Justiceiro: O Soviético

Por Fernando Fontana

Garth Ennis e Justiceiro nasceram um para o outro, ponto. O escritor irlandês compreendeu como ninguém o personagem, e o anti-herói que caça e mata sem piedade os criminosos lhe rendeu alguns dos seus melhores trabalhos. Por isso, mesmo, quando surge nas bancas outra história que misture ambos, é quase uma garantia de dinheiro bem gasto.

Em “Justiceiro: O Soviético”, Ennis se mostra mais contido, entrega uma história aparentemente simples, mas muito eficiente, graças principalmente ao personagem que divide o protagonismo com o Justiceiro e que dá nome à HQ.

Frank entra em rota de colisão com uma família russa chefiada por um ex militar chamado Pronchenko, que está aos poucos legalizando os negócios, para em breve abandonar o crime organizado e viver do lucro obtido. Seria apenas mais um serviço de rotina par ao Justiceiro, se outra pessoa não começasse a exterminar os russos, alguém meticuloso e que sabe o que está fazendo.

Capa do Segundo Capítulo de Justiceiro: O Soviético

Seu nome é Valery Stepanovich, um soldado russo que esteve no Afeganistão e que tem contas a ajustar com Pronchenko. Logo de cara, o que torna Valery interessante é que ele, assim como Castle, presenciou os horrores da guerra, só que no “Vietnã Soviético”. Os russos invadiram o Afeganistão em 1979, e embarcaram em uma guerra contra os Mujahidin, que durou cerca de 10 anos. Assim como os vietcongues nas florestas, no deserto, os Mujahidin utilizaram táticas de guerrilha para enfrentar o poderio superior do exército vermelho, atacando e se escondendo nas montanhas. Eles também contaram com o apoio dos Estados Unidos, que não atuaram diretamente, mas enviaram armas e forneceram treinamento militar. Caso você não se lembre, em Rambo III, Stallone ajuda os rebeldes afegãos contra os russos, os inimigos preferidos de Hollywood na época.

Soldados jovens e inexperientes passaram pelo inferno no deserto afegão, e o capítulo 3: “E eu vejo pela sua lápide, que você só tinha 19 anos”, é inteiramente dedicado a mostrar o que Valery viu e a razão pela qual ele decidiu exterminar a família de Pronchenko, em uma história do Justiceiro, sem o Justiceiro.

Pronchenko, por sua vez, é retratado no começo como um açougueiro, um homem sem escrúpulos capaz de dar ordens para exterminar crianças enquanto toma o café da manhã. Frank, inclusive acha difícil que alguém como ele consiga ser moderado e levar uma vida normal, como homem de negócios legítimos.

O que Ennis faz durante a história é desconstruir essa ideia de que ele é capaz de cometer atrocidades. Pronchenko, assim como alguns dos piores assassinos da história, não mancha suas mãos ou seu terno importado com sangue, ele paga bem e ordena que outros o façam.

No excelente “O Senhor das Armas” (2005), o personagem de Nicolas Cage é um comerciante de armas, e as vende para alguns dos regimes mais cruéis do planeta, que as utilizam para matar em larga escala, incluindo civis. Ao ganhar a chance de matar um comerciante rival, no entanto, ele hesita, pois puxar o gatilho pessoalmente é bem diferente do que entregar a arma para outro faze-lo, assim como é mais simples pressionar o botão e disparar um míssil que extermina 200 inimigos, do que enfiar uma baioneta no coração de um único oponente que olha diretamente nos seus olhos. Generais enviam tropas, seja no Vietnã, no Afeganistão ou em outras guerras e registram as baixas em tabelas, os mortos não tem rosto, são números.

O mesmo raciocínio pode ser adotado para os políticos corruptos. É bem mais simples para um engravatado roubar dinheiro de hospitais e de escolas públicas quando não se encara de frente a fome das crianças e o desespero dos doentes e de seus familiares. O slogan de “Tropa de Elite 2” (o inimigo agora é outro) cabe muito bem aqui, e Garth Ennis faz questão de nos apresentar um senador como símbolo desse monstruoso burocrata engravatado.

“Os monstros. Fica com aquela sensação de que eles devem ser espetaculares, considerando tudo que causaram. Mas, sempre, só o que você encontra é…bem…Valery teria ficado desapontado”

Frank Castle

O final de “O Soviético” tem o mesmo efeito catártico que a cena em que o Capitão Nascimento espanca um político corrupto em Tropa de Elite 2, com a diferença que estamos falando de Garth Ennis, o que torna tudo ainda mais brutal.

Enfim, sem grandes exageros, se você gosta do personagem e do estilo de Garth Ennis, é um prato cheio, história boa, daquelas que você senta para ler e quando percebe, já terminou.

A Panini publicou recentemente um encadernado com a história completa e ele está disponível em diversos sites.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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