Crônicas de Gotham City: O garoto de recados de Scarface

Por Fernando Fontana

O sino da porta tocou anunciando que alguém entrava na mercearia, de trás do balcão, Castro, o proprietário, homem negro de cabelos e barba grisalha, olhou e logo reconheceu o jovem Pietro, filho único dos Bernardi, cuja conta já não era paga há mais de dois meses e que, apesar do guarda-chuva, encontrava-se ensopado, graças à chuva torrencial que desabava lá fora.

De cabeça baixa e sem nada dizer, o garoto que completara dezesseis anos há alguns dias, caminhou até a geladeira; Castro reconheceu a atitude, era mais um daqueles dias ruins, quando Rocco Bernardi, o pai, encontrava uma desculpa qualquer para espancar o filho.

Pietro pegou uma lata de Pepsi e se dirigiu até Castro; puxara a mãe, olhos e cabelos negros como carvão e um belo rosto siciliano, que agora estava marcado com um olho roxo e um corte profundo no lábio superior.

– Precisa dar uma olhada na geladeira de novo, não está gelando direito – disse colocando o refrigerante sobre o balcão.

– Essa velharia não tem mais jeito, preciso trocar – respondeu Castro – coloco o refrigerante na conta?

– Não tenho um centavo.

– Vamos fazer o seguinte, essa é por conta da casa então. O que foi agora?

– O que você acha? O de sempre, isso é que foi.

– Seu pai?

– O desgraçado não arranja trabalho decente, enche a cara, volta pra casa e desconta em mim e na minha mãe.

– Bateu na sua mãe também?

– Não, dessa vez foi só em mim.

– Desculpa falar, garoto, mas teu velho não presta, só continuo vendendo fiado pra vocês por pena da tua mãe, que é uma santa.

– Não é!

– O que?

– Minha mãe, não é santa, mas é melhor que o velho. Posso levar a Pepsi então?

– Pode, claro, mas ele te bateu de novo porque não arrumou trabalho?

– Não, porque ele disse que eu sou vagabundo, é só disso que me chama, vagabundo, diz que na minha idade já trabalhava e colocava dinheiro em casa, ao invés de ficar jogado no sofá.

– Seu pai está parado porque trabalha com construção, e as chuvas – Castro apontou para o lado de fora do mercado – elas não ajudam, mas para o resto de nós também não está fácil. Olha pra mim, tive que demitir meu único funcionário por conta da recessão. Esse novo prefeito, o tal Greeves, prometeu trazer mais empregos e até agora nada.

– Todo mundo sabe disso, meu velho também sabe, ele só quer uma desculpa para poder me bater, é só isso. Quer que eu seja como ele, mas puxei o lado ruim da família.

– E é isso que você quer ser?

– O que?

– Como seu pai, você quer ser como ele?

– Um bêbado fracassado que desconta as frustrações na mulher e no filho? Não, obrigado!

– Escuta, se você quiser mesmo um trabalho, eu te arrumo um.

– Aqui? – Pietro perguntou surpreso – mas você disse que acabou de demitir teu último funcionário.

– Eu disse, mas não é pra mim, e não é – Castro se aproximou e falou baixo – não é exatamente dentro da lei.

– Eu topo” – Pietro respondeu quase de imediato.

– Você entendeu o que acabei de dizer?

– Entendi, cara, entendi sim, mas eu faço qualquer coisa para sair de casa por um tempo e não depender mais da grana do velho.

– Sei – Castro tirou uma folha de um velho caderno que guardava embaixo do balcão e começou a escrever – nesse caso, você vai fazer o seguinte, vai nesse endereço, e quando te atenderem, diz que fui eu que te mandou, eles vão saber do que se trata.

– Valeu mesmo, Castro, eu nem sei como agradecer – disse Pietro guardando o pedaço de papel no bolso – e para quem eu vou trabalhar?

– Scarface, já ouviu falar?

– Você tá brincando – Pietro sorriu enquanto abria a Pepsi – o maluco que anda por aí com um boneco e vive sendo surrado pelo Batman?

– Ei, presta atenção – Castro agarrou o garoto pelo ombro fazendo com que ele derrubasse um pouco do refrigerante – isso é muito importante, não faça piadas ou ria do Scarface, ele é perigoso.

– Jesus, calma, Castro, relaxa, não vou tirar sarro dele.

