“M8: Quando a Morte Socorre a Vida”, um filme singelo e necessário pra sociedade.

Por Will Nygma

Já esta disponível no catálogo da Netflix o novo longa de Jeferson De, diretor do longa “Bróder” (com Caio Blat) e protagonizado por Juan Paiva (da comédia “Correndo Atrás” com Lázaro Ramos), que inclusive faz uma pequena participação neste filme, que discute racismo e conflito social na cidade do Rio de Janeiro.

Mas o filme vai além disso, pois a espiritualidade, uma dose de suspense e um pouco da cultura afro também está presente com muita representatividade, mais ainda, pois é uma história tão autêntica que não se limita em mostrar um pouco das diferenças sociais e do preconceito velado de nossa sociedade, principalmente neste caso, com um estudante preto na faculdade de medicina, que não deveria ser anormal, ainda mais vivendo em pleno século XXI, mas que, infelizmente, ainda é um tabu, causa estranhamento e, por incrível que pareça, até inveja, mesmo por brancos de classe média alta e da zona sul.

Aqui a historia se passa no Rio de Janeiro e pela bela fotografia, podemos sentir o contraste da região da faculdade e seus colegas e do nosso protagonista que vive mais nas regiões periféricas. Apesar de representar muito bem essa dicotomia da cidade maravilhosa, ainda podemos nos identificar facilmente, sendo de qualquer outro estado e até mesmo país, pois o discurso é universal, o preconceito ainda existe em qualquer lugar que a gente vá, embora no filme isso seja mostrado com muita sutileza, como se nada estivesse acontecendo.

Cena de M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, disponível na Netflix

Está acontecendo, percebido por quem vive na pele, sente os olhares de reprovação, ou frases prontas, sofre maus tratos, a diferença em um atendimento e até mesmo o racismo introjetado em muitos negros, principalmente os empregados dos brancos, que vivem no paradigma de proteger o legado e a redoma de vidro de seus patrões, e acabam de portando, às vezes, até pior que os próprios brancos, assim como o personagem de Samuel L. Jackson em “Django Livre de Quentin Tarantino, que se passava em plena escravidão, e mesmo assim, ele se sentia superior aos outros, por estar em função superior de servidão, ou daqueles que ao terem de servir a outro de sua cor, se sentiam ofendidos.

Tudo já discutido aqui é usado apenas de pano de fundo para uma historia ainda mais complicada, onde esse singelo, educado e tímido aluno começa a enxergar alguma relação dos corpos que são estudados na aula de anatomia com algo mais além, ao perceber que todos são negros, fazendo com que se identifique mais com os cadáveres que estuda do que com o seu lugar nesta universidade com os outros alunos.

Se sentindo um peixe fora d’agua, ainda precisa lidar com seus anseios, a batalha de sua mãe solteira, preta e pobre e sua espiritualidade aflorando em meio a este caos interno, ao mesmo tempo que se vê envolto em algo maior que o que aparenta estar acontecendo.

O estudante negro se identifica mais com os cadáveres negros do que com os estudantes de sua faculdade de medicina, em M8 – Quando a Morte socorre a Vida, disponível na Netflix

Destaque para as participações de Zezé Motta (nossa eterna e maravilhosa Xica da Silva), Ailton Graça (Até Que A Sorte Nos Separe), Aramis Trindade (Auto da Compadecida), Henri Pagnoncelli (de novelas como Laços de Família), Mariana Nunes (O Outro Lado do Paraíso) representando muito bem a sua mãe, e do ator e produtor italiano Pietro Mário, também um grande dublador, mais conhecido pelas vozes do Capitão Caverna, Rafiki de O Rei Leão e mestre Yoda da franquia Star Wars, que infelizmente faleceu em agosto de 2020 e pode não ter nem visto seu último trabalho no cinema ao som de Chopim, em algumas das melhores cenas, trazendo muita sensibilidade e leveza para a trama.

O filme estreou em poucas salas no final de 2020 por conta da pandemia e chegou a ir para corrida aos filmes que seriam enviados para seleção para os indicados ao Oscar, mas infelizmente enviaram outro que nem entrou.

Uma pena, pois o filme é redondo tecnicamente e de uma sensibilidade tão universal e ao mesmo tempo de uma triste realidade brasileira, um povo totalmente mestiço, que nunca teve uma raça definida, já nascemos filhos de imigrantes e vivemos uma diversidade cultural e nossos tons de pele dos mais variados possíveis seja de descendência indígena, italiana, africana, portuguesa e tudo mais, surgimos de uma colonização europeia e nos misturamos desde seu descobrimento, chegando a ser patético esse preconceito que vivemos, fruto de um enorme paradigma onde nem percebemos que somos preconceituosos, mesmo quando achamos que não estamos sendo, sendo essa uma das discussões que o filme trata de forma bem sutil.

________________________________________________________

Will Nygma é Ator, cantor, performer, roteirista e diretor de teatro e cinema. Formado em Produção Audiovisual e Teatro, estudou letras, música e crítica de cinema. Nerd convicto, cosplay vencedor por 6 anos consecutivos na CCXP, também é um ávido colecionador de filmes e action figures e criador dos filmes dos Maníacos De Arkham, além de especialista no universo do Batman e em fazer imitações de cantores, personagens de desenhos animados e dos professores na época de escola.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *