Ao desenterrar o passado, a percepção da efemeridade de nossa existência

Por Fernando Fontana

Há um navio anglo-saxão, romance e spoilers no texto abaixo.

Baseado no livro homônimo de John Preston e na história real da viúva Edith Pretty (Carey Mulligan), que contrata o escavador Basil Brown (Ralph Fiennes) para cavar o terreno de sua propriedade, conhecida como Sutton Hoo, na Inglaterra, em uma busca que resultaria na descoberta de uma embarcação anglo-saxã de 25 metros, contendo inúmeros objetos raros como armas, fivelas, um elmo, talheres e moedas do século VI, o filme dirigido por Simon Stone utiliza o evento histórico para uma análise da efemeridade da vida.

Em seu princípio, o filme parece apontar para dois eixos principais, a própria escavação e o início bastante sutil de um romance entre a viúva Edith e Brown, casado. Essa sutileza pode ser notada em dois diálogos específicos entre Brown e sua esposa, May (Mônica Dolan) em que a fascinação pelo navio descoberto é utilizada como metáfora para a fascinação pela contratante e seu filho Robert (Archie Barnes):

“Ela é linda (referindo-se à embarcação), tem que tomar cuidado com esse tipo de coisa…está apaixonado por esse barco Viking, dá para perceber”.

May Brown

Com a descoberta do navio e a percepção de que se trata de algo de imenso valor histórico, uma equipe do museu britânico se envolve na escavação, e aos poucos, a possibilidade de que nasça um relacionamento amoroso proibido entre Brown e Edith se esvai, dando lugar a outro possível romance, dessa vez entre Peggy Piggott (Lily James), casada com Stuart Piggott (Ben Chaplin) e Rory Lomax (Johnny Flynn), primo de Edith, que em breve será convocado para a força área britânica, que lutará contra as forças de Hitler na cada vez mais próxima Segunda Guerra Mundial (o filme se passa em 1939), ano em que o conflito teve início).

Johnny Flynn e Lily James em cena de “A Escavação” (Larry Horricks/Netflix via AP)

Não nos é revelado quem é a pessoa que foi enterrada com o navio, mas sabe-se que era alguém importante, um rei ou grande guerreiro, já que a embarcação foi carregada do rio até aquele ponto e os objetos presentes nela indicavam a fortuna do morto. O barco e os objetos resistiram ao tempo, já o corpo de seu antigo proprietário se foi, devorado pela ação do tempo.

Se mil anos passassem em um instante, o que restaria de nós?

Rory Lomax

O filme está repleto de situações onde a fragilidade e a brevidade da vida são lembradas; embora não haja nenhuma cena de batalha, a guerra permanece como um fantasma, algo que pode eclodir a qualquer instante, arrastando a Inglaterra e seus jovens para um novo conflito sangrento onde milhões perderão a vida. Vale lembrar que a Primeira Guerra Mundial havia terminado em 1918, portanto 21 anos antes, permanecendo bastante viva na memória da maioria das pessoas.

A própria viúva Edith sofre de uma doença que pode lhe tirar a vida a qualquer instante, deixando seu filho Robert órfão.

O casamento de Peggy e Stuart Piggott ganha contornos completamente diferentes a partir dessa perspectiva de que tudo pode acabar em um piscar de olhos. Stuart é claramente homossexual, em uma época onde assumir sua orientação sexual era impensável, o que certamente o levou a se casar com Peggy em um relacionamento que não envolve sexo ou tão pouco companheirismo.

Stuart e Peggy Piggott, casados, mas distantes

Stuart não odeia Peggy, longe disso, ele simplesmente não sente nada pela esposa, e embora em determinado momento diga que poderia aprender a ser feliz ao lado dela, está se enganando. Ao encerrar o relacionamento, Peggy não está apenas buscando a própria felicidade, mas dando a Stuart a oportunidade de buscar a sua.

Por fim, Edith doa tudo que foi descoberto em sua propriedade ao museu, permitindo assim que o maior número possível de pessoas veja o tesouro arqueológico, ao mesmo tempo em que faz uma única exigência, que o nome de Basil Brown seja mencionado como o responsável por encontra-lo, dando ao escavador a oportunidade que tantos almejam, ser lembrado após a morte pelo que fez em vida.

Se vamos inevitavelmente morrer, a memória e sua preservação é extremamente importante, ela nos diz quem somos e como chegamos aqui, e nos permite passar esse conhecimento adiante para as novas gerações. Sem a memória é impossível aprender com os erros, e os repetimos com consequências muitas vezes desastrosas.

Com boas atuações, bela fotografia e um roteiro inteligente, “A Escavação” é uma obra que encanta sem precisar abandonar a sutileza ao retratar seus temas ou seus personagens.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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