O Vale Nerd – “Pose” e a categoria é…

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje terminou a pena de cinco anos sem poder escrever sobre séries do Ryan Murphy imposta pela administração do site, então finalmente vou escrever sobre “Pose”, série que acaba de estrear sua segunda temporada na Netflix e que vem cheia de carão, glitter, lacração, luxo, glamour e muita, mas muita representatividade. Então aquenda essa neca, vista seu melhor figurino, porque a categoria de hoje é… “Viva, trabalhe, Pooooooooose!”

A série é uma criação, não só de Ryan Murphy, mas também de Brad Falchuk, se você se lembra, essa é a mesma dupla responsável pelas séries “American Horror Story”, “Glee”, “Nip/Tuck” e “Screen Queens”. Além dos dois conhecidos, temos também o terceiro criador da série: Steven Canals que, embora tenha um currículo menos extenso, se destaca por ser o único homem do trio que é descendente de Afro Americanos e Porto Riquenhos (isso é importante para a história visto que a protagonista possui a mesma ascendência) além de criador e produtor, ele também é roteirista e diretor da série. Resumindo, temos um trio de talentos inestimáveis criando uma série como nenhuma outra já vista.

Quando eu digo “como nenhuma outra já vista” não estou apenas elogiando, estou citando um fato concreto, pois essa série é atualmente reconhecida como a série com maior elenco de pessoas trans da história da TV mundial. E se você é mais adepto ao lado Geek da coluna, já vou logo avisando que essa é uma série muito mais “do Vale” do que “Nerd”. Não tem fantasia, magia, super heróis nem nada do tipo, é uma série sobre pessoas fictícias vivendo no mundo real, enfrentando problemas reais.

Somos pessoas vivendo no mundo real, mas com muito estilo

Mas afinal, do que se trata “Pose”? O show mostra um recorte muito específico da sociedade estadunidense em uma época muito específica da história. É o retrato da vida de um grupo de mulheres trans e pretas vivendo em “Nova York” no final dos anos 80 e início dos 90. Para lidar com o preconceito e a rejeição da sociedade, essas mulheres criam as “casas”, que são lugares seguros para os LGBTQIA+. Além de um teto, as pessoas do vale encontram ali um alento, amizade e a família que a biologia nunca lhes deu.

A história começa com a dissidência entre a “filha” Blanca e a “mãe” Elektra. A primeira decide deixar a casa “Abundance” para fundar seu próprio local, a casa “Evangelista”. A divergência entre as duas é de cunho muito mais filosófico do que pessoal, no fundo todas aquelas pessoas se amam (mesmo que passem grande parte do tempo brigando umas com as outras), afinal, há toda uma história de vida preexistente.

Mas talvez eu esteja me adiantando um pouco, vamos por partes. Quando abre sua própria casa, Blanca acolhe Damon, um jovem preto que foi expulso de casa após os pais descobrirem que ele é gay. Ele foge para “Nova York” para tentar a vida como dançarino e lá conhece “Vogue”, a dança que é um dos símbolos não só da série, como do local e da época.

Outra moradora é Angel, uma linda mulher trans e preta cuja única fonte de renda é a prostituição. A presença dela demonstra como o preconceito é capaz de marginalizar a vida das pessoas. E assim, aos poucos a casa Evangelista vai crescendo, ganhando novos moradores, novas histórias e novas vivências. Mais do que isso, Blanca vai demonstrando ser uma mãe cada vez melhor, preocupada com o futuro dos filhos, consciente de seus deveres, amorosa, dedicada e guerreira. Já devem ter notado que eu amo a personagem! Sim, impossível não se apaixonar por ela, seu arco de “jornada do herói” é incrivelmente bem escrito e a atuação da atriz é irretocável. Na verdade, não há o que dizer em termos de atuação nessa série, o elenco está afinadíssimo e cada ator e atriz consegue imprimir com perfeição a personalidade de suas personagens.

O que posso fazer? Pose é perfeita mesmo.

Tudo muito interessante até aqui, mas também tudo muito dramático e a série não é só isso, o drama, a dor e o sofrimento dos membros do vale são parte primordial da trama, mas isso não é tudo. Afinal, onde está o glitter, o carão, o luxo e todo o resto? Por que a série se chama “Pose”? A resposta de tudo isso está nos “bailes”, se formos resumir de uma forma simplória, podemos dizer que os bailes são muito parecidos com a prova do desfile de “RuPaul’s Drag Race”. As “casas” se reúnem nas boates dos “Mestres de Cerimónia” e disputam as provas de acordo com a “categoria do dia”, as categorias são as mais diversas e envolvem desde figurino e dança, até beleza de corpo e rosto. Tudo muito organizado, regrado, com um corpo de jurados e votação clara e objetiva #sóquenão. Os bailes são uma grande festa e o MC tem um poder praticamente divino, podendo decidir dar o prêmio à primeira concorrente a desfilar, simplesmente por considerá-la insuperável, é tudo muito peculiar, engraçado, exuberante e muito interessante de se acompanhar.

