O Vale Nerd – “O som do silêncio” e o capacitismo

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e quando criei essa coluna não tinha a intenção de escrever textos única e exclusivamente voltados ao público do vale, muito pelo contrário, em minha primeira matéria “O homem aranha e a inclusividade”, eu falo justamente do quanto é importante que haja aproximação das pessoas e não segregação. Mas confesso que nunca pensei em tocar em um tema como o Capacitismo por ser algo muito distante da minha realidade e por não estar alinhado ao tema da sexualidade ou da identidade de gênero. Isso até assistir “O som do silêncio” (“The sound of metal” no original) o filme que está disponível na Amazon Prime Video me fez refletir sobre mais essa forma de preconceito da nossa sociedade.

Para aqueles que “adoram as siglas” como LGBTQIA+ hoje lhes  trago mais uma: PcD é a sigla atualmente utilizada para designar Pessoas com Deficiência, mas é importante ressaltar que algumas pessoas não gostam do termo Deficiência e preferem outras terminologias. Em outras palavras, há aqueles que preferem ser chamados de Surdo e há aqueles que preferem ser chamados de Deficiente Auditivo, para todos os efeitos não custa perguntar para a própria pessoa. E antes de continuar tenho que pedir licença para adentrar ao assunto, pois, eu não tenho local de fala na questão. Se eu escrever algo incorreto, por favor desculpem-me e corrijam-me nos comentários.

O termo Capacitismo, de uma forma superficial, pode ser traduzido como o preconceito para com as PcD, é estrutural e muito sutil para quem não conhece a questão. Não falo de preconceito apenas em forma de discriminação como quando falamos “Não está me vendo? Você é cego?” ou quando dizemos “Não venha dar uma de João sem braço!”, ou talvez “Não grite comigo que eu não sou surdo!” ou ainda “Desculpa de aleijado é muleta!”.

Mais do que abordar essas formas de ofensa tão difundidas na sociedade, temos que falar do capacitismo como forma de segregação social. Digamos, se o governo federal exigisse que todas as calçadas do país fossem padronizadas para dar acessibilidade aos Deficientes Visuais com colocação de piso guia e nivelamento contínuo, seria mais provável que a maioria dos proprietários das residências ficassem felizes com a atitude inclusiva ou furiosa por ser obrigada a fazer mais uma reforma em casa? Essa falta de acessibilidade afasta as PcD do convívio com a sociedade, as segrega.

Edifícios construídos nos dias de hoje possuem rampas de acesso, além de escadas e elevadores, para que os Cadeirantes possam se locomover da mesma forma que os Andantes. Elevadores possuem a numeração em braile para que os Deficientes Visuais possam escolher seu andar sem solicitar a ajuda de ninguém. Mas digam-me, isso é suficiente? Saberia dizer quantos tipos de deficiência existem? Isso tudo é muito complexo pois uma pessoa que nunca enxergou na vida não tem as mesmas necessidades de uma pessoa que perdeu a visão depois de adulta. Da mesma forma, alguém que não possui nenhuma das pernas, não tem as mesmas necessidades de uma pessoa com locomobilidade reduzida. É possível que alguém tenha perdido totalmente a visão, ou que tenha perdido parcialmente. A questão é que todos esses exemplos são enquadrados no aspecto da PcD e a pergunta é: o mundo está preparado para atender as necessidades dessas pessoas? Tratamos essas pessoas com igualdade ou com condescendência? Quando olha uma PcD, você acha que ela é Capaz de fazer as mesmas coisas que você?

Temos que pensar que um PcD não é uma pessoa que está constantemente precisando de ajuda para fazer suas próprias atividades. É preconceituoso, por exemplo, achar que um funcionário PcD trabalhando em um escritório qualquer esteja ali apenas para “cumprir cota” e não por competência. Também é preconceituoso romantizar as deficiências e rotular de “herói”, “exemplo de superação” qualquer PcD que faça atividades corriqueiras sem auxílio de ninguém. Durante a pesquisa dessa matéria li depoimentos de PcD que ouviram frases como “Quem deixou você sair de casa sozinha?”.

O capacitismo está tão incrustado na mente das pessoas que ele pode passar despercebido e justamente por isso eu diria que é até mais difícil de combater do que preconceitos de raça, identidade de gênero ou orientação sexual. Uma rampa de acesso não é diferente de uma escada, só atende a necessidades diferentes de pessoas diferentes.

O filme “O som do silêncio” mostra as mudanças na vida de Ruben Stone (Riz Ahmed de “Rogue One: Uma História Star Wars” e “Venom”), o baterista de uma banda de heavy metal que percorre o país ao lado da cantora e namorada Lou (Olivia Cooke de “Jogador Nº 1” e “Bates Motel”) tocando em festivais alternativos nos quais conseguem dinheiro suficiente para sobreviverem em seu motor home. A direção do filme é de Darius Marder que praticamente estreia na função, tendo em seu currículo de diretor de longas apenas o documentário “Loot”, o roteiro é de Darius e Abraham Marder que também é creditado em “Loot” no departamento de música e composição.

Ruben Stone, interpretado por Riz Ahmed em “O Som do Silêncio”, filme disponível na Amazon Prime Vídeo

Estou ressaltando esses créditos e o fato da direção e roteiro serem de pessoas praticamente inexperientes pois isso é digno de reconhecimento. A história é muitíssimo bem amarrada e a direção é simplesmente sublime, sei que o que irei dizer pode ser considerado um crime por fãs mais radicais do cinemas mas vou correr esse risco. O meu conselho é: Não assistam a esse filme legendado! Se seu inglês estiver em dia, assista no original sem legenda, caso contrário, assista dublado. Foi a minha escolha e garanto que o trabalho de dublagem também está excelente.

