Crônicas de Gotham City: A Face Riscada

Por Fernando Fontana

O Sol ainda não havia se posto quando Susie terminou de limpar as mesas e retirou o avental sujo; após muitas xícaras de café, especiais da casa e pedaços de torta servidas, ela finalmente dava por encerrado o seu turno no restaurante. O dia não chegara a ser ruim, gorjetas razoáveis e nenhum idiota achando que poderia se dar bem com a garçonete já era lucro.

Com apenas 22 anos, longos cabelos castanho escuros, atraente e com lábios carnudos adornados com batom vermelho rubi, despertava a volúpia de muitos homens, em especial dos casados, que por alguma razão, acreditavam poder tocá-la sem autorização, fato que, em mais de uma ocasião havia terminado em violenta discussão. Felizmente, Lou, o proprietário, homem de poucas palavras, era policial aposentado, admirador de Jim Gordon e não tolerava comportamento inadequado por parte de seus clientes, expulsando-os sempre que os limites eram ultrapassados.

Normalmente Susie seguiria dali para o apartamento minúsculo que dividia com o namorado no Narrows, tomaria uma ducha rápida, comeria um lanche, e partiria para suas aulas de psicologia na Universidade de Gotham, mas ainda faltavam duas semanas para o fim das férias e o início do último ano.

– Até amanhã, Karen – ela disse para a amiga, colega de trabalho e de classe, que terminava de levar o lixo da lanchonete para fora.

– Até, Susie, vê se não esquece de me trazer o livro que eu te pedi.

– O Fascínio pelo Morcego, pode deixar que eu não esqueço. Tem certeza de que você quer mesmo fazer seu trabalho sobre os internos do Arkham? Um monte de gente já falou sobre esse assunto, está esgotado.

– Justamente – respondeu Karen – material para pesquisa é que não vai faltar. Olha, eu não preciso escrever nada inovador, ok? Só tirar nota com o professor Evans, aquele homem me odeia!

– Impressão sua, o Evans não é esse monstro todo que vocês pintam.

– É fácil falar quando se é a queridinha do professor. Aposto que ele tem sonhos molhados com você enquanto está debaixo das cobertas, sussurrando seu nome durante a noite, oh, Susie, como eu te amo – Karen estalou os lábios diversas vezes simulando beijos – Susie, eu te quero.

– Você não tem jeito, acho que precisa ser internada também – Susie despediu-se e tomou o rumo da estação de metrô mais próxima, localizada a apenas dois quarteirões da lanchonete.

– Sua vida seria um tédio sem mim, reconheça – Karen gritou pouco antes de entrar novamente na lanchonete.

Não era de se admirar que o assunto preferido dos estudantes de psicologia de Gotham City fossem os vilões fantasiados, eles eram um prato cheio, uma coleção infindável de distúrbios mentais, e incluíam até mesmo uma psiquiatra, a famosa Dra. Harleen Frances Quinzel, vulga Arlequina, e o renomado Dr. Jonathan Crane, psicólogo e especialista na natureza do medo, outrora professor da Universidade, atualmente um dos internos do Arkham, conhecido como Espantalho.

Brincadeira recorrente nos corredores diz que se você pretende se transformar em inimigo do Morcego, o caminho mais rápido é se matricular na universidade de Gotham e conseguir um doutorado.

O próprio Batman dificilmente poderia ser considerado modelo de sanidade, já que pessoas equilibradas não tem o hábito de vestir uma fantasia de Morcego e sair pela noite afora caçando e espancando criminosos.

Susie ainda não tinha certeza, mas queria seguir caminho diferente, escrevendo um trabalho sobre a visão que os ricos e poderosos de Gotham tinham sobre a eficácia das atividades dos vigilantes mascarados em uma cidade com uma desigualdade social tão brutal. Com notável exceção de Bruce Wayne e das indústrias por ele comandadas, a maioria dos milionários vivia isolada em suas mansões de luxo em Bristol Hills, sem mover um dedo para melhorar as condições do povo.

