Coluna Nemo: Frankenstein, a Criadora e a Criatura

Com apenas 17 anos, Mary Shelley escreveu uma das obras mais influentes da literatura e uma das bases da ficção científica

Por Sidemar de Castro

Este começo de ano completou mais de dois séculos uma das criações mais importantes e talvez subestimadas da literatura mundial – Frankenstein ou O Moderno Prometeu, que foi escrita por uma igualmente pouco valorizada escritora, Mary Wollstonecraft Shelley. É um feito e tanto que uma garota de 17 anos, fugida de casa com um homem mais velho e casado, o poeta Percy Shelley, tenha escrito o livro de terror gótico que lançou uma das bases da literatura de ficção científica – ela é considerada a ‘avó’ do gênero, enquanto a paternidade é dividida entre o inglês H. G. Wells (A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo) e o francês Jules Verne (Da Terra à Lua, 20 mil Léguas Submarinas). Tecnicamente, Mary imaginou o primeiro conceito do ‘androide’, ser artificial criado pela ciência, embora hoje sua história esteja muito mais ligada ao horror no imaginário popular. O fato de ser tão jovem e mulher numa época tão machista quando o período vitoriano possivelmente tenha influenciado no tamanho da consideração que seu nome teve na literatura, em boa parte também relegada como autora de um “gênero menor”, o terror ou a ficção científica.

Mary Shelley, nascida Mary Wollstonecraft Godwin, no retrato mais conhecido da escritora, pintado por Richard Rothwell e exposto na Royal Academy em 1840.

A história de como Mary teve a ideia da trágica criatura feita de pedaços de cadáveres, e que ganha vida através da força elétrica manipulada pela tecnologia e conhecimentos do cientista do título, o dr. Victor Frankenstein (sim, Frankenstein é o cientista, não o monstro) é por si só merecedora de um livro ou filme – o cineasta Ken Russell o fez: o longa Gothic, em 1986, com Natasha Richardson no papel da escritora.

Na vida real, após fugir com Percy Shelley e saber, mais tarde, que sua esposa havia cometido suicídio, abalado pela repercussão do caso, o casal foi passar uns tempos na casa do amigo e famoso poeta Lord Byron, à beira de um lago na Suíça, durante o verão mais frio daquele século.

O inverno vulcânico foi causado por uma sucessão de erupções que destruíram parte do Monte Tambora, na Indonésia, em 1815, sendo esta a maior erupção vulcânica em mais de 1600 anos, afetando o clima de praticamente o mundo todo. Foi durante aquele retiro sabático de conversas filosóficas, amor livre e isolamento social que surgiu a ideia de uma competição de histórias de terror entre eles, mais Claire, cunhada de Mary e o também escritor dr. Polidori.

Cada um escreveu uma história que procurava ser mais terrível que a outra, cabendo a primazia a Mary, com seu Frankenstein e a Polidori, com uma história de vampiro. Nasciam ali as bases de dois gêneros: o cientista louco e sua criação maldita e o vampiro, cuja história posteriormente publicada, influenciaria a escrita de Drácula, de Bram Stoker e Carmilla, de Sheridan LeFanu.

Frankenstein ou O Moderno Prometeu foi publicado anonimamente em janeiro de 1818 (ninguém levaria a sério o livro se soubesse que o autor era mulher e tão jovem), e aos poucos se tornou um grande sucesso.

Somente alguns anos depois sua identidade e versão definitiva do livro foram completamente revelados. Posteriormente, Frankenstein teve inúmeras versões cinematográficas, teatrais, musicais, em quadrinhos, musicais e jogos, entre outras mídias.

Como se trata de obra de domínio público, inúmeras versões foram reescritas ao longo dos anos, como Frankenstein Unbound, de Brian Aldiss, em 1973, em que um político do século XXI viaja no tempo até a Suíça do século XIX, onde encontra Frankenstein e Mary Shelley. Este livro foi base para o filme homônimo de 1990, dirigido por Roger Corman.

A criatura de Frankenstein, na interpretação e maquiagem clássica do ator Boris Karloff, no filme da Universal de 1931, que concebeu o visual mais conhecido do monstro.

Desde 1910, quando Thomas Edson filmou pela primeira vez o livro, o cinema criou a versão mais conhecida do monstro: brutal, mudo, assassino. Mas na história original de Mary, a criatura discutia com seu mestre e sabia ler. O dr. Victor Frankenstein, entretanto, ficou horrorizado com sua própria criação, que parecia ofender a própria criação divina do homem e desprezou o monstro sem nome.

Abandonado, o monstro perambula pelo mundo e sua coragem e vontade de ser amado é recebida com ódio e perseguição.

A criatura somente mata para se defender dos seus perseguidores. Finalmente, o ser feito de cadáveres parte em perseguição do próprio criador, numa metáfora do ser humano em busca de sua origem sempre envolto em tragédia, morte e sofrimento.

Filha de uma pioneira do feminismo, Mary Wollstonecraft e de um dos precursores do anarquismo, o filósofo William Godwin, Mary cresceu num ambiente frequentado por intelectuais, filósofos, inventores e pesquisadores. Costumava ler, geralmente diante do túmulo da mãe, os livros que ela escreveu pelos direitos das mulheres, principalmente a educação das meninas – algo que ainda continua atual, em muitos países, como nos mostra a jovem Malala no mundo muçulmano.

Embora ainda com uma forte carga mítica (o mito grego do fogo celeste roubado dos deuses e dado por Prometeu aos mortais, uma metáfora da ciência como pecado contra os ditames divinos) a história foi a primeira em que um cientista tenta criar vida a partir dos conhecimentos científicos de sua época, numa época em que se desconhecia a genética e os conceitos da evolução.

A eletricidade (o fogo dos céus) estava sendo capturada e produzida por cientistas e com ela, através de baterias, o italiano Galvani fazia mexer pernas de rãs decepadas, o que levou às pilhas de Volta.

O uso da eletricidade foi uma revolução nas ciências. Dali para usar o mesmo conceito e animar partes de cadáveres através da eletricidade, foi um passo que não poucos cientistas da época imaginaram como fazer. O dr. Frankenstein conseguiu, através da imaginação especulativa de uma garota muito culta de 17 anos.

“Eu vi o pálido estudante de artes profanas ajoelhado ao lado da coisa que ele tinha reunido. Eu vi o fantasma hediondo de um homem estendido e, em seguida, através do funcionamento de alguma força, mostrar sinais de vida, e se mexer com um espasmo vital. Terrível, extremamente assustador seria o efeito de qualquer esforço humano na simulação do estupendo mecanismo de Criador do Mundo.”

Mary Shelley

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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