Crônicas de Gotham City: O Irlandês que pediu demissão para o Coringa

Por Fernando Fontana

Já era tarde da noite quando Kevin O´Brien parou sua moto junto às demais na frente do PUB Green Biker, em uma das regiões mais inóspitas da cidade; apesar da jaqueta preta surrada, sentia frio, tirou o capacete e respirou o ar gelado do inverno de Gotham City; alto, forte, com seus cabelos e barba ruiva, olhos verdes, um dos dentes da frente faltando e cicatriz profunda no lado esquerdo da face, chamava atenção onde quer que estivesse.

Já estivera preso em duas oportunidades, por roubo e agressão; de volta às ruas, até tentou andar na linha, mas como seu padrasto, um bêbado fracassado que tinha por hábito espancar regularmente sua mãe, costumava dizer: o sangue dos O´Brien está amaldiçoado, é venenoso, não há um que se salve nesta família.

Desceu da moto, olhou ao redor e principalmente para o alto, para as trevas, o latido dos cães e o barulho de uma lata de lixo sendo derrubada no beco ao lado o assustou, esbarrou na moto perto da sua e por pouco não a deixou cair, olhos arregalados, visivelmente transtornado; caminhou apressado, parou antes de entrar, colocou a mão na cintura e se certificou de que estava com seu revólver.

Coringa, ilustração por Alex Ross

O PUB estava lotado, a fumaça tomava conta do ambiente, a maioria dos que lá estavam o conheciam e sabiam que não deviam provoca-lo, mesmo antes já não levava desaforo para casa, e agora, corriam boatos de que trabalhava para um dos psicopatas do Arkham, o pior deles, o Coringa.

Nenhuma outra cidade do país estava tão infestada desses malucos fantasiados quanto Gotham; fugindo constantemente do Asilo, cuja segurança há tempos virara piada, incapazes de se contentar com dinheiro, obcecados com todo tipo de bizarrices como charadas, guarda-chuvas, bonecos de ventríloquo ou uma moeda riscada, já haviam se tornado parte da rotina da polícia e dos cidadãos locais.

Qualquer um com um pingo de bom senso se manteria longe desses caras, primeiro porque a única obsessão que todos compartilham é o Morcego, com seus planos quase sempre terminando em confronto e o inevitável retorno para o Arkham. Há quem diga, inclusive, que foi a aparição do herói que serviu de catalizador para o surgimento de tantos vilões, e que em espécie de simbiose, um depende do outro.

Uma vez recapturados, o Morcego os leva para o depósito de loucos, enquanto seus capangas vão cumprir pena em uma prisão de verdade, embora nem todos tenham essa sorte; muitos acabam em uma cova rasa, assassinados em mais um surto psicótico de seu empregador, que para descarregar suas frustrações espirrou ácido na cara do pobre Clarence, um bandido de quinta categoria que só estava tentando ganhar a vida.

O´Brien sabia dos riscos, mas a grana era alta e imaginou que pudesse cair fora quando estivesse com os bolsos cheios, sair de uma vez por todas de Gotham, ir para uma cidade menos insana, talvez cruzar a fronteira rumo ao Canadá, mas as coisas acabaram saindo do controle.

Sorria!

Foi direto para o fundo do PUB, onde sabia que encontraria Tyler jogando poker e limpando mais algum pobre diabo; estavam em quatro na mesa, muitos copos vazios, alguns com cerveja preta pela metade, pela expressão dos três outros jogadores e a quantidade de fichas na frente de cada um, o fim estava próximo.

Tyler era o único em quem confiava, um inglês baixo e atarracado, bom de copo e de briga, calvo e com o nariz torto de tanto ser quebrado, trabalhava para um mafioso local, cobrava dívidas não pagas, mas tinha como regra nunca passar dos limites, dedos e joelhos quebrados eram uma coisa, matar estava fora de cogitação, era pecado e ruim para os negócios, mortos não pagam.

O´Brien se aproximou, Tyler estava com uma trinca de reis, um quatro e um seis, fumava um charuto que estava quase no fim – preciso falar com você – ele disse.

– Vai ter que esperar – Tyler respondeu – estou prestes a… espera um pouco – ele agarrou o colarinho da jaqueta de O´Brien – isso é sangue?

– Não dá para esperar, é urgente, caso de vida ou morte!

