O Vale Nerd – Três curtas LGBTQIA+ (ou não) aleatórios muito bons!

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e estou aqui novamente para dar dicas aleatórias de filmes do Vale para vocês. Mas hoje irei enveredar por um caminho diferente, em vez de longos dramas pesados que tal nos divertirmos com animações curtinhas mas muito sensíveis e tocantes?

Recentemente descobri a nova paixão da minha vida, é a sessão de curtas da plataforma Disney+. São ótimos para assistir no ponto de ônibus, no intervalo do almoço, nas noites de insônia enquanto se calcula quantos salários seria necessário receber esse mês para pagar os boletos do mês passado… Por falar nisso, alguém sabe se um motorista de Uber ganha bem?

De qualquer forma, os curtas são lindos, fofos, deslumbrantes e essencialmente artísticos. São diversos estilos de animação empregados, alguns com uma animação tradicional bastante estilizada (como o apaixonante “Kitbull”) outros com CGI incrivelmente realistas (como o deslumbrante “Piper – descobrindo o mundo”) e tem até histórias solo de Meg Simpson. Oficialmente só existe um curta com temática LGBTQIA+ e falarei dele ao final da matéria, mas isso não significa que eu não consiga extrair metáforas importantíssimas das outras obras, então sem perder mais tempo vamos aos curtas.

FLUTUAR

“Flutuar” (“Float” no original) – Escrito e dirigido por Bobby Alcid Rubio (um dos profissionais da Pixar) e dedicado ao filho Alex, o filme é baseado em suas experiências pessoais sobre criar um filho autista. A animação precisa de exatamente um minuto para passar seu recado.

O protagonista é o pai de um pequeno, lindo e feliz bebezinho que ainda está aprendendo a andar. Mas esse bebê é especial, ele não só anda como flutua. Ele flutua feliz e alegre pelo ar e seu pai está igualmente feliz, mas só até as pessoas da vizinhança começarem a encarar o bebê com olhar de medo e espanto. O pai da criança vive um dilema, pois ele ama o filho mas não sabe lidar com a maneira com que a sociedade o enxerga. O diretor, assim como as personagens do filme é descendente de filipinos, o que também não facilita as coisas na sociedade americana.

Filho, acho que você pode ser um X-Men!

Ele também afirma que, embora o filme seja uma homenagem ao filho autista, ele decidiu que a característica especial da personagem seria flutuar e não o autismo, para que dessa forma qualquer pai que tenha um filho considerado “diferente” pudesse se identificar com a história. E é justamente por isso que eu quis colocar esse curta nessa coluna. “Flutuar” pode ser interpretado de várias formas, inclusive, ser pai de uma criança do vale. Ter um filho especial só é um problema se você deixar que seja, pois quando colocamos o amor acima de tudo não há barreiras para a relação familiar, essa é a grande lição de “Flutuar”.

E vamos combinar que ele nem é uma criança assim tão diferente das outras, afinal, que criança nunca riscou a parede de casa com o lápis de cor? A única diferença é que essa criança risca também o teto.

O visual é todo em CGI, um misto de realismo com personagens estilizados e os movimentos dos cabelos merecem destaque. Outro ponto a ser ressaltado é que há apenas uma fala no filme todo (fica a lição para os diretores que enchem seus filmes de diálogos expositivos). E para completar, o curta tem menos de 10 minutos.

PURL

“Purl” – Escrito e dirigido por Kirsten Lester (uma das profissionais da Pixar) é baseado em sua experiência pessoal ao ingressar na empresa e notar que era a única animadora mulher em um escritório repleto de homens. “Purl” é um dos primeiros projetos de curta metragem do estúdio e fala sobre a sensação de pertencimento.

O filme conta a peculiar e criativa história de Purl, um novelo de lã rosa que vai trabalhar num escritório de… bem, na verdade não sei exatamente o que eles fazem ali, tem muitos computadores, telefonemas, gráficos e relatórios só não sei o objetivo. Fica explícito que ela vai trabalhar na sessão de investimentos, em que eles estão investindo eu também não faço ideia. A sutileza passa longe nessa animação, tudo aqui é feito para gerar contraste ou desconforto a sensação de não pertencimento é refletida até mesmo no estilo de animação de Purl, enquanto todas as outras personagens são animadas por um suave CGI, o novelo de lã aparenta estar sendo animada por stop motion, ela também é a única coisa no escritório todo a ter algum tipo de cor viva. O escritório todo está repleto de homens, brancos, de terno preto e cabelo lambido para o lado. A entrada do novelo no escritório é um verdadeiro “corredor polonês” de olhares desconcertantes, no escritório há uma parede repleta de fotos de homens brancos exatamente iguais (diretores? funcionários de destaque? não importa, não há novelos ali, só homens brancos).

Estou detectando um certo padrão nos funcionários desse escritório

Aquele novelo de lã simplesmente não se encaixa naquele local, sua aparência não combina, suas ideias não combinam e principalmente, sua alegria espontânea e sorriso constante não combinam com aquele local. Isso é facilmente detectado na reunião com a diretoria, na qual é exibido um gráfico de projeções ruins que coincidentemente é um “gráfico de pizza” que coincidentemente é rosa que nada coincidentemente lembra muito a própria Purl. Não fica claro no filme se Purl é um novelo feminino ou masculino ou mesmo se novelos de lã tem gênero e eu realmente não acredito no que acabei de escrever. O que importa é a sensação de pertencimento, e é por isso que o curta está nessa coluna é por isso que a artista não limitou a história ao inserir uma mulher entrando num escritório de homens ou um homem preto entrando num escritório de homens brancos. Aquele novelo de lã faz com que qualquer um que, alguma vez na vida, já tenha sentido que não pertence ao lugar em que está inserido se sinta representado pela animação. Incluindo qualquer “Poc”, qualquer “Trans”, qualquer membro do vale. O grande “twist” da história eu prefiro deixar para que vocês vejam, não perca tempo, assista “Purl” agora mesmo.

