Nostalgia não salva continuação de comédia clássica de Eddie Murphy

Por Fernando Fontana

Apostar na nostalgia pode ser um tiro certeiro quando as pessoas envolvidas sabem o que estão fazendo e respeitam a obra original, como testemunhamos em séries de sucesso como “Cobra Kai” e “Mandaloriano”, mas pode se converter em uma verdadeira catástrofe quando a essência é abandonada e o que resta é apenas um caça níqueis.

Um Príncipe em Nova York (1988) é, ao lado de “Um Tira da Pesada” (1987), um dos dois filmes pelos quais o astro Eddie Murphy normalmente é lembrado, quando, no auge de sua carreira, ainda era capaz de levar grande audiência para as salas de cinema.

Comédia que contou com um bom roteiro, refinado pelo humor ácido do diretor John Landis (Irmãos Cara de Pau, Trocando as Bolas, Um Lobisomem Americano em Londres), narrava as aventuras do Príncipe herdeiro da próspera nação de Zamunda, Akeem Joffer (Murphy), que parte para a América, junto de seu fiel escudeiro, Semmi (Arsenio Hall), onde pretende encontrar sua futura rainha, uma mulher que o ame por quem ele é e não pelo seu título ou sua riqueza.

Murphy e Hall dominam a cena, o príncipe Akeem mistura imponência, ingenuidade e bondade, características que rapidamente cativam o público e o fazem torcer para que conquiste o coração da jovem Lisa (Shari Headley), ao mesmo tempo que o roteiro e Landis garantem alfinetadas nos que defendem o sonho americano e o trabalho duro em busca de prosperidade e fortuna, mas que se rendem ao dinheiro, venha ele de onde vier.

Eddie Murphy e Arsenio Hall em “Um Príncipe em Nova York” (1988)

Eis que estamos em 2021, e estreia na Amazon Prime Video, “Um Príncipe em Nova York 2”, dirigido por Craig Brewer, que em 2019 já havia trabalhado com Murphy no bom “Dolemite é meu Nome”, o que trazia esperança de pelo menos alguns momentos engraçados atrelados ao saudosismo dos fãs.

Passou longe disso! Dessa vez, Akeem deve retornar para a América, onde irá procurar por seu filho bastardo, Lavelle (Jermaine Fowler) , já que seu pai, o rei Jaffe Joffer (James Earl Jones) está prestes a falecer, e sem um herdeiro homem (Akeem teve três filhas com Lisa), o reino corre risco de invasão por parte do General Izzi (Wesley Snipes), governante da nação vizinha e histórica rival de Zamunda.

Aqui, “Um Príncipe em Nova York” encontra o seu primeiro grande problema, apesar do retorno dos personagens do primeiro longa, sua história gira principalmente em torno da tentativa do novo príncipe se mostrar digno do trono de Zamunda, e Lavelle não tem uma fração do carisma de Akeem. O roteiro não faz questão nenhuma de apresentar o personagem e fazer com que nos afeiçoemos a ele, a sequência em que Akeem busca pelo seu filho não dura mais do que 10 minutos, sendo solucionada rapidamente.

Temos então uma inversão, ao invés de Akeem inserido em uma cultura diferente da sua nos Estados Unidos, temos Lavelle, tentando compreender os costumes de Zamunda enquanto prova ser digno do trono.

Ao invés de Akeem nos Estados Unidos, temos o seu filho, Lavelle, em Zamunda

Outros problemas de “Um Príncipe em Nova York 2” estão em seu roteiro, que parece acreditar que a nostalgia lhe basta, e na ausência de um diretor como Landis. Com um material ruim em mãos, Brewer não se esforça para extrair alguma graça ou atuações melhores, passa desapercebido.

O roteiro lembra um monte de esquetes sem graça, entrelaçados com números musicais sem sentido e cenas literalmente retiradas do filme da década de 80, que no final, resultam em um longa arrastado, com situações e romances forçados, e que abandona a essência do original. Ótimo exemplo dessa perda de essência é a relação entre Akeem e Semmi, que tinha seus altos e baixos, mas transparecia amizade e lealdade. Completamente deturpado, agora Akeem chega a chutar Semmi quando está no chão.

Em busca de algo relevante em sua trama, o filme se ancora no fato de que a tradição de um homem ter que herdar o trono está errada, e que a filha mais velha de Akeem está bem mais preparada para assumi-lo. Compreendemos isso desde o início, e sabemos como tudo irá terminar, ainda assim, essa ideia é martelada insistentemente.

Com exceção de Wesley Snipes, que parece estar se divertindo muito ao interpretar seu general Izzi, os demais não apresentam atuações dignas de nota. Murphy voltou a atuar no automático, assim como Leslie Jones e Tracy Morgan. Sim, você ouviu direito, Snipes é o melhor do elenco.

No final, o filme é um retrocesso tanto para o diretor quanto para Murphy, que vinham de “Meu nome é Dolemite”, e embarcaram em uma comédia que comete o maior dos pecados: não ser engraçada!

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

2 Comments

  1. Artur disse:

    Me senti decepcionado com esse filme. Foi mais uma “sequência de vergonha alheia” do que uma continuidade de um clássico.

  2. Willian disse:

    Achei divertido, suave, singelo e não é o tipo de comedia q rimos do inicio ao fim, mas o primeiro também não era assim, acho q o conceito familiar também esta muitonpresente no filme semmas amarras contextuais de longas passados. O filme é muito bem produzido e se advém de uma sequencia em uma historia q precisa ser contada e vai direto ao ponto, achei q rendeu ótimos momentos sim além de muitas referencias ñ apenas do antecessor como a comedia Trocando as Bolas, outro filme dirigido por John Lands q contava com Eddy Murphy.

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