O Vale Nerd – “A lenda de Korra” – A evolução de “Avatar”

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e amo desenhos animados (por falar nisso, já assistiram “She-Ra e as princesas do poder”?). Algo que eu sempre digo sobre a arte é que “não importa o que se faz, mas sim como se faz” e é por isso que eu não ligo para o fato de a maioria dessas produções ser voltada ao público infantil, se algo é bem feito eu irei apreciar a qualidade do produto.

É o caso de “Avatar – A lenda de Aang”, o desenho foi um enorme sucesso no brasil e no mundo, gerou livros, hqs e um questionável filme dirigido pelo aclamado/odiado diretor M. Night Shyamalan (“O sexto sentido”, “Fragmentado”).

Esse filme é “The Last Airbender” e é um excelente exemplo (ou seria um péssimo exemplo?) do “não importa o que se faz, mas sim como se faz” afinal, a produção seguiu praticamente à risca os eventos da primeira temporada do desenho. A caracterização das personagens estava boa (uma salva de palmas para as tatuagens de Aang), os efeitos eram bons, as cenas de ação eram boas, mas a essência da série não foi respeitada e o filme que deveria ser o início de uma trilogia nunca ganhou sua sequência.

Eu vou lhe ensinar como é que não se faz uma adaptação!

Outra coisa que merece reflexão é o fato de muita gente utilizar o termo “complexo” como forma de elogio às obras de ficção. Eu particularmente não creio que complexidade seja sinônimo de qualidade, muito pelo contrário, eu acho muito mais difícil escrever algo que seja muito simples e muito bom. Ou como diriam os jurados do Masterchef “o bom cozinheiro não é aquele que faz uma Lagosta à Thermidor inesquecível, o bom cozinheiro é aquele que faz um arroz branco com ovo frito inesquecível” (e nesse momento eu surpreendo o Fernando mais uma vez, ao citar Masterchef numa crítica sobre um desenho animado).

“A lenda de Korra” é a sequência direta de “A lenda de Aang”, criada para acalentar os corações dos órfãos da animação original. O universo de “Avatar” é inesquecível justamente por ser muito simples e ao mesmo tempo muito rico. A história se passa numa versão imaginária da Terra na qual a magia existe, essa magia dá aos seres humanos a capacidade de manipular os elementos da natureza, são os chamados Dobradores (Dominadores na versão dublada). Os povos dessa Terra de fantasia são divididos entre a “Nação do Fogo”, “Tribo da Água”, “Nômades do Ar” e “Reino da Terra”.

A cada geração nasce um indivíduo único e especial que é capaz de manipular os quatro elementos e tem o objetivo de manter a paz e o equilíbrio entre os povos, esse indivíduo é o Avatar. Após a morte do Avatar Aang (o último dos “Nômades do Ar”), surge a Avatar Korra, uma garota da Tribo da Água que desde pequena já demonstra habilidade no domínio de água, fogo e terra, o único elemento com o qual ela não possui familiaridade é o ar e é esse o seu maior desafio no momento.

Korra domina água, fogo, terra, mas não ar e coração

Como eu disse, tudo aqui é muito simples, uma vez que você entendeu os conceitos desse universo de fantasia, só o que resta é aproveitar a jornada, conhecer as motivações, acompanhar a evolução e a resolução dos conflitos. O grande mérito da história é trazer elementos que vão tornando esse universo cada vez mais rico.

Há uma enormidade de personagens interessantes sendo apresentados, Korra vai fazer seu treinamento de “dobra de ar” com Tenzin, o filho de Aang, ele tem em seus ombros a responsabilidade de fazer renascer a cultura dos Nômades do Ar (talvez por isso que o safadinho não pare de fazer bebês), além dos filhos também são apresentados seus irmão e irmã, cada um com sua própria personalidade e motivação pessoal. Isso é a riqueza do universo de “Korra”.

A própria Korra é uma personagem bastante diferente de Aang, ela é uma adolescente de 17 anos impetuosa, impulsiva e confiante. Sua grande dificuldade está justamente em aprender a se controlar, meditar, desenvolver sua paciência e espiritualidade, para isso o monge é o professor perfeito.

