Por Fernando Fontana

Alan Moore dispensa apresentações, e sempre que falamos no escritor britânico, as obras que costumam ser mencionadas são Watchmen, V de Vingança, Monstro do Pântano, entre outras; são histórias mais densas, adultas, repletas de violência, onde ele mostra uma visão diferente dos super-heróis, e que influenciou tremendamente os quadrinhos desde então.

Em 1982, portanto, antes de Watchmen, Moore produziu Miracleman, antecipando muitos dos elementos que fariam parte de suas futuras obras; a história do personagem é, no entanto, bem mais antiga e complicada.

Marvelman, a cópia do Capitão Marvel que era a cópia do Superman

Origem

No início da década de 50, a Fawcett Comics desistiu de publicar o Capitão Marvel e entrou em um acordo com a DC Comics (na época National Publications) que a acusava de plagiar o Superman, seu principal personagem.

Enquanto isso, na Inglaterra, a pequena editora L. Miller and Son, que republicava quadrinhos norte-americanos, entre eles, o Capitão Marvel da Fawcett, não estava disposta a largar o osso, e tomou uma decisão inusitada, contratando Mick Anglo para criar sua própria versão do herói.

Anglo entregou Marvelman, com poderes idênticos, transformação através de uma palavra mágica (Kimota ao invés de Shazam), um arqui-inimigo chamado Dr. Gargunza e até mesmo uma família, com Kid Miracleman e o Jovem Miracleman.

Na prática, a Miller and Son copiava o Capitão Marvel da Fawcett, que por sua vez fora acusada de copiar o Superman da National Publications. Eles sequer se deram ao trabalho de começar uma nova revista a partir do número 01; em fevereiro de 1954, um mês após a publicação de Capitão Marvel 24 (última edição com material da Fawcett), simplesmente publicaram Marvelman 25. Foram 346 edições entre o seu lançamento e o cancelamento em 1963.

Provavelmente o herói teria caído no esquecimento, se em 1982, a editora britânica Quality Communications não lançasse uma revista em preto e branco chamada Warrior, onde o editor Dez Skinn, desde o princípio, estava determinado a publicar novas histórias de Marvelman.

O escolhido para a missão de revitalizar o personagem foi um jovem roteirista chamado Alan Moore, contando com as ilustrações de Garry Leach e logo depois de Alan Davis.

Mais tarde, em 1985, a editora Eclipse, passou a publicar o material da Warrior nos Estados Unidos, porém, colorizado e repaginado. Para evitar qualquer tipo de problema com a Marvel Comics, o nome do principal personagem da revista foi alterado de Marvelman para Miracleman.

Alan Moore e sua Versão Sombria do Miracleman

Como se pode ver, Alan Moore tinha em suas mãos um personagem pouco conhecido, cujas histórias haviam sido encerradas ainda na década de 60; seu desafio era transforma-lo, dar-lhe maior profundidade, ao mesmo tempo em que não desconsiderava seu passado.

Para isso, começa narrando a história de Michael Moran, um homem comum, casado, repórter Freelancer mal pago, que constantemente tem dores de cabeça e sonhos perturbadores. Ao cobrir a inauguração de uma Usina Atômica que é invadida por terroristas, Moran se recorda da palavra Kimota, e ao pronuncia-la, transforma-se em Miracleman, recordando-se de quem realmente era.

Moran procura sua esposa, Liz, e transformado em Miracleman, lhe revela o seu passado esquecido, a parceria com Kid Miracleman e o Jovem Miracleman, suas aventuras e a luta contra o maligno Dr. Gargunza.

A reação inicial da esposa ao ouvir toda a história, ainda que aceite o fato de seu marido ter se transformado em outra pessoa, é de incredulidade; ela chega até mesmo a ridicularizar a situação, já que, na década de 80 ninguém jamais ouvira falar de Miracleman ou seus parceiros, além do próprio absurdo de toda a ideia, típica da ingenuidade presente na Era de Ouro dos quadrinhos.

O escritor habilmente utiliza essa ingenuidade ao seu favor, não ignora a origem criada por Mick Anglo, mas deixa em aberto que há algo de muito errado com o passado de Miracleman. Além disso, começa a trabalhar com o psicológico de alguém que se transforma em outra pessoa.

Ao pronunciar a palavra Kimota, tanto para se transformar em Miracleman quanto para retornar a sua forma original, apesar de manter todas as memórias, Moran percebe que há uma troca de corpos, e que ele e Miracleman são duas pessoas diferentes. Para se ter uma ideia de até onde a coisa vai, tal descoberta ganha uma nova dimensão quando sua esposa revela estar grávida, mas não dele e sim de Miracleman, que até então, ela acreditava ser seu esposo.

Questão que seria futuramente abordada em outras obras de Moore e de outros escritores por ele influenciados, é o que pode acontecer com uma pessoa com poderes semelhantes ao de um deus, e que tipo de influência ela causaria no mundo ao seu redor.

Como um ser-humano comum lidaria com a ideia de ser praticamente invulnerável e capaz de destruir cidades inteiras caso assim o desejasse? Como as autoridades reagiriam à sua presença?

O escritor já mencionou que um dos erros que enxerga nos quadrinhos de super-heróis, é que o mundo do Superman é basicamente o nosso só que com a presença do Superman, algo impossível de acontecer em sua concepção. Em Watchmen, por exemplo, a simples presença do Doutor Manhattan altera o equilíbrio de forças e dá a vitória para os Estados Unidos na guerra do Vietnã, assim como manteve a União Soviética afastada.

A violência está presente, em níveis nunca antes vistos, incluindo aí seres-humanos sendo carbonizados e bebês sendo arremessados. Se hoje, já estamos acostumados com ela (quem leu ou assistiu “The Boys” e “Kick Ass” sabe do que estou falando), até aquele momento quadrinhos de super-heróis eram muito mais parecidos com o Marvelman original.

Esse cenário mudou com a chegada de obras como o já mencionado Watchmen do próprio Moore (1986), Cavaleiro das Trevas (1986) e a Queda de Murdock (1986), ambas de Frank Miller, Marshall Law (1987), entre outras, que traziam personagens mais humanizados e com tramas mais elaboradas e sombrias.

Miracleman é o ancestral que deu início a toda essa revolução, e é uma obra que merece seu lugar na estante de qualquer fã de quadrinhos. Mais do que o valor histórico em si, Moore escreveu uma história que consegue cativar o leitor, fazendo com que ele queira saber mais sobre a verdadeira origem do personagem e por que ele simplesmente desapareceu entre o final da década de 60 e o início da década de 80.

Alan Moore, escritor de Miracleman pediu para que seu nome fosse retirado dos créditos na republicação do material.

O Escritor Original

Para quem se interessar, a Panini acabou de lançar o encadernado “Miracleman – Livro Um: Um Sonho de Voar”, com as primeiras histórias escritas por Alan Moore, mas, curiosamente, seu nome não está presente no encadernado por exigência do próprio escritor.

Em 2009 a Marvel Comics comprou os direitos do personagem Miracleman (que como você se lembra, mudou de nome justamente para não ter problemas com a editora), e decidiu publicar novamente as histórias escritas por Alan Moore e posteriormente por Neil Gaiman, mas Moore deixou claro que não queria seu nome utilizado em nada relacionado ao material ou sua divulgação.

Como solução, a Marvel creditou Miracleman a Mick Anglo e ao Escritor Original, que, no fim das contas, todo mundo sabe, é o barbudo britânico.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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