-se famosa e foi influente desde o início da história de sua publicação e encenação em vários países. Por volta de 1923, tinha sido traduzida para trinta línguas.

A peça começa em uma fábrica que faz pessoas artificiais, chamadas de roboti (robôs), a partir de matéria orgânica sintética. Elas não são exatamente robôs na definição atual do termo: são criaturas de carne e osso que estão mais próximas do conceito moderno de clones ou androides do que de máquinas. Elas podem ser confundidas com humanos e podem pensar por si mesmas. Parecem felizes em trabalhar para os seres humanos inicialmente, mas quando adquirem sentimentos e tem consciência de sua condição, uma rebelião leva à extinção da raça humana. R. U. R. é uma peça sombria, mas não sem esperança, e foi bem sucedida tanto na Europa quanto nos EUA.

Cartaz do filme Planeta Proibido

Dividida em três atos, a peça conta primeiro a história da fábrica Rossum, e de como este criou acidentalmente um produto químico que se comporta como um protoplasma e passou a produzir criaturas artificiais aos milhares. Na época em que se passa a peça (o “futuro” na década de 1950 ou 1960), os Robôs são baratos e disponíveis em todo o mundo. Eles tornaram-se absolutamente necessários, pois permitem que produtos sejam feitos por um quinto do custo anterior.

Surgem movimentos pró e contra a liberdade e direitos dos robôs. A “Liga da Humanidade” tenta convencer os fabricantes que os robôs devem ter uma “alma” e devem ser pagos, o que obviamente não interessa à empresa. Apesar de orgânicos, os robôs são fabricados como numa linha de montagem. Um crítico descreveu os robôs de Capek como a síntese “da transformação traumática da sociedade moderna pela Primeira Guerra Mundial e a linha de montagem Fordista.” O nome Rossum é uma alusão à palavra checa rozum, que significa “razão”, “sabedoria”, “intelecto” ou “senso comum”.

O conceito de robô na ficção científica foi depois ampliado por escritores como Isaac Asimov (ver matéria sobre o autor aqui), do clássico “Eu, robô” (cujo péssimo filme quase nada tem a ver com o livro). Asimov introduziu “as três leis da robótica”, um tipo de programação e norma de conduta para as máquinas.

Outros robôs famosos foram criados no cinema e na TV, como o Robbie, de Planeta Proibido (1956), o Robô de Perdidos no Espaço (“perigo, Will Robinson”), série dos anos 60 que já tem um ótimo remake atual, o androide Data de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, além dos famosos droides de Star Wars. Inúmeros outros filmes e séries abordaram a questão do robô, com particular destaque para Westworld, da HBO, sobre um parque temático em que os humanos podem “matar” à vontade perfeitas réplicas humanas que, no entanto, são robôs, que um dia descobrem como se revoltar contra seus fabricantes e usuários. E ainda os Replicantes de “Blade Runner”, androides produzidos para as mais diversas utilidades pelos humanos, e que são pouco mais que produtos descartáveis construídos com genética artificial. E, novamente, se revoltam. Basicamente, todos têm base na mesma história que R.U.R. conceituou há 100 anos.

Westworld, um parque onde humanos podem matar a vontade robôs

Embora ainda estejamos muito longe desse tipo de máquina inteligente, mesmo do HAL de 2001 Uma Odisseia no Espaço ou da Matrix, mais ainda dos robôs orgânicos de Capek, eles têm cada dia maior presença no mundo atual, por enquanto sem uma verdadeira inteligência e executando tarefas repetitivas ou perigosas, mas também tirando trabalho de mão de obra humana, o que pode significar um futuro problema social ou político.

Terão um dia consciência e lutarão por sua razão, pelo fim da opressão humana? Esse é o tema de boa parte da ficção científica moderna sobre robôs e um estudo sério em universidades quanto à emergência da chamada “singularidade”, o momento em que uma máquina (aí podemos incluir os computadores) passar no “teste de Turing”, que marca a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste. Vida inteligente, porém, artificial.

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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