Faltando poucos passos para chegar na estação de metrô, ela foi removida de seus pensamentos pelo barulho de uma sirene e de pneus cantando. Um carro vermelho em alta velocidade acabava de virar a esquina, imediatamente seguido de perto por uma viatura de polícia. Por puro instinto, para se proteger de eventuais disparos, Susie se jogou atrás de um táxi que estava estacionado próximo dela.

Outros transeuntes também se jogaram no chão ou procuraram abrigo, os carros passaram, não houve tiros, mas ela escutou um objeto metálico colidindo com o capô do táxi que lhe servia de proteção, para logo depois cair na calçada bem na sua frente; era uma moeda, um dólar de prata para ser mais exato, que girou por alguns instantes até parar bem diante dos seus olhos.

Susie esticou o braço e a pegou, lentamente se levantou, o perigo parecia já ter passado, observou a moeda, não era comum, de um lado via-se a face da dama da liberdade, e do outro, ao invés de seu valor e da tradicional águia, havia outra face idêntica, mas riscada.

**********

– Axel, cheguei, está em casa? – Susie anunciou assim que colocou os pés no apartamento.

– Ei, gata, acabei de chegar também, comprei comida chinesa pra nós – Axel respondeu da cozinha, enquanto tirava as caixas com frango xadrez e rolinhos primavera da sacola. Era dois anos mais velho que Susie, trabalhava com programação de computadores, e adotara o estilo de se vestir de seu ídolo, Steve Jobs, quase sempre com uma camiseta manga longa preta, calça jeans e tênis New Balance. Não é só copiar o Jobs – ele insistia – isso poupa trabalho, eu não preciso ficar pensando em que roupa colocar.

As poucas cores em seu guarda-roupa eram graças única e exclusivamente a insistência de sua namorada.

– Você não vai acreditar no que aconteceu comigo hoje – Susie disse se jogando no sofá.

– Bom ou ruim?

– Ruim, eu acho.

– O que aconteceu? – Axel entregou a pequena caixa com frango xadrez para Susie, e sentou-se ao seu lado, pronto para devorar o seu.

– Eu vi uma perseguição policial, um carro vermelho fugindo de uma viatura.

– Uau, você está bem?

– Estou, não aconteceu nada, eles só passaram correndo, mas um dos caras no carro vermelho, pelo menos eu acho que foi dali que veio, jogou essa moeda na minha direção e eu peguei – Susie retirou do bolso o dólar de prata e o entregou para Axel – toma, dá uma olhada.

– Espera um pouco – Axel disse olhando para a moeda bem de perto, já que estava sem seus óculos – você sabe o que é isso?

– Sei, claro que sei, é uma cópia da moeda do Harvey Dent, não é?

– Do Duas Caras, você quer dizer.

– Na faculdade nós aprendemos que…

– Eu sei, eu sei, que é importante chamar eles pelo nome verdadeiro, não precisa explicar de novo, só estava querendo te irritar, mas por que você acha que é uma cópia?

– Porque todo mundo sabe que a verdadeira está muito bem trancada no Arkham. Dent é obcecado com a dualidade, sem a moeda ele não consegue tomar decisões. Lembra que eu te contei sobre o tratamento da dra. Adams?

– Putz, lembro, o lance de trocar a moeda por um dado de seis lados, e depois pelas cartas de tarô para aumentar o número de opções. Ele ficou tão confuso que não conseguia nem ir ao banheiro, mijava nas calças, muito bizarro.

– Isso, então essa moeda aí é uma cópia, bem feita eu acho, mas uma cópia.

– Por um momento eu achei que tínhamos algo de valor aqui – Axel jogou a moeda sobre a mesinha de centro e se levantou – vou pegar uma cerveja para mim, você quer uma?

– Não, estou morrendo de sono, se beber algo eu apago – respondeu Susie – e então, vamos colocar em prática o plano de começar a assistir aos clássicos?

– Você acha que consegue assistir sem dormir?

– Eu posso tentar, sem garantias, que filme você escolheu?

– O Poderoso Chefão, clássico dos clássicos.