– Nunca fale com o ventríloquo, ele não é importante, finja que ele não existe, fale sempre com o Scarface e mostre respeito. Ele é mais do que parece, mais do que um simples boneco, tem algo lá dentro, algo maligno, dá pra sentir, mas do jeito que vão indo as coisas na sua casa, talvez seja bom trabalhar pra alguém assim.

**********

Quando Pietro chegou em casa, já passavam das oito da noite, o pai e a mãe jantavam; ele, um homem de meia idade, corpulento, bigode espesso adornando uma face embrutecida, vestia uma camiseta regata branca furada em mais de um lugar, mas impecavelmente limpa. Formava estranha combinação com a esposa, alguns anos mais jovem, pálida, magérrima, com longos cabelos negros presos em rabo de cavalo, estava sempre cansada e parecia frágil, quebradiça.

– Pietro, meu filho, onde estava? – Perguntou ela.

– Onde acha que ele estava? Vadiando pelas ruas com aqueles amigos inúteis, é onde ele estava – disse o pai.

Pietro fechou a porta atrás de si, mas não se sentou, ficou imóvel, olhando a cena e imaginando o quanto odiava cada aspecto daquele homem – Eu consegui trabalho – ele finalmente disse.

– Deus seja louvado – a mãe levantou-se, foi até Pietro e lhe beijou a face – tenho rezado tanto, e veio em tão boa hora. Ouviu isso, paizinho, o nosso filho conseguiu trabalho.

– Mentira – respondeu o pai apontando o garfo ainda com um pedaço de omelete preso nele – não há trabalho nas ruas, quem iria contratar um inútil como ele?

– Eu não estou mentindo, começo amanhã – disse Pietro se esforçando para não gritar, para não dar ao pai um motivo para lhe bater novamente.

– Paizinho, não fale assim, nosso filho não é mentiroso. Onde é que você vai trabalhar, filho?

Pietro hesitou, obviamente a verdade não podia ser dita.

– O que foi, moleque, perdeu a língua? Responda para sua mãe!

– Na venda do Sr. Castro.

– Maravilha – disse a mãe – o Sr. Castro é um bom homem, aceita nos vender mesmo com nossa dívida e agora vai empregar você.

– Já te disse que não gosto de te ouvir elogiando outro homem, muito menos aquele cubano arrogante, se ele nos vende é porque sabe que cedo ou tarde vou pagar.

– Sim, eu sei, é claro que eu sei, todo mundo sabe que você é honesto – a mãe tratou de se corrigir imediatamente.

– Você fala como se eu não sustentasse a casa, se essa família tem um teto sobre a cabeça e comida na mesa é graças a mim, ouviu bem? – Ele começava a ficar alterado, a notícia de que o filho conseguira um emprego parecia irrita-lo ao invés de alegra-lo.

– Por favor, não se zangue paizinho, não falei por mal – disse a mãe assustada.

– Ele não é cubano – interrompeu Pietro.

– O que disse? – O pai o fuzilou com o olhar.

– Se chama Castro, mas não é cubano, é porto-riquenho!

– Ah, ele é, não é mesmo? Pois vamos fazer o seguinte, vamos descobrir se você está mesmo falando a verdade – o pai limpou a boca com o guardanapo, levantou-se e agarrou Pietro pelo braço.

– Para onde você vai levar o menino? – perguntou a mãe.

– A venda é aqui perto, já deve estar fechada, mas Castro mora nos fundos, vou descobrir se ele vai mesmo dar um emprego para esse inútil.

De fato, a venda ficava a pouco mais de dois quarteirões da casa dos Bernardi, e durante todo o trajeto, Pietro não ofereceu qualquer tipo de resistência, apenas se deixou arrastar pela calçada como um boneco de pano inexpressivo – você pode enganar sua mãe, moleque, mas a mim não, se arrumou trabalho, garanto que não é decente – disse-lhe o pai.

Pietro engoliu a raiva, se respondesse seria pior. Estava certo de que a mãe só aturava o pai por não possuir meios de se sustentar e por medo do que poderia lhe acontecer caso o abandonasse; amar ela não o amava, talvez no começo, antes de se casarem, mas agora era certo que não, porque já não restava uma única razão para gostar ou sequer respeitar aquele homem. Era também um covarde, sua coragem se limitava ao lar, com a esposa e o filho, mas na rua, já fora humilhado pelo patrão e por autoridades menores, sem jamais dizer uma única palavra.