O visual é todo em CGI, um misto de realismo com personagens estilizados, exceto pela própria Purl, cuja animação tem estilo próprio. O filme é uma comédia bastante divertida com diálogos bastante inteligentes. E para completar, o curta tem menos de 13 minutos.

SEGREDOS MÁGICOS

“Segredos Mágicos” (“Out” no original) – Escrito e dirigido por Steven Clay Hunter (um dos profissionais da Pixar) e baseado em suas próprias experiências pessoais sobre ser um garoto gay nos anos 90 e não se ver representado na mídia. É o único curta oficialmente gay da Pixar, a história fala sobre a dificuldade de “sair do armário” e o autor o define como um episódio gay de “Além da imaginação” (“The Twilight Zone” no original).

O filme começa com a mensagem “baseado em uma história real” e logo em seguida um cão e um gato cósmico saem de dentro de um arco-íris… Esse é, com certeza, o filme mais agitado dos três e conta a história de Greg e Manoel, um casal de homens prestes a se mudar para uma outra cidade. Greg nunca contou para os pais que é um homem gay, na verdade ele vive escondendo isso deles e essa relação secreta incomoda Manoel, se mudar para um lugar longe dos pais é a escolha mais fácil para ele (e para muitos membros do vale), às vezes, distante dos olhos do pai e da mãe a pessoa se sente mais à vontade para ser ela mesma. “Quando estivermos na nova casa eu penduro nosso quadro na parede” diz Greg. O que ele não sabia, é que os pais apareceriam repentinamente para ajudar na mudança, o susto é tão grande que ele grita e bate a porta na cara da mãe para correr para o quarto e pedir para o namorado sair dali, a frustração de Manoel é visível e logo em seguida vem a parte SCI-FI/Fantasia da coisa (tinham animais cósmicos saindo do arco-íris lembram-se?).

Por conta de um feitiço, Greg troca de lugar com seu animal de estimação e assim começa toda a loucura e agitação do filme.

Daqui pra frente, o que se segue é uma comédia de ação, na qual vemos o animal no corpo de Greg agindo de forma absurda sem que ninguém note que há algo de errado com ele (ou algo assim) e Greg no corpo do animal, tentando voltar ao seu próprio corpo e tentando impedir a mãe, que não para de xeretar na casa para ajudar na arrumação, de descobrir as “provas” de seu relacionamento com outro homem.

Tudo muito divertido, tudo muito lúdico e obviamente com uma conclusão muito tocante, mas o que fica para mim de toda essa confusão é a forma como o relacionamento de Greg com seus pais é retratado. Bastam poucas cenas, e poucas falas para revelar o quanto a mãe dele se esforça para fingir que está tudo certo quando, na verdade, está profundamente magoada com o filho que não está apenas se distanciando fisicamente mas também emocionalmente. Ela simplesmente não entende por que o filho que sempre foi tão próximo dela, agora age de forma tão ausente.

Greg, estou reparando que a gente realmente gosta da cor roxa.

Por outro lado, podemos ver como o segredo de Greg é pesado, ele magoa Manoel ao não assumir o namoro, ele sequer consegue se comunicar com o pai (sim, eu sei que não puseram a personagem do pai absolutamente sem nenhuma fala por acaso), mas acima de tudo ele passa a ser hostil com a mãe. A dificuldade de se assumir para os pais transforma Greg em uma pessoa ansiosa, triste, insegura, cheia de dúvidas e agressiva. No fim das contas, podemos ver que todo esse sofrimento não teve razão de ser, no fim das contas, vemos que ele poderia ter tido um relacionamento muito melhor com os pais se tivesse se aberto desde o início.

É claro que, embora linda, a mensagem não é aplicável a todas as famílias, existem pais que são realmente cheios de preconceito e expulsariam de casa um filho do vale. Por isso, acho que a real mensagem do filme não é “saia agora do armário” mas sim “conversem com seus pais”.

O visual é todo em um CGI completamente estilizado, segundo o próprio criador, ele queria que o filme tivesse o visual próximo ao de um livro infantil. É uma comédia de situação focada em humor físico e pastelão. E para completar, o curta tem menos de 13 minutos.

Vale lembrar que todos esses curtas fazem parte da linha Sparkshorts, ou seja curtas de animação dos estúdios Pixar, estão todos na Disney+ mas também podem estar disponíveis no Youtube.

E se você quiser conversar comigo, falar o que achou de cada um desses filmes, se já assistiu algum deles ou se interessou em assistir. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E como no último dicas de filme, hoje eu irei pedir para que você deixe a sua própria indicação de cinema, qual filme de temática LGBTQIA+ você gosta muito e acha que devo assistir? Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, levou meia hora para assistir os três curtas da Pixar e 36 horas para escrever essa matéria.

1 Comment

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Everton, acho que a Disney + tinha que te pagar, pois você descreve muito bem o produto deles kk

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