Nemo: O estranho mundo de Philip K. Dick

Um dos escritores mais adaptados do cinema, seus livros descrevem realidades alternativas nascidas de visões que ele acreditava reais

Por Sidemar de Castro

O que têm em comum filmes como Blade Runner, Minority Report, O Vingador do Futuro, O Homem Duplo, O Vidente, Agentes do Futuro? Tirando serem adaptações literárias pouco fiéis aos originais, foram todos baseados nos livros do escritor americano de ficção científica Philip K. Dick.

Matrix, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, O Show de Truman, Clube da Luta, Donnie Darko, A Origem, Black Mirror são outros filmes e séries indiretamente inspirados nas obras do escritor, muito das quais foram reeditadas no Brasil, na esteira das muitas produções de cinema e séries de TV recentes. Com vocês, o estranho mundo de Philip K. Dick.

O Autor

Philip Kindred Dick ou Philip K. Dick (1928 — 1982), ou ainda PKD, escritor americano de ficção científica, influenciou profundamente o gênero, abordando temas políticos, filosóficos e sociais, religião, metafísica, realidades alternativas e estados alterados de consciência pelo uso de drogas ou energias. Seus livros e contos espelhavam sua vida e pensamento, questionavam a realidade e o status quo da sociedade, a identidade do indivíduo e sua percepção da existência, abordando do uso de drogas a transtornos mentais, assim como experiências transcendentais e místicas. Vários dos seus romances foram adaptados para o cinema, o que acabou por tornar a sua obra mais conhecida do que em vida, sendo aclamado tanto pelo público como pela crítica.

Phillip K. Dick, o escritor que dizia viver em realidades paralelas

A obra e a vida

Philip começou sua carreira de escritor em 1951 com histórias publicadas nas revistas Planet Stories, If e The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Seu primeiro romance foi Solar Lottery (Loteria Solar), de 1955. Durante a década de 1950 produziu muitas obras convencionais, apenas para viver, sem muito sucesso, enquanto sonhava tornar-se um escritor famoso. Esse sonho parecia ter acabado quando, em janeiro de 1963, seu agente literário lhe devolveu todos os livros não vendidos. Mas como numa reviravolta do Destino, ainda em 1963, Philip ganhou o Prêmio Hugo de ficção científica por O Homem do Castelo Alto, que o catapultou como um dos grandes nomes da ficção científica. No entanto, nunca vendeu muito e durante toda sua vida, teve problemas financeiros e de saúde.

Sua vida, tanto quanto sua literatura andava entremeada com suas experiências transcendentais ou através do uso de drogas – lícitas ou não, quase sem limites entre uma e outra. Ilustra muito bem essa dualidade entre real e literário a seguinte passagem: Em 20 de fevereiro de 1974, Philip se recuperava dos efeitos causados pelo tiopental, após a extração de um dente siso, quando recebeu outra droga, dextropropoxifeno, de uma moça que bateu à sua porta, para fazer a entrega da farmácia.

Ele a descreveu como bonita, de cabelos escuros, e ficou atraído pelo colar que ela usava, com forma de peixe. Segundo ela, o símbolo era usado pelos primeiros cristãos. Mais tarde, o escritor descreveria como o sol refletiu no pingente de ouro da moça, causando um raio rosado de luz que o espantou. Ele acabou acreditando que o raio lhe despertou a clarividência e que era uma forma de inteligência. Philip também disse que o raio alertou que seu filho pequeno estava doente – ele e a esposa o levaram ao hospital, onde a suspeita teria sido confirmada. A partir de então, Philip passou a sofrer alucinações, inicialmente atribuídas aos efeitos das drogas que tomava para a dor, mas até o mês seguinte continuou a ter visões, algumas com padrões geométricos, outras em que via Jesus na Roma Antiga. Sua frequência aumentou tanto que, ele afirmava que vivia uma vida paralela, uma vida em que ele era Philip K. Dick, na outra era Thomas, um cristão perseguido pelos romanos no século I d.C. Essas experiências foram descritas em sua autobiografia, chamada Radio Free Albemuth e também em forma de ficção em VALIS, The Divine Invasion e no não finalizado The Owl in Daylight.