Tenzin, dobrador de ar e fazedor de bebês

Vale lembrar que a série foi concebida para ter apenas uma temporada, uma espécie de spin-off do original, veja que enquanto Aang teve que aprender a dobra da água, da terra e do fogo, Korra tem que aprender apenas a dobra do ar. Além do mais, Aang era uma criança de 11 anos enquanto Korra é uma adolescente, essa diferença é introduzida para se conectar ao público alvo. “A lenda de Korra” era um complemento, a peça que faltava da “Lenda de Aang” a Nickelodeon praticamente diz: “Se você era criança quando assistiu Aang, agora deve ser um adolescente, então venha assistir Korra”. Essa mudança se reflete nas tramas e nas temáticas, agora com um tom menos inocente.

Quando eu digo que “A lenda de Korra” não é uma obra complexa, mas sim uma obra simples e rica, eu posso facilmente exemplificar isso com os primeiros episódios dessa temporada, a começar pela ambientação. A animação original tinha um visual completamente inspirado no Japão medieval, décadas se passaram desde então e quanto vimos a “Cidade República” podemos notar a mudança para o estilo Steampunk (que eu particularmente adoro), agora temos carros, motos, dirigíveis e até mechans nessa cidade que mistura passado e futuro e é completamente movida a vapor. Isso sem falar da melhora na qualidade da arte e da animação, que está sublime.

Outro exemplo da riqueza desse universo, é o esporte local apresentado nessa temporada: a “Dominação Profissional”. É um esporte completo com campeonato, regras, uniformes, arenas e até critério de desempate. Não são dobradores desferindo golpes aleatórios uns nos outros, eles devem respeitar os limites da arena, o número de membros, os tipos de dobra. É tudo claro, simples e completo e é um exemplo muito icônico de como funciona esse universo. Cada jogador, assim como cada nação, tem seu próprio papel aqui, esse universo tem regras, regras muito bem explicadas e bem utilizadas.

O visual Steampunk presente em a Lenda de Korra

Quando vemos a utilização de sub-dobras na trama, sabemos que não é um recurso pobre de roteiro para facilitar resoluções. Fica claro que dobradores de terra “mais fortes” podem dobrar metal (mas não platina). Dobradores de água podem criar gelo e os “mais fortes” podem dobrar sangue (mas só na lua cheia), então quando vemos uma personagem em uma situação limite dobrar lava para se salvar sabemos que não é um simples Deus ex machina preguiçoso. É uma solução que já havíamos visto na trama, que faz sentido naquele momento, que está dentro das regras. Quando vemos um vilão dobrar o ar para fora dos pulmões do inimigo ficamos chocados ao mesmo tempo em que vemos como se pode jogar dentro das regras e ainda assim jogar pesado. Essa não é mais uma animação completamente infantil, não há sangue ou gore, mas é claramente mais violenta.

As mudanças dessa nova obra não se restringem à violência, a trama está também muito mais madura. Enquanto “A lenda de Aang” apresentava uma narrativa praticamente maniqueísta com a “Nação do fogo” sendo vista como a grande vilã da história, em “A lenda de Korra” temos muito mais sutilezas e nuances. O “vilão” do primeiro arco é, na verdade, um líder revolucionário de um grupo chamado de “Igualitários”: pessoas que se sentem ameaçadas pelos dobradores e querem eliminar esse poder da face da terra para tornar todos os humanos iguais.

Amon, Líder dos Igualitários, abaixo os privilégios da burguesia dobradora de elementos

Esse primeiro arco foi concebido para ser uma temporada única, mas o sucesso trouxe novas temporadas, cada uma com seus arcos distintos: “Livro 1 – Ar”; “Livro 2 – Espíritos”; “Livro 3 – Mudanças” e “Livro 4 – Equilíbrio”. Dentre outras coisas vemos a protagonista lidando com a consequência de suas escolhas, enfrentando “vilões” cujas motivações são no mínimo dignas de reflexão e descobrindo que a vida é mais complicada do que ela imaginava. Enquanto Aang enfrentou uma nação que queria governar a Terra, Korra enfrenta opositores que querem acabar com os governos e entregar o poder nas mãos do povo para eliminar a pobreza e os privilégios. Quando revisitamos a cidade de “Ba Sing Se” podemos ver que ela está muito maior e mais evoluída do que no antigo desenho, agora temos estações de trem em vez de charretes, mas também podemos observar que a desigualdade social cresceu junto com os prédios e pessoas passam fome nas ruas enquanto a monarquia esbanja posses em seus palácios.

