Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vou falar de uma dessas coisas que já ganhou dúzias de versões ao longo dos anos. Surgiu nos quadrinhos da Archie Comics e ganhou filmes, séries e desenhos animados. Foi reinventada, reinterpretada, reimaginada para, no fim das contas, acabar na Netflix com o único objetivo de destruir nossas infâncias #sarcasmo. Hoje vou falar de Sabrina.

A última temporada de “O mundo sombrio de Sabrina” acaba de estrear na Netflix, a série que passa no mesmo universo de “Riverdale” chegou com os dois pés na porta logo em sua primeira temporada. Agora o ciclo se encerra com um apocalipse, duas Sabrinas, muitos monstros, universos paralelos e com um gato animatrônico falante (finalmente).

Ao assistir à primeira temporada eu não conseguia deixar de me contorcer na cadeira e sentir um enorme peso na consciência pois mesmo gostando do que estava vendo eu não podia me distanciar da lembrança que tinha de “Sabrina – Aprendiz de Feiticeira”, a série que foi exibida no Brasil nas manhãs de domingo da Globo e depois foi reprisada na Rede Record era uma inocente comédia familiar onde “rolavam muitas confusões” acompanhadas de risadas enlatadas.

E como se esquecer das sessões da tarde com as reprises de “Sabrina vai à Roma”? Telefilme que ganhou a sequência “Sabrina vai à Austrália”. Vale lembrar que muito antes desses dois filmes houve o questionável “Sabrina – A bruxa adolescente”, é sério, não assistam! Se você buscar informações a respeito irá encontrar inúmeras versões da bruxa, mas certamente a série de TV foi a que mais me marcou.

Sabrina, quando ainda era apenas uma inocente aprendiz de feiticeira aprontando altas confusões

O episódio piloto da sitcom no qual vemos a adolescente descobrindo por acaso que tem poderes mágicos ao transformar uma colega de colégio em um abacaxi e no qual conhecemos Salem (o gato falante da família) é emblemático. Entrega tudo o que se espera de uma comédia sem consequências, um roteiro simplório, extremamente expositivo, piadas óbvias, soluções absurdas, diálogos pouco críveis e uma sensação de dever cumprido. Tudo dá certo, você pode não gargalhar mas termina o episódio com um sorriso no rosto e se sentindo mais leve. A série é sobre isso, aventuras semanais inconsequentes, descoberta de novos poderes, risadas e a impressão de que o mundo é um lugar bonito e inocente.

Mas o tempo passa e a vida continua, os quadrinhos da Archie Comics ganharam novas versões, com novas temáticas, e personagens reimaginados. Como aconteceu recentemente com a Turma da Mônica e com as personagens de Hanna-Barbera. Nessa nova versão (“Chilling Adventures of Sabrina”) conhecemos um novo universo, muito mais sombrio e pesado e foi nessa versão da personagem que a Netflix se baseou para criar a série de mesmo nome (e que por aqui ganhou o título de “O mundo sombrio de Sabrina”). Agora sabe qual o problema? Eu não fazia a menor ideia de nada disso quando, inocentemente, comecei a assistir ao programa.

Podem imaginar o meu choque ao ver a inocente bruxinha, que disparava rajadas de glitter com suas mágicas, discutindo se iria ou não fazer um pacto com Satã ao completar 16 anos? Mais do que isso, o que vi foram monstros abomináveis surgindo e matando pessoas, Sabrina tomando decisões pouco convencionais (para dizer o mínimo) e personagens secundários sofrendo traumas horríveis no processo. Ainda não consigo me recuperar da história do Harvey Kinkle e do seu irmão!

As amizades de Sabrina já não são mais as mesmas na série da Netflix

A fotografia, a montagem, os cenários e figurinos são sublimes. Ok, os diretores pesam a mão em alguns momentos, os roteiristas pesam muito a mão em todos os momentos e assim Sabrina revela ser tudo, menos uma série convencional. Lembram do gatinho Salem, o sarcástico animatrônico da Sitcom Original? Nessa versão ele não fala, não é um robô, mas sim um monstro selvagem invocado pela protagonista para ser seu “familiar” (uma espécie de pet de bruxo), e para que ele serve? Para dilacerar e devorar criaturas malignas sempre que necessário.

Tudo apresentado na série é chocante, assustador e ambíguo. A tia de Sabrina mata a irmã por tê-la feito perder a paciência, Sabrina corta a garganta da colega de classe como parte de um plano mirabolante, a tia (ressuscitada) de Sabrina sofre uma maldição que a transforma em uma aranha gigante e passa a devorar pessoas inocentes. Mas certamente, o que mais incomoda em um país majoritariamente religioso como o nosso é a devoção das personagens a Lúcifer.

Na escola de bruxaria há uma enorme estátua de Baphomet, quando algo bom ocorre elas não deixam de soltar seu “Satã seja louvado”, a dedicação das bruxas a ele é realmente profunda. Tudo para que em certos momentos da história, como no antigo ritual que envolve assassinar e devorar um dos membros da “Igreja da Noite” como forma de sacrifício à Satã, ou quando Sabrina é ludibriada para oferecer sua alma a ele por toda a eternidade, possamos refletir e discutir os limites do fanatismo religioso. Mais do que isso, a apresentadora, escritora, youtuber, podcaster e sei lá quais outros adjetivos Carol Moreira fala em seu canal do YouTube sobre como a cena em que tentam forçar Sabrina a assinar o contrato com sangue, pode ser lida como uma alusão ao estupro e à forma como a sociedade se recusa a ouvir um não das mulheres. Temas leves e despretensiosos não são o foco do show.

