Super-Heróis e Política: Reflexões históricas, filosóficas e teológicas no gênero superaventura.

Ninguém entrevista Bruno Andreotti, organizador do livro que analisa os super-heróis do ponto de vista histórico, filosófico e teológico.

Super Ninguém: Como e de quem partiu a ideia do livro? Os autores já se conheciam?

Bruno Andreotti: Comecei a pensar num livro que abordasse algo relativo a super-heróis no final de 2019. Inicialmente houve um convite para todos os Quadrinheiros (atualmente somos em cinco) para participar, que foi aceito pelo Mauricio Zanolini e pelo João Vitor Mascarenhas. Conversamos sobre o que gostaria de trabalhar, a relação entre super-heroísmo e fascismo, um dos capítulos que é uma espécie de embrião do meu doutorado em andamento, fechamos que o tema seria super-heróis e política.

Depois dessa conversa interna houve o convite para outros pesquisadores que abordam o tema, ainda que por outros vieses, e o Renato Ferreira Machado e o Gelson Weschenfelder aceitaram o convite. Já trabalhamos com eles em outras ocasiões e são pesquisadores que têm muita afinidade com o que produzimos nos Quadrinheiros.

A partir daí fomos conversando para fechar os temas que seriam abordados por cada um em cada capítulo, para dar a maior amplitude possível de abordagens ao tema central, super-heróis e política.

Libro Super-Heróis e Política, Reflexões históricas, filosóficas e teológicas no gênero superaventura.

Super Ninguém: Capitão América lutando contra os nazistas, X-Men falando e sua luta contra o preconceito e a violência contra as minorias, grandes obras como Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, V de Vingança e Watchmen de Alan Moore, todas elas falam sobre política. Ainda assim, ainda vemos comentários na internet insistindo que quadrinhos de super-heróis e política não devem se misturar. Há até um movimento chamado “quadrinhos sem política”, não sei se ouviram falar? A que vocês atribuem esse tipo de pedido?

Bruno Andreotti: Periodicamente a gente ouve ou lê esse tipo de discurso, reivindicando que histórias em quadrinhos são apolíticas, puro entretenimento ou algo assim. Que não deveria misturar as coisas etc., que “na minha época os quadrinhos eram melhores e não tinha isso”. Esses discursos são compreensíveis, uma vez que muitos leitores chegam aos quadrinhos ainda na infância e, como crianças, não apreendem de maneira autoconsciente a dimensão política existente nas obras.

Mas ler um quadrinho aos 20, 30, 40, 50 anos ou mais como você lia quando criança é impossível – ou deveria ser. A sua compreensão de mundo muda – ou ao menos deveria ter mudado. Há uma certa nostalgia da infância que o adulto vê como maculada ao perceber essas dimensões políticas em suas histórias em quadrinhos favoritas, muitas delas com as quais não concorda. Isso é uma dimensão desse discurso.

Outra dimensão critica não a política nos quadrinhos em si, mas que essa mensagem política não esteja de acordo com a posição que se defende. É muito comum a Marvel ser criticada pela política de representatividade em suas histórias, ou dizer que os quadrinhos de super-heróis foram dominados por uma visão esquerdista, liberal etc. Sobre essa questão, quero citar um ex-editor da DC, Andy Khoury:

“O que as pessoas querem dizer quando dizem querer quadrinhos ‘não políticos’, como quando eram crianças, é que elas estão devastadas por acordar um dia como adultas, ler um quadrinho, e perceber que cresceram para se tornar o tipo de pessoa que seu herói de infância daria um soco na cara”.

Capítulo Política e Conscientização em Miracleman, escrito por João Vítor Mascarenhas,

Super Ninguém: É possível desvincular os super-heróis da política, ou seja, fazer histórias “apolíticas”?

Bruno Andreotti: É possível fazer uma leitura que ignore a dimensão política dessas histórias, sem dúvida. Uma leitura rasa, certamente, mas, no entanto, possível. Costumo dizer que você pode fazer uma leitura assim, mas não pode negar que a dimensão política daquelas histórias está ali, basta ter sensibilidade e repertório para apreender.

Super Ninguém: Em alguns momentos, personagens que foram criados com um propósito parecem ser mal interpretados. Cito dois aqui, o Justiceiro, que funciona como júri e executor, e Rorschach, criado por Alan Moore para Watchmen, considerado nacionalista, machista, preconceituoso, mas ainda assim, idolatrado por vários leitores. Isso ocorre porque os leitores se identificam com a forma que esses personagens enxergam o mundo?