Blade Runner (1982), filme de Ridley Scott, baseado na obra de Philip K. Dick

Desde que topou com aquela estranha mulher de cabelos negros batendo à porta, o escritor passou a afirmar que tudo o que vemos não passa de projeção de um mundo paralelo (alguém se lembrou de Matrix?). Inspirando-se em ideias do Budismo, Cabalismo, Gnosticismo, doutrinas herméticas e novas crenças como parapsicologia e percepção extra-sensorial, além de extraterrestres, PKD descreveu os mundos alternativos em que eventualmente dizia viver. Ele acreditava ter sido contatado por uma “mente racional transcendental”.

Alguns de seus contos têm histórias que insinuam ser essa não apenas a percepção de alguém com diagnóstico de esquizofrenia, mas de uma pessoa determinada a provar que suas visões do futuro eram revelações de entidades superiores. Suas histórias têm um início extraordinário e um final desconcertante. É como se escrevê-las abrisse portas além da mente, descrevendo outras realidades, mesclando realidade e literatura.

Essa bizarra vida pessoal chamou a atenção de outros escritores, e em 1993, Emmanuel Carrère reconstruiu a vida do autor em Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, escrito a partir tanto de textos biográficos e entrevistas dele quanto de sua ficção. O livro foi lançado em 2016, no Brasil, pela Editora Aleph.

Ao todo, Philip K. Dick escreveu 44 livros, cerca de 121 contos, a maioria deles publicados em revistas especializadas ainda em vida. Vários de seus livros foram adaptados para o cinema e para a televisão, como Blade Runner (1982 e 2017), Total Recall (1990 e 2012), Minority Report (2002, e em 2015 como série); e as séries The Man in the High Castle (2015) e Philip K. Dick’s Electric Dreams (2017).

Tudo isso só fez aumentar sua fama e influência, desde que, em 1982, foi criado o Philip K. Dick Award para premiar obras de ficção científica.

No Brasil

Todos os contos de Dick que ganharam versões cinematográficas mais bem sucedidas foram reunidos num só volume, Realidades Adaptadas (Aleph). A editora também lançou Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial (de 1974), sobre um artista que desperta num mundo absolutamente desconhecido, do qual nunca tinha ouvido falar. Também ganhou republicação seu primeiro clássico: O Homem do Castelo Alto (1962), sobre como seria um mundo em que nazistas e japoneses venceram a guerra, além de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (1964), Ubik (1966) e VALIS (1978). Também é possível encontrar A Experiência Religiosa de Philip K. Dick, quadrinho de Robert Crumb. A história é uma interpretação gráfica de uma série de eventos que Dick vivenciou.

The Man in The High Castle, série da Amazon Prime, baseado na obra de Philip. K. Dick

O legado

Ainda vem mais por aí, no cinema, apesar de a Disney ter anunciado a adaptação em animação de O Rei dos Elfos, obra pouco conhecida do autor; porém, após um longo período, a produção foi cancelada (convenhamos, PKD seria demais para o tio Walt). Entretanto, duas outras adaptações estão a caminho – Radio Free Albemuth, baseado no livro homônimo, finalizada e esperando distribuição; e Ubik, roteiro criado em 1974 pelo próprio Dick, que ainda está em negociação. Outras obras ainda estão na mira dos produtores, tanto nos cinemas quanto nas telas pequenas.

Philip K. Dick morreu em 1982, antes de ver sua mais famosa versão no cinema, Blade Runner, cujo filme merece uma matéria à parte. “Minha vida e meu trabalho criativo estão justificados e foram completados com Blade Runner.” Assim finaliza Philip K. Dick a carta enviada a Jeff Walker, da produtora Ladd Company, responsável pelo filme de Ridley Scott, embora o mesmo seja muito diferente do original – mas pelo visto, em essência, fiel. Dick viu uma prévia do longa, mas nunca chegou a assistir ao filme no cinema — ele morreu três meses antes da estreia oficial, aos 53 anos.

Fontes

A Vida de Philip K. Dick – O Homem que lembrava o Futuro, de Anthony Peake

Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, de Emmanuel Carrère

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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