Chegaram na venda, que assim como previsto, encontrava-se de porta fechada. Havia, no entanto, um pequeno e enferrujado portão lateral, destrancado, já que sua altura não representava qualquer obstáculo para possíveis invasores, dando acesso a um corredor, que por sua vez levava até um quarto nos fundos, onde Castro morava sozinho.

– Castro, ei, Castro! – Gritou o pai que já havia observado que a luz estava acesa no cômodo.

– Já vou, aguarda um instante – respondeu Castro a distância.

– Veja só essa gente – o pai falou para Pietro – não é chegada no batente, veja se isso são horas de se fechar a venda. Se eu fosse dono de um negócio, teria muito lucro, porque sei dar valor ao trabalho.

– Nem todo mundo pensa apenas em trabalhar e comer – respondeu Pietro quase no automático.

– Por isso são pobres e vão continuar pobres.

Como se nós fossemos ricos, como se também não fossemos imigrantes, ele se comporta como se estivéssemos em condição de julgar qualquer um nesse bairro – pensou Pietro, mas dessa vez guardando apenas para si – estava com dor de estômago, sempre sentia isso quando ficava nervoso ou ansioso, achava que Castro iria compreender o que estava acontecendo e manter a história, mas não tinha certeza.

O porto-riquenho caminhou sem pressa pelo corredor, vestia calça de pijamas, estava sem camisa, mas coberto por um roupão cinza encardido – Bernardi, o que está fazendo aqui a essa hora? Olha o tempo – apontou para o céu – logo desaba outro temporal.

– Ah, esqueça o tempo, não é uma chuvinha que vai me matar, e nem é tão tarde assim. Escuta, o meu moleque chegou em casa com uma história de que você o havia contratado para trabalhar como ajudante ou algo assim. Isso é verdade?

Castro encarou Pietro por uma fração de segundo, apenas o suficiente para decifrar o que o velho Bernardi estava falando – Sim, claro – ele disse voltando-se para o italiano – é verdade, a idade já está pesando e não dou conta de todo o serviço, precisava de alguém para me ajudar e pensei nele, se o senhor não tiver nada contra, é claro.

– Eu? Algo contra? Está maluco? Estou é surpreso de querer dar uma chance para o garoto. Já passou da hora dele crescer e ganhar seu próprio dinheiro, só não tinha certeza de que falava a verdade.

– Você deveria confiar mais em seu filho, é um bom garoto.

– E você deveria cuidar da sua própria vida, Castro. Ah, e não se esqueça de descontar todos os meses parte da nossa dívida do salário que for pagar a ele – disse o pai dando as costas e tomando o caminho de casa, enquanto as primeiras gotas começavam a cair.

– Desculpe, Castro – falou Pietro o mais baixo que pode – eu não sabia o que dizer quando me perguntaram onde eu trabalhava.

– Esqueça, garoto, tudo se resolveu. Você falou com ele? Falou com Scarface?

–Fiz tudo como você pediu para fazer, ele me contratou como garoto de recados e disse que de agora em diante eu deveria ficar de olhos e ouvidos atentos.

– Pietro – gritou o pai, já a meio quarteirão de distância – anda logo, está chovendo, se pegar uma pneumonia, não pense que eu vou gastar uma fortuna com remédios.

– Eu preciso ir.

– Eu sei – respondeu Castro – só faça o que Scarface mandar fazer, e eu garanto que logo sua vida vai mudar.

**********

Passaram-se pouco mais de dois meses, e Pietro aprendeu rápido o serviço, ouça atentamente o que deve ser dito, dê o recado, nunca faça perguntas, a curiosidade colocou sapatos de cimento no gato e mandou para o fundo do rio; aproveite para prestar atenção no que aconteceu ao seu redor, no que alguns falam, alguns, quando bebem mais de dois drinques, cantam como rouxinol, volte e conte tudo para o Scarface.

Não é física quântica, é bem simples até. Pode parecer estranho conversar com um boneco de madeira, mas é questão de costume, você logo esquece que há alguém o controlando, de fato, uma vez Castro disse algo que faz todo o sentido: presta atenção, garoto, não é o ventríloquo que controla o Scarface, é o Scarface que controla o ventríloquo.

A grana era boa, mais do que um garoto da sua idade poderia esperar, quitou parte da dívida com Castro, dava dinheiro para a mãe, mas percebeu que devia faze-lo às escondidas, porque isso irritava o pai e porque começava a levantar suspeitas – Aquele cubano está te pagando tão bem assim? – perguntou o velho quando descobriu que haveria filé para o jantar. A ideia de ver o filho trazer mais dinheiro para casa do que ele próprio transtornava Rocco, e o fazia beber mais do que de costume, com as previsíveis consequências.

