O Vale Nerd – “The One” Grande demais para um “Black Mirror”

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e amo ficção científica, especialmente aquelas que se enquadram no subgênero que eu chamaria de “e se…”. Esse é o caso de “The One”, uma série que reimagina o mundo a partir de uma mudança de paradigma no comportamento social, ou pelo menos essa era a intenção.

Não vou fazer suspense, eu realmente não gostei da série. E o problema não é de ordem técnica, gosto muito da premissa, não vi problemas no roteiro, nas atuações, na produção mas sim um grandessíssimo problema de escolhas e de foco. Resumidamente, seria uma ótima ideia para um filme de drama, romance, de sci-fi e com certeza daria um excelente episódio da série “Black Mirror”, mas infelizmente “The One” se estende demais e se apega demais numa trama que poderia até ser interessante, só que em um outro contexto.

Vamos por partes, imagine um mundo em que a ideia de que existe uma pessoa ideal para você não é apenas uma utopia, mas sim um fato concreto. No universo alternativo de “The One” uma geneticista descobre como comparar o DNA das pessoas para descobrir sua “predisposição genética” ao romance. Basta se cadastrar, enviar um fio de cabelo e pronto. Muitas explicações pseudo científicas depois entendemos que para cada ser humano na terra existe um par perfeito o tal “the one”. Parece perfeito não? Parece, mas existem fatores que podem complicar a situação. São esses fatores que a série busca explorar em algumas histórias:

Segundo “The One” todo mundo tem um par perfeito, até mesmo o administrador deste site.

Uma mulher tem um excelente relacionamento com um repórter, eles são felizes, bem resolvidos, tem um relacionamento estável. Mas a ideia do the one é forte demais para ignorar e por isso, ela faz o teste do marido sem que ele saiba. É claro que isso não poderia dar certo, ela acaba descobrindo que seu marido tem uma combinação e fica obcecada com a tal mulher e em como isso poderia destruir seu casamento.

Uma policial tem um relacionamento estável com o namorado, mas resolve fazer o teste para descobrir se tem um par perfeito, para sua surpresa ela descobre que não é seu namorado, mas sim uma mulher. O conceito poderia ser bem explorado se houvesse conflitos adicionais, digamos, se a policial fosse homofóbica. Mas não, o roteiro deixa claro que ela é convenientemente bissexual.

Uma cientista descobre que seu grande amor é um homem lindo, galante, sarado que trabalha em um quiosque na praia. Ele surfa, é amável, bondoso, sonhador e tudo o que um príncipe encantado pode ser. Infelizmente ele não pode se mudar para Londres, onde ela vive, pois tem sob sua tutela um irmão mais novo que depende completamente dele.

Uma mulher inescrupulosa e manipuladora, CEO de uma empresa mundialmente famosa, tem uma vida de causar inveja a qualquer um. Mas, por debaixo dessa couraça de perfeição e sucesso se esconde um passado sombrio e misterioso que ela não quer que venha à tona. Seus inimigos tentarão a todo custo tirá-la do cargo, mas ela não está disposta a desistir tão fácil.

Em The One, uma DCnauta pode descobrir que seu par perfeito não suporta os filmes do Snyder.

Agora respondam-me. Qual dessas histórias parece não se encaixar no plot da trama? Essa ideia da mulher ambiciosa e manipuladora não condiz com todo o restante. É uma subtrama de mistério e suspense bastante batida, previsível e eu diria até bastante genérica. E em vez de desenvolver esses dramas pessoais ou mostrar a forma como essa nova dinâmica de relacionamentos alterou a sociedade como um todo. A produção prefere se concentrar nessa trama policial desinteressante e monótona.

Haviam tantas possibilidades a serem exploradas. Imaginem só, se tivéssemos provas científicas de que somos geneticamente atraídos por pessoas do mesmo sexo, a ideia da homofobia tornar-se-ia ultrapassada (não sei vocês, mas eu adoro mesóclises). Ao mesmo tempo, imagine descobrir que o grande amor da sua vida acaba de morrer em um acidente e que não existe mais ninguém no mundo perfeito para você. Ou então, imagine se você descobrisse que seu grande amor mora no Japão, e você não tem dinheiro para, sequer, sair do seu estado. Se a questão é gerar uma trama de suspense e mistério, de repente, seu grande amor é um assassino, um psicopata, ou alguém perseguido pela máfia.

O fato é que o resultado final certamente poderia ter sido melhor se a série fosse mais curta (a ideia de um episódio de “Black Mirror” era inevitável enquanto assistia), ou mais focada no que realmente havia de inovador e interessante, os dramas daquelas pessoas e a dinâmica social envolvida. Infelizmente, na maior parte do tempo, só o que temos é um grande mais do mesmo. Mais uma boa ideia, desperdiçada em uma execução mediana, uma pena.

E se você quiser conversar comigo, falar dessa e outras ficções científicas. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o episódio 4 da 4ª temporada de “Black Mirror”: “Hang the DJ”, um episódio em que a formação de casais é determinada por um aplicativo de compatibilidade, desculpem, não tinha como eu ser mais óbvio. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e utilizou o aplicativo “The One” para achar July Anderson.

3 Comments

  1. julie disse:

    Muito bom, me poupou de perder tempo.Ps. Saudades de vocês.

    • Everton disse:

      Kkkk Obrigado por ler a matéria Julie. O pior é que as partes em que eles se dedicam a mostrar os dramas nos relacionamentos das personagens é legal.

  2. julie disse:

    🥰Poderiam ter se dedicado mais nisso.

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