– Droga, vou precisar de alguns minutos com meu colega aqui, continuamos o jogo depois – fez um movimento com a cabeça indicando que os três que lá estavam deviam deixá-los a sós e foi imediatamente obedecido.

O´Brien sentou-se e olhou Tyler nos olhos – estou ferrado, cara!

– Deixa eu adivinhar, você não me ouviu e decidiu trabalhar para o Palhaço, não foi?

O´Brien tirou um maço de cigarros baratos do bolso da jaqueta, a mão tremia, teve dificuldade para tirar um cigarro e acende-lo – Eu preciso sair da cidade, Tyler, preciso sair já, nesse instante.

– Deu merda com o palhaço, não deu? Eu te avisei, não avisei?

– Você vai me ajudar ou não vai, porra? Preciso de uma nova identidade, sumir do mapa, se eu não sair de Gotham, sou um cara morto!

– Eu posso te ajudar, mas essas coisas custam dinheiro.

– Eu tenho dinheiro, dinheiro não é problema.

Tyler apagou o charuto no cinzeiro – Como assim, dinheiro não é problema? Até ontem você não tinha um puto no bolso, eu que te paguei…espera um pouco, Jesus Cristo, você roubou o palhaço, não foi?

Eu pensava que minha vida fosse uma tragédia

– Eu não roubei, eu só cai fora, ok?

– Seu idiota – Tyler se levantou – seu grande idiota, não existe isso de só cair fora com essa gente. Se você só tivesse desistido eu podia dar um jeito, mas se afanou a grana do palhaço, ele vai te achar até no inferno.

– O Coringa não é um problema!

– Cai fora daqui! Eu não quero ser visto com você, O´Brien.

– Eu tô te falando, porra, o Coringa não é um problema.

– Ah, não? Se não é um problema, então porque você está borrando as calças aqui na minha frente.

– O Coringa tá morto, Tyler!

– O que? O que foi que você disse?

O único modo razoável de se viver nesse mundo é sem regras

– Eu disse – O´Brien abaixou a voz – eu disse que o Coringa tá morto!

Tyler sentou-se novamente – Você tá falando sério?

– Acha que eu brincaria com uma coisa dessas? Ele tá morto, eu vi com os meus próprios olhos.

– Puta merda. Quem foi? Foi o morcego?

– O Morcego não mata, você sabe disso; fui eu, eu matei o Coringa!

– O que? Não, você não matou o Coringa.

– Eu estou te falando, droga, eu meti uma bala no meio da testa do desgraçado.

– Impossível, você deve estar enganado, não tem como.

– Como assim, não tem como? Ele é…ele era um lunático, mas não era à prova de balas.

– Ok, vamos fingir por um momento que eu acredito em você. Por que você fez isso?

– Ele ia me matar, foi por isso que eu fiz.

– E por que o Coringa queria te matar?

O´Brien não respondeu, apenas encarou Tyler.

– Certo, pergunta estúpida – disse Tyler – é o Coringa, ele não precisa de razão para matar; e como você fez, como você apagou ele?

– Eu te disse, eu meti um tiro no meio da testa do desgraçado. Olha, não vou ficar aqui te explicando cada detalhe, mas o assalto ao museu deu errado, por culpa do próprio cretino, diga-se de passagem. Daí ele entrou no carro, no banco de trás, eu estava do lado dele, o John e o Chris estavam nos bancos da frente, ele olhou para mim e pediu minha arma.

Você faz eu me sentir bonito

– Ele pediu sua arma?

– É, ele tinha derrubado a dele na fuga, e pediu a minha. Foi naquela hora que eu pensei: cacete, esse cara estrangulou uma pessoa porque o café estava com pouco açúcar, ele vai pegar minha arma e atirar em mim.

– E o que você fez?

– Saquei a arma e atirei nele!

– Você tá me dizendo que simplesmente sacou a arma e atirou nele?

– Ele nem viu o que aconteceu, acho que o safado jamais achou que eu faria.

– O John e o Chris fizeram o que?

– Eles se assustaram, é claro, o John quase perdeu o controle do carro, o Chris quis saber que merda que eu tinha feito, mas no final, eles até ficaram aliviados, porque o doido podia ter atirado em qualquer um de nós.

– Ou não, ele estava desarmado, podia só querer uma arma.

– Quer saber, eu é que não ia arriscar.

– E o corpo?

– Desovamos no rio.