– Uh, sempre me falam desse filme e eu nunca vi. Acho que dá para vencer o cansaço, bora lá assistir.

Vinte minutos depois do longa começar, Susie dormia profundamente no sofá, não era culpa de Axel, do cansaço, tão pouco de Coppola ou Marlon Brando, de cada três filmes assistidos em casa, dois ela não via até o fim, ou então perdia boa parte, acordava nos minutos finais e ficava perdida.

Susie acordou com Axel a chamando em tom desesperado – Susie, acorda, Susie – ela abriu os olhos, a imagem da TV estava congelada em um close de Al Pacino.

– Droga, foi mal, não consegui ficar acordada.

– Esquece o filme, olha isso aqui – Axel virou a tela do notebook que estava sobre a mesinha de centro para que Susie pudesse ler o título de uma matéria: “Enfermeiro agride internos e funcionários do Arkham, rouba carro e é preso após perseguição nas ruas de Gotham”.

– Não é possível, quando foi isso?

– Quando? Foi hoje, e dá só uma olhada – Axel desceu a página até a foto de um carro vermelho com a frente destruída após ter colidido com um poste – é esse o carro que você viu antes de jogarem a moeda?

– Não consegui ver direito, mas acho que é, foi a polícia que prendeu ele?

– Desde quando a polícia de Gotham prende alguém? Foi a Caçadora! O cara fez o diabo no Arkham para acabar preso por uma mulher.

– Credo, Axel, que comentário machista!

– Isso não é importante, você sabe o que quer dizer? – Axel mostrou a moeda riscada para Susie.

– A moeda, ela é…

– A verdadeira, só pode ser.

– Bom, não dá para ter certeza ainda, ou dá? – Perguntou Susie pegando a moeda das mãos de Axel e a observando a face riscada de perto.

– Seria coincidência demais, não seria? Não, essa não é uma cópia barata, é a moeda que o Duas Caras joga no ar antes de decidir se alguém deve viver ou morrer.

– A gente tem que levar ela para a polícia.

– Calma, para que a pressa? Você sabia que existe um mercado para coisas desse tipo?

– Você não está falando sério, está? Quer vender a moeda?

– Eu tenho um amigo, ele trabalha em uma loja de penhores, você sabe, compra, vende, penhora objetos por uma grana, e ele me disse uma vez que tem gente que paga uma grana preta por objetos utilizados por vilões. Um dos bilhetes que o Charada deixou, o chapéu do Espantalho, a flor que espirra ácido do Coringa, aqui, olha só – Axel digitou alguma coisa no teclado do notebook – isso é quanto pagaram por um dos guarda-chuvas do Pinguim, e estamos falando de um guarda-chuva entre muitos que ele usou, essa moeda, ela é única.

– Uau, então você acha que ela vale mais?

– Muito mais, Susie, teve um milionário que pagou o valor de uma Ferrari por um dos trajes de couro preto que a Mulher Gato vestiu.

– Eu não sei, Axel, essa gente, o Dent é perigoso, é melhor não mexer com ele.

– Mexer com ele? Quem está falando em mexer com ele? O Dent jamais vai saber que a moeda passou pelas nossas mãos. Nós vamos até esse meu amigo, a gente vê quanto ele está disposto a pagar por ela, vende, pega o dinheiro, pede para não ser identificado e se manda para outra cidade.

– Outra cidade? Não, e a minha faculdade, Axel? Falta um ano para eu me formar.

– Pede transferência para Metrópolis, por que não? Uma mudança de ares nos faria bem, além disso, o mercado de trabalho por lá está mais aquecido do que aqui em Gotham, certeza que consigo ganhar mais do que a miséria que me pagam. Pensa, você pode largar o emprego de garçonete, se formar, com a grana eu começo um negócio por conta própria e você abre um consultório.

– Parece um sonho.

– Que pode se tornar realidade – respondeu Axel – é só a gente aproveitar a chance que o destino está nos dando.

– Harvey não acreditava em destino – Susie falou logo após colocar a moeda sobre a mesa.

– Como assim?

– Essa moeda, ele a possuía desde a época em que era promotor, mas as duas faces eram idênticas e sem riscos. Ele apostava com alguém, sempre escolhia cara, e sempre ganhava. Dizia que ele fazia sua própria sorte.

– Bom, o sr. Dent pode até não saber, mas vai dar muita sorte para nós dois – disse Axel, pegando o controle, desligando a TV, abraçando e beijando Susie.

**********

– Deixa eu ver se eu entendi direito, Axel, você me fez ficar na loja depois do expediente, disse que tinha um objeto de valor inestimável para me mostrar, e me aparece aqui com essa cópia barata da moeda do Duas Caras. Tem ideia de quantas dessas eu já vi? – Perguntou Sam, um dos sócios proprietários da Loja de Penhores Gárgula Dourado, que administrava junto com seu pai, Wilson. Vestindo calça jeans e a camiseta preta com o logo dourado da loja, bem acima do peso e com uma barba espessa que se recusava a remover, ele ainda não havia chegado aos 40 anos e já tinha ganho a confiança do pai e do avô, recentemente falecido, por ter faro para bons negócios e não comprar gato por lebre.

– Essa é diferente, é a verdadeira – respondeu Axel.

– Não vou negar que seja bem feita, ela é – Sam olhou a moeda – mas a verdadeira está no Arkham, todo mundo sabe disso.

– Estava – disse Susie que estava bem ao lado de Axel – não mais.

– E onde foi que vocês a conseguiram?

– Não podemos dizer, vai ter que confiar em nós, Sam – falou Axel – mas se for legítima vale uma boa grana, não é mesmo?

– Vale, está certo, vocês vão me fazer passar uma baita vergonha, mas tudo bem, eu vou ligar para um especialista e pedir para ele dar uma passadinha aqui e olhar a sua moeda.

– Especialista? Não, quanto menos gente souber disso tudo, melhor – disse Axel.

– Olha, não vai dar pra fechar negócio se eu não souber que essa é mesmo a moeda verdadeira, então, ou você aceita que o especialista a veja, ou nada feito.

– Quem é esse especialista? – Perguntou Susie.

– Bill Edwards, sabe tudo sobre itens que foram utilizados por vilões e não só dos que ficam aqui em Gotham. Semana passada eu precisei dele para verificar a autenticidade de um bumerangue que foi utilizado pelo Capitão Bumerangue em um assalto em Central City.

– O Capitão Bumerangue é um zé ninguém, e tem o que, mil bumerangues? Não, essa moeda é um item único.

– Com certeza não vou discordar, mas e então, chamo ou não chamo o especialista?

– Certo – disse Axel – manda ver, chama seu especialista, nós vamos esperar bem aqui.

Sam fez uma ligação e passados não mais do que 30 minutos, uma figura exótica adentrou a loja, com cabelos grisalhos, vestia cartola e terno roxo sobre uma camisa verde escura com enorme mancha de mostarda no colarinho. Carregava uma valise prata na mão direita e uma bengala com uma cabeça de morcego prateada com olhos rubi na ponta.

– Veio rápido – disse Sam. – O mais rápido que eu pude, ainda que possa afirmar com certo grau de certeza que você, meu caro, não esteja com a moeda verdadeira em mãos – Edwards falava com forte sotaque britânico, embora tivesse nascido na Ilha Norte de Gotham e passado apenas três meses em Londres, período no qual passou a maior parte do tempo embriagado. Sua fixação por homens insanos com trajes coloridos acabou por transforma-lo também em uma personagem única.

– Ei, alguém já lhe disse que você lembra o Willy Wonka? – Perguntou Axel.

– Mais de uma vez, meu bom rapaz, essa moeda no balcão é a razão para eu estar aqui?

– Ela mesma, Bill, eles juram de pés juntos que é verdadeira.

– Bom, não duvidando da palavra da dama e do cavalheiro – Bill colocou a valise sobre o balcão e a abriu, retirando uma fotografia e uma lupa – mas Harvey Dent e essa moeda não se separam e Dent está no Arkham, então acho muito difícil que seja de fato o objeto em questão.

– Bom, nós queremos que dê uma olhada mesmo assim – disse Susie.

– Certamente, essa, como vocês podem facilmente notar, é uma imagem da moeda do Duas Caras, tanto da face normal, quanto da riscada, que é a que nos interessa. Os riscos presentes na sua moeda são de fato muito semelhantes, eu diria que idênticos a original, porém, isso não quer dizer muita coisa, quase todas as imitações, com exceção das muito grosseiras, são assim. São os elementos com os quais os falsificadores não se atentam que nos revelam a natureza deste objeto – Bill pegou a lupa e observou a moeda bem de perto – como pequenas imperfeições no canto dela, ou a profundidade dos riscos que…

Bill parou de falar por um instante e olhou para Sam com olhar espantado.

– Bill, algum problema?

– Não, é só que – olhou mais uma vez para a moeda com a lupa e depois a colocou no balcão – desculpe, mas onde foi mesmo que vocês disseram que a conseguiram?

– Nós não dissemos, e então, é verdadeira, não é? – Perguntou Axel.

– Sam, eu posso fazer uma ligação?

– Claro, no escritório, você sabe o caminho.

– Ei, você não respondeu minha pergunta, é verdadeira ou não? – insistiu Axel.

– Só um minuto, eu só preciso de um minuto – disse Bill passando para o lado de dentro do balcão da loja e se encaminhando para o escritório.

– Ele viu alguma coisa na moeda, ele sabe que é verdadeira – disse Susie.

– Também acho, mas para quem ele vai ligar? Isso não está me cheirando bem, Sam, ele pode estar querendo nos ferrar – disse Axel.

– Ei, manera com paranoia, tá legal? Eu conheço o Bill, ele é amigo do meu pai e é de confiança, se ele está indo fazer uma ligação é porque precisa confirmar alguma coisa.

Bill retornou após cinco minutos e parou mudo na frente dos três.

– E então, é ou não é verdadeira? – Persistiu Axel.

– Anda, Bill, desembucha – disse Sam.

– Eu falei com um contato meu no Arkham, a moeda de Dent, ela foi roubada, logo não tenho dúvidas de que essa é a verdadeira – o sotaque inglês do especialista havia desaparecido subitamente.

– É isso aí! Eu te disse, não disse? – Axel abraçou Susie e a beijou – e quanto ela vale?

– Acredito que uma estimativa razoável, caso seja vendida para a pessoa certa, seja de aproximadamente um milhão de dólares.

– Você acabou de dizer um milhão de dólares? – Perguntou Axel.

– Oh, meu Deus, Axel, eu não consigo acreditar! – Exclamou Susie sem conter a alegria.

– O único problema é que não é tão simples assim achar a pessoa certa – disse Bill – essa moeda é que nós costumamos chamar de item amaldiçoado.

– O que? Que história é essa de item amaldiçoado? – perguntou Axel.

– Alguns itens, como a cartola do Pinguim ou o taco de baseball que a Arlequina usou em uma luta contra o Morcego, eles valem um bom dinheiro e, ao mesmo tempo, são inofensivos, porque eles não se importam. Para a Arlequina um taco de baseball é só isso, sem valor sentimental. O boneco do Scarface ou a moeda do Duas Caras são casos bem diferentes, os seus respectivos donos farão tudo para reavê-los e provavelmente vão matar muita gente pelo caminho.

– Está me dizendo que nós deveríamos simplesmente desistir de um milhão de dólares, é isso? – Axel perguntou aparentando irritação.

– Não, estou dizendo que toda a negociação precisa ser feita por debaixo dos panos, você vai precisar de um intermediário de confiança e de um comprador que aceite comprar nessas condições.

– E aposto que você seria esse intermediário – afirmou Axel.

– Eu sei de algumas pessoas que podem querer a sua moeda, mas o Sam vai ter que realizar a venda, passando pela loja como se fosse outro item qualquer e transformando o seu pagamento em dinheiro legítimo, que vocês possam gastar sem maiores problemas.

– Você está falando em lavar o dinheiro? – Perguntou Susie.

– Ele está falando – disse Sam – em tirar essa moeda de vocês e substitui-la por várias notas de cem dólares.

– E quanto isso vai nos custar? – Perguntou Axel.

– 30% para mim, 20% para o Bill – respondeu Sam.

– Metade? Vocês querem metade de tudo o que vamos ganhar? Ficou maluco?

– Isso ainda deixa vocês com meio milhão de dólares, por algo que eu não sei como foi parar nas suas mãos, mas que eu suspeito que foi por pura sorte. Bill vai achar alguém louco o suficiente para pagar essa fortuna pela moeda e eu vou garantir que ninguém saiba o que vocês venderam. É isso, ou você pode tentar a sorte aí fora, correndo o risco de o Dent achar vocês quando escapar do Arkham, o que cedo ou tarde vai acontecer.

– Mais cedo do que vocês pensam, eu esqueci de dizer – disse Bill – na ligação que eu fiz agora há pouco para o meu amigo, ele me disse que Harvey Dent fugiu do Asilo.

**********

Susie olhava pela janela do apartamento, lá fora, o vento soprava forte enquanto o céu era iluminado pelo clarão de relâmpagos. Axel estava sentado no sofá, em uma mão segurava uma caneca de porcelana estampada com o rosto de Darth Vader, na outra a moeda com a face riscada.

O som de um trovão fez com que Susie estremecesse – Droga – ela disse – odeio esse tempo.

– Com sorte a ventania vai levar as nuvens carregadas para longe – ele respondeu sem tirar os olhos da moeda – tem certeza de que não quer café? Está do jeito que você gosta, forte e doce.

– Já fazem três dias, Axel, três dias e nem uma ligação do seu amigo, até quando vamos ter que esperar?

– Eu já disse que você tem que ficar calma, essas coisas não são simples de se resolver.

– Calma, Axel? Eu não saio de casa e não durmo direito há três dias, trancada aqui dentro com medo de que aquele homem terrível venha nos matar por conta dessa maldita moeda.

– Essa maldita moeda vai nos render meio milhão de dólares, Susie, além disso, como ele iria nos achar? – perguntou colocando a moeda no bolso de sua bermuda.

– Eu não sei, Axel, não sei, só queria poder me livrar dessa coisa o quanto antes e cair fora de Gotham. Eu disse no serviço que estou gripada, mas logo o Lou vai desconfiar.

– Vai dar tudo certo, eu juro que vai, é só ter um pouco de paciência, vamos, senta aqui do meu lado, vamos assistir um filme, que tal? – Mal Axel terminou de perguntar e a luz de todo o apartamento apagou.

– Axel, o que foi isso? – Susie perguntou aterrorizada.

– Se acalma, a energia deve ter sido cortada por causa da tempestade, ou pode ser algum fusível, vou dar uma olhada, onde nós guardamos a lanterna?

– Na gaveta, no armário da cozinha, eu acho, mas não me deixa aqui sozinha, eu vou com você.

Susie deu dois passos na direção de Axel quando um relâmpago seguido pelo barulho do trovão, iluminou a sala e a figura de um homem vestido com roupa de morcego, parado bem em frente à janela, as cortinas e sua capa balançavam graças ao vento que vinha do lado de fora.

– MEU DEUS! – Susie gritou ao mesmo tempo em que caiu no chão.

– BATMAN? – Axel registou o óbvio também gritando.

– Acalmem-se – sem mover um músculo o Morcego falou com voz gutural – não vim lhes fazer mal, preciso que vocês me entreguem a moeda.

– A mo…mo…moeda, que, moeda? – Gaguejou Axel enquanto ajudava Susie a se levantar.

– Não subestime a minha inteligência, a moeda do Duas Caras que está com vocês. Harvey Dent sequestrou quadrigêmeos e está mantendo-os como reféns, ele exige a moeda para libertá-los. Posso resgatá-los, mas a moeda é um trunfo do qual não posso abrir mão.

– Mas e se…e se eu te disser que não temos moeda alguma? – Perguntou Axel ainda sem conseguir disfarçar o nervosismo.

– Axel – disse Susie baixinho, agarrada a ele.

– Não, quieta, Susie, ele é um herói, não é? Vai fazer o que? Revirar a casa, nos revistar a força?

– Conversei com o enfermeiro que roubou a moeda do Arkham, não precisei de mais do que um minuto para que ele dissesse onde a jogou para fora do carro. O táxi onde você procurou abrigo, senhorita Baker – era o sobrenome de Susie – fica em frente a uma cafeteria, que por sua vez possui uma câmera de segurança em seu exterior, não foi difícil ter acesso às imagens e ao seu rosto.

– Axel, entrega a moeda para ele.

– Não, não, eu não vou entregar, ela é nossa, vale uma fortuna. Ele não pode simplesmente pegar outra moeda e riscá-la?

– Está mesmo procurando lógica em um homem cujas ações são guiadas por uma moeda? Eu não vou força-los a nada, mas vocês estão dispostos a carregar a culpa caso Dent mate as quatro crianças?

– Axel, entregue a maldita moeda para ele. Ela é minha, eu a achei, e não tem dinheiro no mundo que valha esse pesadelo.

– Não acredito, meio milhão de dólares – disse Axel retirando a moeda e a atirando para o Morcego – é isso que acabamos de perder.

– É o certo, meu amor, é o certo – Susie abraçou Axel, e por um breve instante não olharam para onde o Morcego estava, quando outro relâmpago iluminou o local, ele não estava mais lá.

**********

No dia seguinte, pela manhã, Susie ligou para o trabalho dizendo que já estava melhor da gripe e que retornaria depois do almoço, ela e Axel assistiam as notícias no telejornal matutino.

– E na noite passada – disse o âncora – o Homem Morcego resgatou os gêmeos Parker, filhos de Anthony Parker, proprietário da Rede de lojas de brinquedos “Brincando e Aprendendo”. Os meninos haviam sido sequestrados por Harvey Dent, ex promotor, atualmente conhecido como Duas Caras, que exigia de volta sua moeda, roubada por Jackson Harris, enfermeiro do Arkham, que se encontra aguardando julgamento em Blackgate. Dent foi preso e encaminhado novamente para o Asilo.

– Pelo menos as crianças estão bem, ninguém saiu ferido – disse Susie.

– Tomara que isso sirva de consolo quando eu ligar para o Sam e disser que não temos mais a moeda e que tudo o que ele e Bill fizeram foi à toa – respondeu Axel.

– Eu não conseguiria suportar a ideia de que alguém iria se ferir por nossa causa, além disso, se o Batman nos achou, por que acha que Harvey Dent também não conseguiria o mesmo algum dia?

– Eu não acho nada, Susie, não acho nada.

– Não fica emburrado, vai, dá um sorriso para mim. Você sabe que eu acredito que o universo sempre dá um jeito de recompensar as boas ações.

– Sim, claro, o universo vai jogar meio milhão de dólares pela nossa janela – ironizou Axel.

O telefone tocou.

– Quem será a essa hora? – perguntou Susie.

– Não sei, o universo talvez.

– Bobo – Susie esticou o braço e atendeu o telefone – alô…sim, sou eu mesma, Susie Baker, do que se trata?…Como?…Não, claro que estou interessada, a que horas devo estar aí?…Pode deixar, amanhã, nove da manhã em ponto, não vou me atrasar.

– Quem era? – Axel perguntou assim que Susie desligou o telefone.

– Era das Indústrias Wayne, disseram que olharam diversos perfis entre os alunos da Universidade e escolheram alguns para começar um estágio com eles.

– E você foi escolhida? – Axel abriu um sorriso pela primeira vez desde que Batman pisou no apartamento no dia anterior.

– Eu fui uma das escolhidas, não é maravilhoso? E então, acredita ou não acredita em destino agora?

**********

Em uma cela dentro do Asilo Arkham, Harvey Dent jogou sua moeda para o alto e depois a segurou na palma da mão, observando a face limpa para cima, ele sorriu, seria um dia tranquilo.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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