Por Fernando Fontana

Há helicópteros de brinquedo e spoilers no texto a seguir.

Seguindo o que já era esperado, o segundo episódio de WandaVision segue homenageando as séries do passado, saltando da década de 50 para a década de 60, onde desde a abertura referencia “A Feiticeira” (1962 – 1972) e “Jeannie é um Gênio” (1965 – 1970).

Em entrevista concedida ao Fantástico e exibida na noite de ontem pela Rede Globo, Elizabeth Olsen diz que foi divertido e ao mesmo tempo desafiador interpretar Wanda na série, e o resultado da dedicação tanto dela quanto de Paul Bettany salta aos olhos na tela, com caras e bocas que lembram demais o trabalho dos atores e atrizes responsáveis pelos shows em que o roteiro se baseia.

A direção de Matt Shakman permanece impecável, não apenas manteve a ausência de cores, as risadas enlatadas e o humor ingênuo, mas faz questão de utilizar efeitos especiais típicos da época, como quando Wanda troca de roupa magicamente ou faz com que objetos flutuem em cena.

A transição para os anos 60, permite, no entanto, algumas diferenças sutis, como o momento em que Wanda une as duas camas de solteiro e as transforma em uma de casal, seguida pelo apagar das luzes e a insinuação de que ela e o Visão farão sexo debaixo das cobertas, algo impensável na década anterior, onde as séries eram obrigadas a seguir as normas estabelecidas pelo chamado “Código Hays” que determinava o que era aceitável ou não em produções norte-americanas.

Wanda e Visão, enquanto se encontravam na década de 50, camas separadas e nada de sexo

As pistas de que há algo de errado com o mundo perfeito de Wanda continuam, e o surgimento, em mais de uma oportunidade, da cor vermelha em um universo em preto e branco, lembrou demais o filme “Pleasantville – A Vida em Preto e Branco” (1998), estrelado por Tobey Maguire e Joan Allen, quando adolescentes são absorvidos para a realidade paralela de um antiga série de TV chamada Pleasantville, onde nada de desagradável acontece.

Pleasantville é em preto e branco, e conforme os personagens tomam um choque de realidade, descobrindo os prazeres e o descontentamento que fazem parte da vida, as cores começam a aparecer e tomar o ambiente.

Personagens que por um momento não sabem quem são ou porque estão ali, a estranha voz no rádio, e, mais importante do que tudo, a descoberta de que Wanda é capaz de controlar a realidade ao seu redor, recuando o tempo como se rebobinasse uma fita de vídeo, reforçam a teoria de que, após a morte do Visão e dos eventos que testemunhamos nos filmes dos Vingadores, a Feiticeira Escarlate tenha construído uma realidade onde o sintozóide ainda vive e o casal é feliz.

Percebam também que, sempre que alguém ameaça essa felicidade ou questiona a realidade, sofre um acidente, como o chefe do Visão no primeiro episódio ou Dottie, ao dizer que não confia em Wanda e no Visão, no que parece ser um mecanismo de defesa para impedir a percepção do que realmente está acontecendo.

As cores começam a surgir em WandaVision, lembrando Pleasantville, filme de 1998

Ao final do episódio, temos além da já mencionada cena em que Wanda controla a realidade, a descoberta de que ela está grávida.

A série parece estar bebendo de duas histórias em quadrinhos diferentes, sendo a primeira e mais importante, a Dinastia M (2005), escrita por por Brian Michael Bendis, onde a Feiticeira, após os eventos mostrados na saga “Vingadores – A Queda” (2004), cria uma realidade paralela onde os mutantes governam e pessoas comuns são cidadãos de segunda classe.

A segunda é Visão, minissérie em 12 edições escrita por Tom King e publicada em 2018, onde o Visão constrói uma esposa e dois filhos sintozóides, e decide morar em uma casa de subúrbio, imitando o comportamento de uma típica família humana de classe média.

Em 1972, pela primeira vez na história, a venda de televisores em cores superou a de televisores em preto branco nos Estados Unidos; marcando uma mudança definitiva. Faz sentido, portanto, que no final deste episódio, que marca a saída da década de 60, as cores finalmente surjam como um todo em WandaVision.

Com proposta ousada e execução bem feita, é uma das melhore séries da Marvel, embora ironicamente até o momento, não seja de super-heróis. A Casa das Ideias costuma planejar o que faz, logo é bem possível que já soubesse que perderia uma fatia da audiência com seu ritmo mais lento, ausência de cores e homenagem ao passado. Por outro lado, se uma parte do público se vai, outra certamente pode ser conquistada justamente pelas características já mencionadas.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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