– Inferno, O´Brien, eu te avisei que não ia terminar bem, não avisei? Ei, Mike – Tyler chamou a atenção do Garçom – traz duas geladas para nós. Agora, tem uma coisa que eu não estou entendendo, se o Coringa já era, por que você está tão apavorado?

– É o Morcego, cara, ele enlouqueceu!

– Enlouqueceu, enlouqueceu como? Por que?

– Ele está varrendo as ruas atrás de quem matou o Coringa, está transtornado, entrou no Às de Copas e virou o lugar de ponta cabeça, quebrou as costelas do Frank e os dedos do Jimmy atrás de uma pista, um nome, qualquer coisa.

O garçom trouxe duas canecas de cerveja preta – eu ouvi falar disso – disse enquanto as colocava na mesa – Frank e Jimmy não foram os únicos, tem algo de errado com o Morcego, pessoal foi avisado para evitar as ruas durante a noite, se eu fosse vocês, faria o mesmo.

– Obrigado pelo aviso, Mike, vamos fazer isso – respondeu Tyler visivelmente incomodado. Esperou o garçom se afastar antes de continuar – É melhor não falarmos tão alto, as paredes tem ouvidos.

– Eu sei, eu sei – O´Brien bebeu metade do conteúdo da caneca de uma vez só e depois acendeu um cigarro – e então, vai me tirar de Gotham ou não?

– Claro, eu tiro você, mas isso não faz sentido, o Morcego odeia o Palhaço e vice versa; por que ele ficaria assim?

– Não sei, não tenho a menor ideia, só me tira…

O´Brien não conseguiu terminar a frase, o Homem Morcego atravessou o vidro da janela da frente e imediatamente lançou duas bombas de fumaça no interior do PUB. Um sujeito tentou sacar uma pistola, mas teve o braço fraturado, os mais espertos tentaram fugir, Tyler e O´Brien fizeram o mesmo, Tyler conseguiu, O´Brien não.

Epílogo

O Comissário Gordon observava o enterro à distância, sem saber o que esperar, pelo sim, pelo não, reforçou o policiamento ao redor do cemitério. Ao redor da cova estavam apenas quatro pessoas, o padre Preston, a Dra. Harley Quinn, vulga Arlequina, que obteve uma autorização assinada por Amanda Waller para comparecer ao local e dois agentes enviados para vigia-la.

O padre lia um trecho da Bíblia enquanto Harley, descontrolada, chorava, gritava e se atirava sobre o caixão, sob os olhares atentos dos agentes.

– Já vai tarde esse desgraçado, devíamos dar uma medalha pro sujeito que fez o serviço – disse o Tenente Harvey Bullock.

– Acho que ninguém vai sentir falta dele, tenente, eu com certeza não vou – respondeu o Comissário – mas nós não damos medalhas para criminosos.

O Coringa está morto!

– Bom, comissário, o Batman deve pensar a mesma coisa, já que arrasou meia Gotham pra pegar o tal O´Brien.

– Para o Batman, um crime é um crime, não importa o culpado ou a vítima, e para nós também.

Nem Bullock, nem o Comissário ou qualquer um dos inúmeros policiais percebeu o homem vestido de Morcego que observava o enterro em cima de uma enorme árvore a uma distância segura, e sob seu capuz só havia um sentimento, raiva, raiva porque durante toda uma vida, sempre enfrentou e entregou o Coringa para as autoridades, mesmo sabendo que em uma nova escapada do Arkham, novas vítimas poderiam se juntar à montanha de cadáveres; só nessa última vez foram sete assassinatos.

Havia, no entanto, algo maior a ser provado, algo que ele jurou defender acima de tudo quando seus pais foram mortos, nenhuma pessoa tem o direito de retirar o mais sagrado dos direitos. Se fosse a justiça a condená-lo por crimes de fato cometidos, poderia aceitar, fora isso não.

Agora, nada mais resta a ser provado, o Coringa foi morto da forma mais banal, com um único tiro disparado por um criminoso comum, desses que ele prende aos montes todas as noites, e Gotham, Gotham aplaude e se regozija com o fim do maníaco, mas o que mais lhe doeu, o que mais lhe tirou o chão, foi a ligação que recebeu de Jason, o garoto que trajando o uniforme de Robin foi espancado e morto a golpes de pé de cabra pelo vilão, ressuscitando depois por milagre:

Uma ligação e uma única frase: “Ele fez o que você deveria ter feito há muito tempo!”

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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