Você acha mesmo que a decoração pode chocar alguém?

Personagens LGBTQIA+ são apresentados na trama de forma muito orgânica, não há uma cena em que é “revelado” que seu primo Ambrose é gay, isso faz parte da história desde o início e é visto pela família Spellman da forma como deveria ser vista por todas as famílias, algo natural, corriqueiro, algo que faz parte das inúmeras características que compõem a personalidade de alguém. E Ambrose não é a única personagem do vale, outro que merece destaque é Dorian Gray (sim a personagem literária, ele está na série). Vemos que muitos bruxos e bruxas são bissexuais e que sexo não é um tabu para a sociedade na qual eles vivem. Mas com certeza uma das histórias mais bem contadas de personagens do vale é a de Theo Putnam a colega de classe que aparentava ser uma garota lésbica descobre que na verdade é um homem trans e posteriormente um homem trans gay.

O mais interessante é a maneira como isso é apresentado. Numa corriqueira visita à casa de sua amiga Rosalind Walker, Theo ouve a pergunta: “Quem é esse lindo garoto que está com você?” Vindo da avó de Rosalind. O que acontece é que a avó da amiga era cega e juntamente com a cegueira ela ganhou um sexto sentido, o qual chama de “astúcia”. Nesse momento entendemos que a avó “vidente” pôde “enxergar” quem Theo realmente era antes mesmo que ele tivesse descoberto, a avó notou que ele era um homem, que sempre foi, mesmo tendo nascido no corpo de uma mulher.

O fato é que a série é um sucesso, e mesmo tendo “destruído a minha infância”, me fez devorar cada minuto das temporadas lançadas e o fim precoce em seu quarto ano não deixa de causar um gosto amargo na boca, números musicais incríveis, referências a H.P. Lovecraft e a homenagem à série original não foram o suficiente para que eu avaliasse os episódios finais como os melhores de todos. Ainda mais depois de vermos a overpower, Sabrina Morningstar em outra “season finale”. Parece que a personagem foi “nerfada” nesse momento da história, para que o roteiro pudesse fluir melhor. Talvez com duas temporadas houvesse mais tempo para desenvolver um arco final mais convincente, vamos combinar que o destino de algumas personagens soou bem apressado, Morningstar e Gray tem péssimos encerramento de arco na minha opinião.

Acabei de descobrir uma magia que transforma colunistas que criticam o final da minha série em sapo.

Uma coisa que eu realmente não posso deixar de avaliar é a personalidade da protagonista, há uma crescente em suas decisões, amadurecimento, aprendizado e muita coisa boa. Sua personalidade sempre autossuficiente, decidida e feminista também são pontos positivos mas p*t@ qu& p@r$% como essa garota tem capacidade de arrumar problemas! Parece até aquele meme “eu não preciso de ninguém pra fazer merda comigo”. Sua índole beira o Transtorno Opositor Desafiador, parece que basta alguma personagem dizer “Sabrina, não mexa com isso!” para que ela instantaneamente decida “Vou mexer com isso!”. Um ótimo exemplo é o momento em que todas as bruxas se reúnem para fazer um feitiço forte o suficiente para derrotar uma certa pessoa, a difícil batalha exige que uma das personagens se sacrifique trancando-se eternamente no inferno. Meia hora depois a bruxinha está reunida na lanchonete com seus colegas de classe dizendo “Vamos tirar fulano do inferno!”. É sério que ela não notou o quão difícil foi derrotar o “boss final” da temporada? É sério que ela acha que sozinha com colegas humanos vai conseguir fazer o que todo um clã de bruxas não conseguiu?

Desculpem o desabafo, sabemos que tudo isso são decisões de roteiro para criar conflitos e fazer a história andar, e no fim das contas ela anda. E anda muito bem, “O mundo sombrio de Sabrina” é com certeza uma das melhores produções originais do serviço de streaming e vale a pena conferir cada temporada. A série é incrível ao criar alegorias mágicas para discutir problemas reais, tem muita diversidade e é realmente uma pena que não tenha sido renovada, mas pelo menos temos um final concreto e não um simples cancelamento sem conclusão.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre o seu momento preferido de “O mundo sombrio de Sabrina” sobre a série dos anos 90, os desenhos animados ou o episódio em que a Sabrina aparece na série “Um anjo muito Doido” (“Teen angel”). Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme “Elvira, a rainha das trevas”. Esse filme é um clássico das sessões da tarde e te fará ver as bruxas de uma outra forma. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e se um dia tiver uma filha irá chamá-la de Sabrina e lhe dar um gato preto de estimação

4 Comments

  1. Lorena Soeiro disse:

    Eu já não curtia a versão original. Já curti mais a da Netflix. Embora a última tenha sido bem apressada, eu adorei vários arcos de temática adolescente bem trabalhados , como os que você citou. Excelente Review!!!

    • Everton disse:

      Ola Lorena, obrigado por ler a matéria, continue acessando o site. Eu adoro os arcos adolescentes misturados com o universo fantástico da série. Essa série é ótima.

  2. Julie Any disse:

    Acho essa série muito forte! Mas a sua indicação de Elvira a rainha das trevas, foi sensacional, esse filme é inesquecível ????????

    • Everton disse:

      Olá Julie, obrigado por ler a matéria, continue acessando o site. A série tem uns momentos bem Terrro mas vale muito a pena.

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