E tinha o respeito, ah, sim, o respeito era o melhor, quem sabia para quem o menino trabalhava não o incomodava, os malucos do Arkham vem e vão, mas tem boa memória e cobram suas dívidas.

Não era tão tarde, quando Pietro chegou em casa e se deparou com uma cena conhecida, o pai no sofá, sozinho, assistindo o telejornal, olhos vermelho sangue, várias latas de cerveja vazias no chão, estava bêbado. Percebeu a mãe olhando de soslaio e logo depois retornando para o quarto e trancando a porta, era o que fazia quando não queria ver ou ouvir o filho sendo espancado.

O pai levantou-se com dificuldade, se aproximou de Pietro, deixando apenas uns poucos centímetros de espaço entre ambos, seu hálito fedia – onde você estava – ele perguntou com voz pastosa – onde você estava – repetiu a pergunta.

– Você sabe onde eu estava, estava…

Pietro não conseguiu terminar a frase, foi atingido por um tapa forte, quase um soco, cuja força o jogou no chão – Fiquei sabendo que você não vai para a escola há dois meses, DOIS MESES, seu pequeno mentiroso desgraçado. Vou perguntar mais uma vez, onde você estava? E não me diga na venda do Castro, porque eu fui até lá e lá você não estava; o cubano não quis abrir o bico, mas você vai, ah, você vai – disse retirando o cinto da calça e se preparando para a surra.

Pietro se levantou e encarou o pai de frente – vamos logo com isso, termine de uma vez o que você vai fazer de qualquer jeito – seus olhos também estavam vermelhos, mas não pela bebida, era um misto de vontade de chorar e raiva efervescente.

– O que você disse?

– Você ouviu, é uma surra que quer me dar, não é? Pois então bata, mas fique sabendo, essa vai ser a última vez que vai me bater, velho.

A primeira cintada acertou no peito de Pietro, vieram outras depois, mas a cinta foi logo abandonada e deu lugar para tapas e chutes, em uma surra tão longa e violenta que sua mãe cogitou leva-lo ao hospital quando terminou.

No dia seguinte o pai acordou cedo e saiu para procurar trabalho. Pietro acordou uma hora depois, seu corpo estava todo marcado, se trocou, cada movimento, por mais simples que fosse lhe causava dor, não tomou café da manhã e se preparou para sair.

– Seu pai disse – falou a mãe – que se não for para a escola hoje, não precisa voltar mais para casa.

– E a senhora? – Perguntou Pietro.

– Eu?

– É, a senhora, vai deixar eu ir?

– Vou – hesitou por um instante antes de continuar – mas vou com você.

Pietro percebeu que a mãe necessitou de cada fibra de seu corpo para reunir a coragem necessária para dizer o que disse. Talvez porque pela primeira vez tenha percebido que, cedo ou tarde, o homem com quem moravam e que ela chamava carinhosamente de paizinho, poderia matar o filho, ela ou ambos.

– Não vamos precisar ir a lugar algum – disse Pietro antes de sair da casa e fechar a porta.

**********

Rocco Bernardi abriu os olhos, a cabeça latejava, doía, estava sentado em uma cadeira de madeira sólida, localizada no centro do que parecia ser um porão fracamente iluminado por uma lâmpada que piscava incessantemente no teto.

Seus olhos, aos poucos, se acostumaram com o ambiente em que estava, à sua frente, um senhor de idade quase inteiramente calvo, acima do peso, usando óculos redondos e vestindo um terno e gravata borboleta, segurava um boneco de ventríloquo com traje e adereços que lembravam um mafioso, incluindo terno risca de giz, chapéu e uma pequena metralhadora Thompson, que ficara famosa nos tempos de Al Capone.

A última coisa que se lembrava era de estar saindo do bar, tarde da noite, após beber bastante e perder alguns trocados ne mesa de bilhar, quando alguém ou alguma coisa o atingiu por trás.

– Ah, senhor Bernardi, muito bom, finalmente acordou, temos negócios a tratar – o senhor de idade não disse uma palavra, a voz anasalada vinha do boneco com grande cicatriz desenhada em sua face de madeira, e ele sim movia a boca.

