“Onisciente” – Sorria, você está sendo filmado!

Por Everton Nucci

Do mesmo criador de “3%” (que muito antes de “Cidade Invisível” já havia despontado no exterior como a série de língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos da América) surge “Onisciente” um suspense de ficção cheio de conceitos interessantes sobre segurança, privacidade e poder.

O autor Pedro Aguilera mais uma vez investe no gênero da ficção científica e bebe de várias fontes como “Minority Report”, “Missão Impossível”, “1984” e, é claro, “Black Mirror”. Só que dessa vez ele se afasta das distopias e nos apresenta a uma cidade muito mais limpa e organizada.

Assim conhecemos uma sociedade vigiada vinte e quatro horas por dia por pequenos drones que transmitem, ao vivo, o cotidiano de cada cidadão. As transmissões são destinadas a um computador central responsável por impedir a criminalidade na metrópole. Tudo promovido pela iniciativa privada, segurança aqui não é papel do governo, mas sim, de uma empresa que está em franca expansão global, tendo seus serviços contratados por mais e mais cidades.

Em Onisciente, série da Netflix, Wally não consegue se esconder

A série é muito feliz ao mostrar como a desumanização tem se revelado um preço a ser pago para a obtenção de uma sociedade mais simples, mais rápida, mais imediatista e – supostamente – mais segura. Nesse contexto, é praticamente impossível falar em uma central de atendimento sem ter que passar por um robô irritante que não entende o usuário e com o qual se deve amargar longos minutos de diálogos improdutivos e repetitivos, e quando finalmente chega-se a um atendente humano, seu comportamento é tão padronizado e protocolar que parece até mais robótico do que o do próprio robô.

O fato de estar sendo vigiado até mesmo em momentos íntimos como banho e relação sexual poderia ser considerado invasão de privacidade, mas aqui tudo é normalizado sob a alegação de que as filmagens nunca são vistas por olhos humanos. Somente o computador central -o tal sistema Onisciente- tem acesso às imagens e os crimes são determinados por algoritmos com base na análise comportamental. Se alguém joga lixo na rua, o sistema reconhece o comportamento criminoso e imediatamente notifica e multa o infrator. O histórico de infrações do cidadão fica gravado para sempre em seu arquivo pessoal e pode trazer problemas na hora de procurar um emprego.

Após sermos apresentados a esse novo universo a série adentra à história e descobrimos que nem todo esse aparato complexo e sofisticado foi capaz de impedir com que o pai da protagonista Nina (Carla Salle) fosse brutalmente assassinado com um tiro nas costas dentro da própria casa. Tudo no mais puro lugar comum de trama policial de mistério e suspense e infelizmente essa é a parte menos original e criativa da série. Na verdade, o desenvolvimento conspiracionista e a resolução final do enigma são bastante óbvias.

Se pudesse escolher, entre o bem e o mal, ser ou não ser, se querer é poder, tem que ir até o final, se quiser vencer…

Em relação a parte técnica, é possível notar que houve um grande salto na qualidade da produção desde “3%”. Com um visual muito menos improvisado e sujo do que o da série de distopia, vemos cenário mais sucinto, límpido, minimalista e anacrônico. A produção também é muito bem filmada, bem dirigida e bem montada e não se apega a pirotecnias desnecessárias para parecer futurista. A atuação naturalista do elenco é digna de elogios, ainda mais por se tratar de um nicho tão pouco explorado em nossas terras.

O resultado final é uma ótima série de ficção científica, com começo, meio e fim (e um pequenino gancho ao final). São apenas 6 episódios que valem a pena conferir, mas assista sem compromisso pois a segunda temporada ainda não foi confirmada.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e é vigiado 24 horas por dia pelo sistema July de monitoramento

1 Comment

  1. Julie disse:

    Sim tem razão, ainda não terminei de assistir, mas é uma excelente série ??????

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