O arco dos espíritos é épico e em alguns momentos me lembrou “Naruto”, um bônus dessa temporada é conhecer a história do primeiro “Avatar”: Wan, uma história tão completa que poderia render uma série própria, além da excelente história também notamos uma drástica mudança no traço da animação, a história de Wan é animada de forma a lembrar arte tradicional japonesa. E foram coisas assim que eu achei tão apaixonante nessa animação, com quatro temporadas de menos de quinze episódios cada uma, “A lenda de Korra” nos entrega um enredo simples, rico e repleto de detalhes. São apresentados tantos coadjuvantes ao longo da narrativa que parece até que os roteiristas estão só enchendo linguiça. Mas nessa série ninguém passa incólume e todas as personagens tem o mínimo de desenvolvimento. Uma delas ganha “tatuagens” e você se emociona quando isso acontece, pois mesmo tendo aparecido poucos minutos, durante poucos episódios, ela teve um desenvolvimento bom o suficiente para que você entenda o quanto aquelas tatuagens são importantes para ela.

“A lenda de Korra” não é uma unanimidade e já vi e ouvi diversas críticas à série. Eu discordo da maioria delas, acho inclusive que o fato de a heroína não ficar a todo momento buscando a tutoria de seu antecessor Aang é absolutamente necessário ao desenvolvimento da história. Korra é uma mulher, e como toda mulher, ela está o tempo todo precisando se provar para a sociedade machista na qual vivemos e se os roteiristas escrevessem uma história em que a mulher heroína só obtém sucesso depois de ser tutorada por um homem eles estariam cometendo o maior dos equívocos.

Korra e Asami, romance não aproveitado na série

A maior decepção para mim, infelizmente, era algo do qual eu já tinha conhecimento e dessa vez eu faço questão de entregar um spoiler para que ninguém se decepcione da mesma forma. Korra é bissexual e isso é canônico, está nos quadrinhos que dão continuidade à série. O problema é que isso nunca foi desenvolvido na série, o que vemos é um triângulo amoroso entre duas mulheres e um homem, e a cada momento esse homem está com uma delas. Quando a novela se desenrola vemos a Avatar estabelecer uma relação de profunda amizade com Asami Sato e deixar de lado os romances. Isso é muito interessante, mostra que as mulheres não são inimigas umas das outras, que pode haver sororidade e que para alguém tão importante quanto uma Avatar existem questões maiores no mundo do que “conquistar o crush”. Mas quando vemos a cena final em que Korra parte com sua amada fica a sensação de “quando foi que isso aconteceu?”. Nem sequer fica claro que elas são mesmo namoradas, originalmente haveria um beijo entre as duas, mas a “Nickelodeon” decidiu cortar.

Resumidamente, ainda não era o momento para o publico LGBTQIA+ vibrar nas cadeiras, mas sabemos que esse dia chegaria com “Steven Universo”, “She-Ra e as princesas do poder”, “Hora de Aventura”. O que certamente não tira o mérito da obra como um todo, “A lenda de Korra” é um desenho excelente, com uma arte refinada, efeitos incríveis, roteiro surpreendentemente rico, personagens cativantes e suficientemente viciante para fazer com que eu e meu marido maratonassemos as quatro temporadas em dois dias. E se você não viu “A lenda de Aang” não se preocupe, a história é autossuficiente para que mesmo quem nunca assistiu possa acompanhar sem problemas, é claro que os fãs da velha guarda vão ficar muito mais felizes quando as personagens originais aparecem em participações especiais, mas isso é outra história.

E se você quiser conversar comigo, falar os seus desenhos animados preferidos. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é, bem, “A lenda de Aang” também está disponível na Netflix então acho que é meio óbvio. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e está em busca do segredo do arroz com ovo frito perfeito

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