– Mas que brincadeira é essa – o pai disse enquanto tentava se levantar, sendo imediatamente colocado de volta ao seu lugar por uma mão forte que o segurou pelo ombro. Ele pode notar do seu lado esquerdo, um homem com seguramente mais de dois metros, costas largas, braços enormes e queixo quadrado; parecia capaz de partir uma árvore ao meio com um único soco, vestia terno preto e uma gravata vermelha curta demais para o seu tamanho desproporcional.

– O gentil cavalheiro ao seu lado – disse o boneco – chama-se Earl. Earl está aqui para garantir que você se comporte e não me obrigue a crivar esse seu corpo miserável com uma rajada de balas. Compreendeu?

– Você – Rocco disse olhando para o ventríloquo – eu já te vi na TV, você é um dos malucos do Arkham, não é? O que vai fazer comigo?

– Primeiro, meu nome é Scarface, segundo, detesto que me chamem de maluco. Earl, quebre um dos dedos desse inútil.

– Qual dedo, senhor Scarface? – Earl perguntou, já se movendo na direção do pai de Pietro.

– Qualquer um, Earl, apenas seja rápido, estou atrasado para um compromisso.

– Não, espere, o que você vai – o italiano não teve tempo de dizer mais nada, Earl pegou sua mão e com um movimento rápido, quebrou-lhe o dedo indicador com a mesma facilidade que quebraria um mísero palito dentes.

–MEU DEUS! – gritou Rocco, segurando a mão enquanto lágrimas brotavam de seus olhos – Você quebrou meu dedo!  Jesus, Maria e José, você quebrou meu dedo!

– Acredito que agora você vá me ouvir. Sabe, senhor Bernardi, recentemente eu me dispus a aprender algo novo todos os dias; uma maneira de fazer algo mais do que simplesmente lidar com a escória que infesta o meu território. Hoje, por exemplo, eu aprendi que borboletas se alimentam de sais minerais, interessante, não? Por isso, quando pousam em alguém, não é um sinal de Deus ou porque acharam a pessoa bonita, não, é porque querem se alimentar do suor dela, entende?

– Meu dedo – Bernardi disse entre dentes trincados, enquanto a dor o afligia, ainda que diminuída pelo efeito da bebida ingerida nas horas anteriores.

– Veja só – Scarface disse – a realidade é bem menos poética do que a fantasia, não é mesmo? O mundo é uma maldita lixeira, e você tem que ser o rato que manda nela. Já a palavra pai e essa bobagem de que eles fazem tudo pelos filhos, apenas outra fantasia que fica muito bonita em um apartamento bonitinho do centro de Gotham, mas aqui, aqui não, aqui nós sabemos como as coisas funcionam.

– Pietro – disse Bernardi – isso tudo é por causa dele, não é?

– Ah, sim, pode apostar que é sobre ele, mas não apenas sobre ele, é sobre mim também. Veja, Pietro trabalha para mim agora, e é inadmissível que um dos meus rapazes seja espancado, mesmo que seja pelo próprio pai. É ruim para os negócios, faz os outros pensarem que eu não sou mais o mesmo, que estou ficando mole, e aqui, em Gotham, isso é o fim.

– Vocês vão me matar porque eu bati em meu filho?

– Na verdade, eu pensei em lhe dar uma boa surra daquelas, como aviso para que você saiba que não deve mais encostar em um fio de cabelo dele. Achei que seria o suficiente.

– Por favor, por favor – Bernardi caiu de joelhos diante de Scarface e dessa vez Earl não se moveu a tempo para impedi-lo – eu nunca mais vou bater nele, eu juro.

– Como eu disse – Scarface olhou para o homem em lágrimas e de joelhos – eu pensei em dar-lhe só um corretivo, mas Pietro disse que era pouco, e que queria cuidar disso pessoalmente. Jovens, sempre tão impulsivos, não é mesmo?

Bernardi, olhou para o lado, e dessa vez não encontrou Earl, e sim Pietro, que agora também vestia um terno risca de giz e segurava um taco de baseball.

– Olá, papai, eu lhe disse que aquela seria a última surra que me daria – ergueu o taco de baseball enquanto o velho Bernardi tentou inutilmente se proteger com as mãos.

Naquela noite, Pietro voltou sozinho para casa, a mãe lhe esperava aflita sentada na mesa da cozinha. Ele jogou um pacote embrulhado em papel de jornal.

– O que é isso?

– Filé, de agora em diante vamos comer filé sempre que quisermos.

**********

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

2 Comments

  1. Will Nygma disse:

    Muito bem escrita!

  2. Roj Ventura disse:

    Mais eficiente do que o Batman.

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