Bruno Andreotti: De certa forma sim, mas é preciso lembrar que o Justiceiro, embora tenha aparecido como antagonista do Homem-Aranha, fez sucesso e logo ganhou sua própria revista, passando, portanto, a protagonista. Rorschach também é protagonista em Watchmen. Estou lembrando desse ponto porque é uma decisão consciente do roteirista criar essa identificação do protagonista com o público. Obviamente Alan Moore não faz apologia das ideias de Rorschach, no entanto, lendo Watchmen, você vê a história sob a perspectiva dele, e tende a identificar-se com ele dentro daquela história.

É importante lembrar também que esses heróis mais brutalizados ganham popularidade principalmente nos anos 80-90 em que você tem uma escalada de violência nos Estados Unidos e aumento de políticas de tolerância zero, em que a opinião pública americana em grande medida apoiava essas políticas e os super-heróis acabaram expressando isso.

Os Dois Lados da Guerra Civil, primeiro livro publicado pelos “Quadrinheiros” em 2016

Super Ninguém: Há um capítulo do livro chamado “Quando Super Heróis vão às Urnas”, sobre a minissérie Universo DC: Decisões. Nos Estados Unidos é bastante comum que super-heróis adotem um lado na corrida presidencial, certo? Os atores que os interpretam também fazem isso. Aqui, no Brasil, com o ambiente polarizado em que vivemos, onde o ódio parece cada vez mais exacerbado, acha que o mesmo funcionaria?

Bruno Andreotti: Ao contrário, é bem raro que os super-heróis adotem explicitamente uma posição ou outra. Claro, há exceções, como a própria minissérie analisada no livro e também a célebre capa da Marvel em que Obama e Homem-Aranha estão juntos, entre outros, mas essas posturas raramente aparecem de maneira explícita. O que se pode fazer é uma análise das histórias e a partir daí verificar se há um alinhamento perceptível a um discurso ou outro.

Quanto aos atores acontece com mais frequência, porém não saberia precisar o impacto ou a influência que isso tem ou teria nos eleitores.

Atualmente temos em nossos quadrinhos personagens heroicos que expressam bem essa polarização que você cita: Destro, de Luciano Cunha, à direita, e Kriança Índia, de Rafael Campos Rocha, à esquerda. Arrisco a dizer que dificilmente quem lê um leria o outro.

Super Ninguém: Em outro capítulo, vocês abordam convergências e divergências entre os super-heróis e o fascismo. Você poderia dar alguns exemplos rápidos dessas divergências e convergências?

Bruno Andreotti: Uma das convergências são as ideias sobre eugenia comuns no final do século XIX e início do XX, e isso se refletia na ideia de um “super homem”, comum na literatura pulp da qual descendem os super-heróis. Há um ideal eugênico tanto nos super-heróis quanto no nazismo, por exemplo. Mas os super-heróis defendem essencialmente ideais liberais como a democracia e liberdade individual e, mais especificamente, o Sonho Americano, nisso sendo divergente em relação ao fascismo que se coloca contra os valores liberais e democráticos.

Capítulo Terra acima de todos. Superman acima de tudo! Escrito por Renato Ferreira Machado, Doutor em Teologia pelas Faculdades EST

Super Ninguém: Vocês acham que alguns políticos são adorados quase como se tivessem super poderes e fossem capazes sozinhos de salvar a nação e proteger o povo do mal maior?

Bruno Andreotti: Essa é uma das críticas mais comuns aos super-heróis, de que na verdade refletem um sentimento por alguém que resolva as coisas de maneira autoritária, de cima para baixo, e também uma das explicações mais recorrentes sobre o porquê das pessoas apoiarem líderes autoritários. Especificamente no Brasil de tempos em tempos aparecem políticos que expressam esse messianismo que há em nossa cultura política, uma aposta em um “salvador da Pátria”. Nesse sentido amplo, são exemplos de mobilizações políticas do arquétipo do herói.

Super Ninguém: É o primeiro livro publicado por vocês? Há planos para novos livros?

Bruno Andreotti: Esse é o nosso terceiro. O primeiro foi Os Dois Lados da Guerra Civil, de 2016, que analisava em detalhes a saga Guerra Civil da Marvel, e Quadrinhos Através da História – As Eras dos Super-Heróis, de 2017, em que comentamos cada uma das Eras dos quadrinhos de super-heróis em relação ao contexto histórico. Ambos indicados ao Troféu HQ Mix como Melhor Livro Teórico e pela Criativo Editora.

Ainda é cedo para falar de um novo livro, mas já cogitamos de fazer um volume 2 do ‘Super-Heróis e Política’, abordando especificamente super-heróis brasileiros.

Super Ninguém: E finalmente, caso o público queira adquirir a obra, onde ela está disponível para venda?

Bruno Andreotti: Exclusivamente no site da Criativo, no link:

https://www.livrariacriativo.com.br/produto/469060/super-herois-e-a-politica

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