“Cidade Invisível” e o folclore nacional na Netflix

Por Everton Nucci

Atenção, o Saci deixou alguns spoilers no texto a seguir.

O Brasil, certamente, é um grande produtor de conteúdo audiovisual, nossas novelas e músicas circulam o mundo, nosso cinema já arrebatou inúmeros prêmios em festivais por diversos países e chegou a concorrer ao Oscar. Isso sem falarmos de literatura e teatro. Uma coisa, entretanto, é inegável: ainda falta muito ao Brasil quando o assunto é fantasia.

O cinema de gênero, as séries e até mesmo as telenovelas menos calcadas na realidade até existem, mas não são o nosso carro chefe. Enquanto Hollywood fatura bilhões com seus super heróis, seus dinossauros e suas naves espaciais, o Brasil continua focado nos dramas, nos romances, nas favelas.

Fábio Lago como Curupira em Cidade Invisível da Netflix

Existem pontos fora da curva, como a trilogia de novelas da Rede Record: “Caminhos do Coração”, “Os mutantes” e “Promessas de Amor”. Os absurdos das novelas da Rede Globo “Saramandaia”, “Vamp” ou “Morde e Assopra”. E até a cinematografia de José Mojica Marins com sua personagem Zé do Caixão. Esses sucessos esporádicos podem demonstrar que obras de fantasia tem sim seu lugar ao sol nas produções nacionais e que não precisamos nos limitar a um único gênero de narrativa.

A ficção nacional já figurou na Netflix em obras como “3%”, “Onisciente”, “O escolhido”, “Espectros”. E agora com “Cidade Invisível” a plataforma traz o diretor Carlos Saldanha conhecido pelas animações  “A era do Gelo” e “Rio” para criar sua própria série em live action, o resultado dessa união foi o Top 1 no ranking nacional além figurar no Top 10 em cerca de 50 países.

A ideia da produção é tão óbvia que fica até difícil explicar o porquê de nunca ter sido realizada antes: Utilizar o enorme panteão de lendas existentes no folclore nacional para criar uma história rica, imersiva e cativante. O mais próximo que chegamos disso talvez tenha sido o infantil “O sítio do Pica-Pau amarelo” a diferença é que “Cidade Invisível” está muito mais próxima de produções como “American Gods” ou “Once Upon a Time”.

Na história acompanhamos a jornada de Eric (Marco Pigossi), um policial ambiental obcecado por investigar a misteriosa morte da esposa Gabriela (Julia Konrad), no percurso ele acaba se deparando com um mundo novo e desconhecido – um caminho sem volta – no qual as entidades do nosso folclore andam entre nós se passando por humanos. Um mundo assustador e perigoso para o qual ninguém está preparado.

Alessandra Negrini é a Cuca mais linda da TV brasileira e Marco Pigossi é policial ambiental protagonista da série “Cidade Invisível” da Netflix

Há muito cuidado na produção, talvez o maior exemplo seja a cena do canto da Iara (Jéssica Córes) o esmero na composição chega a ser cinematográfico. Tudo é delicadamente pensado: o cenário, a iluminação, a trilha sonora, o figurino. Cada detalhe foi inserido para tornar o momento deslumbrante: a luz do palco criando um ar etéreo, a blusa da atriz remetendo à escamas de peixe, o ressoar da música que preenche completamente o ambiente, a maneira como a cena vai paulatinamente desacelerando para simular a hipnose e a forma caótica como as cenas seguintes são montadas para demonstrar a confusão mental do policial, tudo coroado pelo ótimo efeito especial da sereia mergulhando.

Um dos pontos mais divertidos da série é buscar as referências e desvendar quem é quem no imbróglio. Quando vemos um homem (Victor Sparapane) usando chapéu o tempo todo e dando em cima de todas as mulheres que conseguir, é inevitável puxar nas memórias de infância qual das lendas do folclore nacional se enquadra na descrição. Assim como quando vemos um garoto preto de roupa vermelha e sem uma das pernas (Wesley Guimarães). Outras aparições não são tão óbvias, eu particularmente não lembro de já ter ouvido falar de Tutu Marambá (Jimmy London) ou de Corpo Seco (Eduardo Chagas).

Pode deixar que eu vou fazer o Everton se lembrar de mim.

Algo na produção que merece muitos elogios são as interpretações, principalmente do protagonista Eric e da antagonista Inês (Alessandra Negrini). A falta de familiaridade do Brasil com o universo da fantasia, muito comumente faz com que os atores envolvidos entreguem sua estranheza com o texto. Em outras palavras, as falas acabam parecendo decoradas e pouco críveis. Nessa série, na maior parte do tempo, vemos o oposto: muita naturalidade nas palavras, nos olhares e no comportamento do elenco.

“Cidade Invisível” despontou subitamente no Top 10 da Netflix e faz juz à fama, não é perfeito, mas tem ótima direção e atuações, bons efeitos – atenção para a cabeça flamejante do Curupira (Fábio Lago) – e certamente vale a maratona.

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O Saci roubou a foto do Everton que estava aqui.

Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e quando a mãe ia trabalhar e o pai ia pra roça ficava com medo da Cuca vir pegar

5 Comments

  1. Lorena Ferreira Soeiro disse:

    O Saci é troleiro mesmo

    .. Realmente a série não é perfeita mas, como vc disse, é super válido assistir, seja pela direção ( que melhora com. Atroca de direção no 4 episódio) seja pelas atuações e/ou pelos efeitos muito bons!!!

    • Everton Nucci disse:

      Olá Lorena, obrigado por ler a coluna. Sem dúvidas, mesmo com os defeitos, essa série vale muito a pena, estou recomendando pra todo mundo.

      • Will Nygma disse:

        Sim, é SENSACIONAL, mas ñ é nenhuma novidade q existem muitas outras produções brasileiras fantasiosas neste nível e até superior e com muitos efeitos especiais. Vide casos como MALASARTES E O DUELO COM A MORTE, REDENTOR, O CIRCO MÍSTICO entre tantas outras. Inclusive há uma outra série nacional também disponível no Netflix como O ESCOLHIDO.
        Acho q já passou a muito tempo da hora de pararmos com esse preconceito com produções nacionais. Existem muitas obras maravilhosas e artísticas como NINA, com alto padrão artístico e muito contemporâneo.

        PS: A cena do canto da Sereia Iara, é cantado uma canção dos Secos e Molhados de Ney Matogrosso, o q deixa tudo muito mais poético.

  2. Julie Any disse:

    É baseada na cultura brasileira, por isso muito válida. Adoro sua coluna, você nasceu pra brilhar ??

    • Everton Nucci disse:

      Olá Julie, obrigado por ler a coluna. Com certeza nossa cultura é muito rica e se depender só das lendas do nosso folclore dá pra fazer umas 10 temporadas dessa série.

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