Por Fernando Fontana

Série documental da Netflix mostra que a realidade pode ser muito mais estranha do que a ficção

Você já deve ter ouvido que a vida pode ser muito mais estranha do que a arte, e vez ou outra trombamos com alguma história tão absurda que nos faz acreditar nessa máxima, mas nada, absolutamente nada irá te preparar para o universo surreal de a Máfia dos Tigres (Tiger King: Murder, Mayhem and Madness, no original), série documental que estreou em 2020 na Netflix e que rapidamente se tornou um fenômeno, com mais de 30 milhões de visualizações em seus 10 primeiros dias no serviço de Streaming.

Eis uma informação interessante que a série nos entrega: há mais tigres em cativeiro nos Estados Unidos do que em liberdade na natureza ao redor do mundo.

Se os fatos apresentados fossem obra da mente de algum roteirista, a maioria das pessoas iria torcer o nariz e dizer que ele perdeu a mão e exagerou na insanidade, mas trata-se de um documentário, e ainda que não seja imparcial (nenhum documentário é de fato), as personagens e suas atitudes são reais.

A série acompanha Joseph Maldonado-Passage, mais conhecido como Joe Exótico ou Rei dos Tigres, proprietário e responsável por um zoológico com centenas de grandes felinos, tigres em sua grande maioria, na cidade de Wynnewood, no estado de Oklahoma, nos Estados Unidos, e sua mortal rivalidade com Carole Baskin, defensora dos direitos animais e proprietária de um santuário para animais resgatados, o Big Cat Rescue Corp.

Joe faz questão de fazer valer a palavra exótico por ele adotada, homossexual assumido, polígamo, casado com dois homens bem mais jovens, fanático por armas, “cantor” de música country, e candidato à presidência da República e posteriormente ao governo de Oklahoma, em seus vídeos ameaçava atirar na cabeça de Baskin ou enviar serpentes pelo correio, caso ela continuasse a tentar impedir que ele mantivesse a criação e o comércio de Tigres.

Carole Baskin e Joe Exótico, protagonistas da série “A Máfia dos Tigres” da Netflix

No começo do primeiro episódio já somos informados que Joe Exótico está preso e que será julgado por supostamente ter contratado um assassino de aluguel para matar Baskin. O que veremos a seguir é o desenrolar dos fatos que levaram à prisão, a vida de Joe, Baskin e diversos outros envolvidos com ambos, como os funcionários do zoológico, o produtor que queria gravar um reality show com Joe, e outros criadores de tigres, como “Doc” Antle.

Aliás, “Doc” Antle, que segundo o próprio Joe funcionou como seu mentor, merecia uma série a parte só para ele. O proprietário de um refúgio para a vida selvagem em Myrtle Beach, chamado de Doc Antle’s Myrtle Beach Safari, dirige sua propriedade como se fosse uma seita religiosa, onde ele é uma espécie de guia espiritual ou Bhagavan. Com diversas esposas, ele modifica seus nomes, as utiliza como funcionárias da reserva, morando dentro dela, trabalhando sete dias por semana, sem descanso, a não ser quando fazem cirurgia para colocar silicone nos seios, algo incentivado. As chances de que uma série assim surja algum dia são, no entanto, pequenas, já que Antle não gostou da forma como foi retratado na série, algo bastante comum entre vários dos participantes.

Baskin, por exemplo, tem bons motivos para não gostar do que viu, afinal, a série faz questão de enfatizar que ela foi suspeita de ter assassinado o seu ex-marido, o multimilionário Don Lewis, desaparecido em 1997, com diversos depoimentos de pessoas que acreditam seriamente na hipótese de que a ativista o teria matado e dado de comer para os Tigres de sua reserva. Além disso, sua devoção aos animais é bastante questionada.

Doc Antle, com três de seus tigres e suas três esposas

E se tudo isso não for o suficiente, creia em mim, ainda há outros personagens incrivelmente excêntricos, para falar o mínimo, e situações que vão fazer você pausar a imagem e tentar compreender o que acabou de ver ou ouvir.

Talvez a suprema ironia seja o fato de que Joe tenha buscado a fama a todo custo, e quando finalmente a conseguiu, não pode desfrutá-la como gostaria.

Os sete episódios de “A Máfia dos Tigres”, assim como um extra onde o apresentador Joel McHale conversa com diversos participantes da série (a distância, online, por conta da epidemia) para saber o que acharam e como tem sido a vida após o documentário, estão disponíveis na Netflix.

______________________________________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *