“Todos os Meus Amigos Estão Mortos” sintetiza o efeito dominó na sociedade!

Por Will Nygma

Um dos assuntos que ainda gera polêmica em nosso pais é o porte legal de armas para cidadãos comuns. Infelizmente, nós, um país civilizado porém extremamente violento, preconceituoso e intolerante, não estamos aptos para tamanha responsabilidade e o efeito dominó que isso pode gerar. Não que sejamos o único, como o exemplo claro neste filme polonês que usa de todos os artifícios cinematográficos para centralizar diversos problemas sociais, paradigmas e situações corriqueiras em qualquer país, colocando diversas pessoas dentro de uma casa em uma simples festa de ano novo, onde acontece de tudo que geralmente acontece em festas quando juntam jovens, cada qual com suas histórias, traumas, lamúrias, desejos, felicidades, tristezas, segredos, certezas e incertezas. Enfim, seres humanos e seres sem humanidade ou empatia pelo próximo. Infelizmente a humanidade é egoísta e situações variadas podem fazer qualquer um chegar ao seu limite e explodir com tamanha pressão que pode surgir de todos os lados.

É neste cenário que o diretor de maneira brilhante e com certa inspiração de Quentin Tarantino, prende a atenção do expectador com diversos personagens aparentemente simples, mas com certa complexidade, conduzidos por muita dramaticidade e aprofundamento de causas e personalidade, regados a muito sexo, drogas e rock and roll. Coadjuvantes que se tornam protagonistas, que se tornam antagonistas e todos os maniqueísmos possíveis são colocados à prova sendo destruídos  sem precisar seguir o óbvio.

Aqui não existe personagem principal, vilão contra mocinho, bem contra o mal, tudo se transforma, pois todos nós somos um pouco de tudo. Tudo isso se deve ao brilhantismo de um roteiro muito bem pontuado, sem tomar partido, escrito para nos colocar na condição de investigador, já que logo no início do filme, nos jogam na situação que o título sugere, ou seja, todos na festa estão mortos e aparentemente em um cenário tão absurdo que fica difícil definir o que de fato aconteceu ali. Mas aos poucos vamos conhecendo os personagens e o que supostamente aconteceu no local. O roteiro de forma brilhante, nos dá um desfecho tão genial e poético que ainda nos faz questionar e ficar pensando em quais mensagens mais o filme quer passar.

Nisso o filme criado, escrito e dirigido por Jan Belcl acerta, envoltos por sua direção perspicaz, atores jovens e até convincentes, uma trilha sonora maravilhosa e uma edição bem ágil em um divertido, porém alarmante filme que nos faz refletir seriamente no que uma simples arma de fogo, que muitos acham tão banal, pode desencadear em uma sociedade quando nas mãos de pessoas boas, ingênuas, bem intencionadas e/ou que não fazem ideia do seu poder de destruição, ou até fazem, mas que não tem o menor preparo ou discernimento de seus atos, principalmente com seus nervos a flor da pele ou pela nossa estupenda e arrogante ignorância e prepotência.

O filme pode parecer exagerado e com as atuações e situações bem extremas, onde tudo da errado, fazendo até parecer banal, mas o assunto hoje é tratado com banalidade; nesta proporção em altas doses que mora a maior crítica que o filme faz, é proposital, além de que ele não assume um gênero específico, passeia pela comédia, drama, thriller e apesar de todo mistério, não chega a ser um suspense ou um filme propriamente policial, mas faz o expectador o tempo todo se questionar o que aconteceu ali, ou tentar descobrir o que desencadeou todas as mortes, não assumindo nenhum lado, apenas joga o expectador dentro de um ambiente onde tudo pode acontecer. E acontece.

“Todos os meus amigos estão mortos” já está disponível no Netflix.

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Will Nygma é Ator, cantor, performer, roteirista e diretor de teatro e cinema. Formado em Produção Audiovisual e Teatro, estudou letras, música e crítica de cinema. Nerd convicto, cosplay vencedor por 6 anos consecutivos na CCXP, também é um ávido colecionador de filmes e action figures e criador dos filmes dos Maníacos De Arkham, além de especialista no universo do Batman e em fazer imitações de cantores, personagens de desenhos animados e dos professores na época de escola.

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