A questão é que esses bailes não são simples desfiles em busca de troféus, são um local onde a comunidade LGBTQIA+ poderia se sentir acolhida, bem vinda, em casa. Rodeada de pessoas amigas, podendo ser elas mesmas, se expressar e se sentir parte de algo. Ficar longe do ódio, do preconceito e dos olhares tortos da sociedade da época. Um verdadeiro paraíso, #sóquenão. Os bailes podem ser um ótimo lugar para os membros do vale, mas também trazem uma demonstração muito clara de como a comunidade pode ser tóxica contra os próprios LGBTQIA+. Sim, pois uma parte muito forte é o “shade”, uma espécie de insulto cômico que serve para animar a disputa mas que pode trazer consequências terríveis ao psicológico daquelas pessoas. Um simples shade à respeito do corpo de uma daquelas mulheres pode fazer com que ela arrisque a vida numa suspeitíssima clínica clandestina de implante de silicone. Além disso, a série mostra que mulheres trans são bem vindas nos bailes, mas não são bem aceitas em bares gays, a crítica da série não se restringe à sociedade heteronormativa.

Talvez a maior crítica social da série esteja na fetichização das mulheres trans, visto que há pelo menos duas personagens que são “amantes” de homens casados. Homens que aceitam estar com uma amante trans desde que ela seja uma mulher e que ela mantenha uma “genitália masculina” e que fiquem com eles longe dos olhos de todos. É triste, é forte e é real. Os arcos são construídos de forma a te fazer refletir sobre como a sociedade da época (e a de hoje) enxerga essas mulheres, te fazendo acompanhar cada momento desses romances, impossível não criar empatia. Aliás é incrível como a série te faz odiar uma personagem em um momento para no seguinte te fazer amar (estou falando com você Elektra). É triste ver Blanca não querer usar um biquíni para ir à praia por ter vergonha do próprio corpo, ao passo que é glorioso ver Elektra jogando o maior shade do mundo nas transfóbicas do restaurante.

Espera só um segundo, vou molhar a garganta antes de destruir esse teu preconceito

É tudo tão humano e tão cheio de camadas nessa história que fica até difícil descrever. A série não é necessariamente um drama, tem muito de comédia, de musical, de sensualidade, de suspense e não deixa de ser um bom novelão. E tudo desenvolvido daquela forma surpreendente que só Ryan Murphy consegue fazer (sou Fanboy dele sim, me processem). O início da segunda temporada é absolutamente icônico e em menos de meio episódio já consegue dar o tom de todo o resto. O episódio abre com Blanca e Pray Tell indo visitar o túmulo de uma pessoa conhecida que foi vítima da AIDS, na época, aqueles que morriam da terrível doença (sobre a qual pouco se sabia) eram enterradas praticamente como indigentes em ilhas muito distantes da civilização, como que em uma tentativa de evitar a disseminação de uma praga. No mesmo episódio vemos que esse também é o ano em que Madonna lança o hit “Vogue” liderando as paradas de sucesso por semanas a fio.

Esse é o paradoxo da vida daquelas pessoas, ao mesmo tempo em que suas esperanças são consumidas pelo cruel destino imposto pela AIDS elas eram reavivadas ao ver que a dança típica dos guetos chegava ao mainstream. Para todos os efeitos havia naquele momento o sentimento de que os brancos finalmente os enxergariam, de que sua cultura deixaria de ser tida como marginal, de que agora eles é que estavam por cima na mídia e que eles finalmente poderiam deixar o Bronx e se mudar para bons apartamentos no centro.

“Pose” tem histórias sublimes, personagens cativantes, momentos inesperados, momentos chocantes, momentos hilários, uma direção fantástica, um elenco de primeira e te deixa em êxtase com temporadas de apenas oito a dez episódios. Por mais que eu me esforce, não sou capaz de descrever nesse simples texto, todos os sentimentos que a série despertou em mim, portanto, só o que posso fazer é te dar um conselho. Pare tudo o que está fazendo e vá assistir “Pose”, agora mesmo.

Acho sinceramente que a crítica do Everton sobre Pose foi imparcial e ele soube deixar de lado a sua paixão por Ryan Murphy #sóquenão

E como eu comecei a matéria elogiando a representatividade do elenco da série, eu não posso terminar sem destacá-las:  Mj Rodriguez como Blanca Rodriguez; Dominique Jackson como Elektra; Indya Moore como Angel; Charlayne Woodard como Helena St. Rogers; Hailie Sahar como Lulu; Angélica Ross como Candy; Angel Bismark Curiel como Lil Papi; Billy Porter como Pray Tell; Ryan Jamaal Swain como Damon Richards; Dyllón Burnside como Ricky, isso destacando apenas o elenco principal regular das duas temporadas. Ainda temos todos os coadjuvantes e pessoas envolvidas na produção (e o núcleo branco que sequer retorna na segunda temporada). Uma verdadeira aula de como trazer a representatividade para frente das telas e ainda gerar impacto no mundo real.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre “Pose” e outras séries maravilhosas cheias de glamour, estilo e extravaganza. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a terceira temporada de  “American Gods”, onde Dominique Jackson estréia como a nova Senhora Mundo, confira já. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

______________________________________________________

Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e nunca prometeu ser imparcial em séries feitas por Ryan Murphy!

2 Comments

  1. Julie Any disse:

    muito glamour 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *