Por Fernando Fontana
Em seu primeiro episódio, WandaVision é tudo menos uma típica série de super-heróis, entrega uma trama nova, instigante e misteriosa

O caminho mais fácil e menos arriscado, para não dizer preguiçoso, de se garantir audiência, é apostar em fórmulas de sucesso, reproduzindo-as em uma sucessão de séries e filmes que parecem seguir uma receita de bolo, que pode até ser um bolo saboroso, mas que invariavelmente cansa o paladar.

Se o público gosta de séries sobre reforma de residências, então vamos entregar uma dúzia de programas semelhantes, onde demolir paredes para se ter um conceito aberto de ambiente é quase um dogma e quase sempre haverá algum problema que afetará o orçamento inicial.

Programas de culinária estão fazendo sucesso? Então vamos encher a programação com profissionais, amadores, crianças e famosos cozinhando e entregando entradas, pratos principais e sobremesas para serem avaliados por jurados que serão impiedosos em seu julgamento.

Com o gênero dos super-heróis não é diferente, no cinema, a Marvel encontrou sua fórmula mágica capaz de transformar milhões em bilhões, lotando as salas de cinema com seus filmes coloridos, onde o sentimento de perigo ou ameaça é aliviado por doses constantes de humor, com piadas salpicadas pelo roteiro.

Séries de super-heróis, com raras exceções, tem apresentado muito pouco de novo, com roteiros normalmente infantis, repetitivos e repletos de furos. Pode parecer cedo para dizer, mas logo após assistir o primeiro episódio de WandaVision na Disney Plus é certo que a nova série da Marvel aponta para um caminho totalmente diferente.

Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff e Paul Bettany como Visão em Marvel Studios’ WANDAVISION exclusivamente na Disney Plus. Foto cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2020. All Rights Reserved.

Desde a abertura, toda a estética lembra as antigas sitcons norte-americanas em preto e branco, feitas para toda a família, com humor ingênuo, risadas enlatadas, nada de sexo ou violência, e a certeza de que no final tudo ficará bem.

Impressiona o cuidado da produção, não apenas com a fotografia, mas com o roteiro, que facilmente poderia fazer parte de um episódio de “I Love Lucy” (1951 – 1957), se não fosse uma diferença crucial, Wanda (Elizabeth Olsen) possui poderes mágicos e o Visão (Paul Bettany) é um sintozóide que não precisa comer ou beber e tem a capacidade de atravessar objetos sólidos.

A natureza por assim dizer exótica do casal não é ignorada, e até rende piadas como a geladeira vazia, já que o Visão não precisa comer, mas os personagens não parecem considerar isso como algo relevante; para todos os efeitos são um típico casal suburbano da década de 50, vivendo uma “vida de sonhos” onde o marido trabalha e a esposa cuida de casa enquanto conversa com a vizinha. O nome do Visão, por exemplo, não é alterado, e todos no trabalho o chamam de “Visão”, sem acharem isso estranho.

O mistério é apresentado de forma bastante sutil, questionados, Wanda e Visão não conseguem se recordar do dia em que casaram ou do momento em que se mudaram para a vizinhança, e uma cena em que o chefe do Visão se engasga com a comida é, por alguns instantes, bastante perturbadora.

Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff e Paul Bettany como Visão em Marvel Studios’ WANDAVISION exclusivamente na Disney Plus. Foto cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2020. All Rights Reserved.

A empolgação com a série antes mesmo da estreia era enorme, e a Marvel arrisca com ela, pois em seu primeiro episódio entrega tudo, menos uma série de super-heróis; em preto e branco, com ritmo mais lento, sem qualquer cena de ação, WandaVision pode ou não agradar o grande público, mas é justamente em sua fuga do trivial que está sua grande força.

Fica a torcida para que a série mantenha a qualidade, seja um sucesso e que outras como ela surjam tanto na Disney Plus quanto em outros serviços de Streaming.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

1 Comment

  1. Everton Nucci disse:

    A série também parece parodiar “A feiticeira”. Eu simplesmente amei. Podem me chamar de Fanboy.

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