Digo isso pois o design de som desse filme é excepcional e é parte imprescindível da experiência ao assistir! A maneira como a narrativa se desenvolve é tão imersiva que praticamente me senti na pele do protagonista. Ocorre que de maneira muito repentina, a personagem perde grande parte da capacidade auditiva, ficando com menos de 30% da audição original. Por se tratar de um músico é até natural observar a reação inicial de choque e desespero da personagem, o que não é comum é a forma como a direção, e o design de som, nos coloca para ouvir da mesma forma que ele. A cena em que tentamos, pela primeira vez, ouvir o que as pessoas estão dizendo juntamente com Ruben é um exemplo de como se faz cinema.

“O som do silêncio” é o tipo de filme que você deve assistir mais de uma vez para prestar atenção aos detalhes, há muita sutileza, muita quebra de expectativas e definitivamente não é um filme panfletário e cheio de clichês. Ao ver o músico no palco pode-se imaginar que o filme irá abordar abuso de drogas, um estilo de vida deplorável, escatológico e autodestrutivo. Mas não é isso que vemos, o que vemos é um trailer muito bem organizado, um homem que levanta cedo, faz um suco detox para o café da manhã e acorda a namorada com carinho.

O filme também não subestima a inteligência do espectador e passa longe dos diálogos expositivos. Nesse filme não veremos um astronauta furando uma folha de papel para explicar o conceito de buraco negro para outro astronauta (quem pegou a referencia pegou). Nesse filme, o que vemos é um vislumbre das cicatrizes no pulso de uma das personagens e isso é o suficiente para notarmos que aquela personagem é suicida. O que vemos é um telefonema para alguém que não sabemos quem é, seguida de uma troca de palavras muito rápida e isso é o suficiente para notarmos que a personagem está falando com o tutor da outra personagem e dessa forma notamos que aquelas pessoas são adictos tentando manter a sobriedade. Só para citar mais um exemplo dessas sutilezas, podemos falar do quanto o sentimento da amizade é bem representado quando vemos um desenho numa folha de papel aparecendo, meio que por acaso, na forma de uma tatuagem.

Riz Ahmed e Olivia Cooke em “O Som do Silêncio”, filme disponível na Amazon Prime Video

Na maior parte do filme, acompanhamos a jornada de Ruben tentando entender como será sua vida a partir desse evento. E fica claro que o maior problema do protagonista não é a deficiência auditiva, nem a dependência das drogas, mas sim a falta de autocontrole. E mais uma vez isso é feito sem nenhum diálogo expositivo, basta um donut para entendermos isso. Se observarmos mais de perto, podemos notar que a personagem está passando pelos primeiros dos cinco estágios do luto, que são: Negação, Raiva, Negociação, Depressão, Aceitação.

Acompanhamos também o processo de Ruben na comunidade de Joe (Paul Raci de “Fighting Tommy Riley” e “The Glimmer Man – O homem das sombras”), dedicada à socialização de deficientes auditivos. Em mais um exemplo de direção sublime, acompanhamos a personagem completamente isolada em meio a um mar de pessoas dialogando em libras sem que ele saiba o que estão dizendo. Impossível não se sentir perdido juntamente com a personagem. Entretanto, o maior desafio do protagonista nessa comunidade não envolve aprender a linguagem de sinais, envolve aprender que não há ninguém ali precisando ser consertado. A fixação de Ruben em fazer um implante para “corrigir” a surdez é uma prova contundente de que ele nada mais é do que uma pessoa Capacitista que pensa que sem sua audição ele deixará de ser uma pessoa completa.

Se eu não me controlar, continuarei revelando trechos importantes do filme, a beleza da cena do escorregador, o por que do nome original do filme ser “O som do metal”, e por isso mesmo prefiro terminar a matéria por aqui, aconselhar vocês a assistirem, e torcer para que o filme esteja presente no Oscar 2021. É preciso ressaltar que essa perfeição toda é resultado de 13 anos de desenvolvimento e por isso mesmo vou evitar reclamar de sua duração de mais de duas horas.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre esse e outros filmes com a temática das PcD. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E como dica do dia hoje eu vou deixar um dos materiais no qual eu me baseei para escrever esse texto que conta com depoimentos das próprias PcD: https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,capacitismo-pessoas-com-deficiencia-explicam-o-que-e-e-como-evita-lo,70003478130. Mas se você quiser algo mais Nerd pode ler a HQ “Demolidor: Diabo da Guarda”, uma história surreal de Kevin Smith com arte de Joe Quesada estrelada pelo herói da Marvel que, por acaso, é Deficiente Visual. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e tem o sonho de montar uma banda de Heavy Metal!

4 Comments

  1. Lorena Ferreira Soeiro disse:

    Adorei o texto. Inclusive recomendo assistir no escuro, com plug de ouvido. Torna a experiência ainda melhor!!!

  2. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    O filme parece ótimo.
    Mudou a foto , amei a foto e a frase👏👏

    • Everton Nucci disse:

      Oi Julie, obrigado por ler a coluna. O filme é ótimo mesmo, a foto é arte do Fernando mesmo!

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