Falcão e Soldado Invernal – Temporada 01, Ep. 02: O Herói Americano

Por que o Capitão América era muito mais do que um escudo e um uniforme?

Por Fernando Fontana

Temos heróis se comportando como crianças e spoilers no texto a seguir.

Steve Rogers, conhecido no mundo inteiro como o Capitão América, ganhou o respeito, inspirou e liderou os Vingadores, incluindo aí, membros um tanto complicados como o bilionário e egocêntrico Tony Stark, Thor, um deus asgardiano, e Hulk, um gigante verde com problemas de controle de raiva. Sob seu comando, os Vingadores enfrentaram e derrotaram ameaças globais e até mesmo universais, como Loki, Ultron e Thanos.

As pessoas aprenderam a ignorar o “América” presente em seu nome, e passaram a tratá-lo não como um herói que defende unicamente os valores norte-americanos, mas justiça e liberdade no mundo como um todo. Sendo fisicamente um dos membros mais fracos da equipe (não se esqueçam que existe o Gavião Arqueiro), obviamente, o comando não veio devido ao seu poder, mas graças a um conjunto de outros fatores.

Uma das perguntas que surge com o episódio 2 de “Falcão e Soldado Invernal”, é o que fazia de Steve Rogers o Capitão América? Bucky (Sebastian Stan) questiona repetidamente Sam (Anthony Mackie) sobre o motivo que o levou a desistir do escudo que lhe foi entregue por um Steve já idoso no final de “Vingadores Ultimato” (2019). Segundo suas palavras: “Aquele escudo é tudo o que ele representava”.

Seriam, portanto, o escudo e o uniforme, os itens essenciais para se criar um novo Capitão América? Certamente nem mesmo Bucky acredita nisso, e é bem provável que ele não tenha se expressado corretamente. O escudo é um símbolo, e é compreensível o seu apego a ele, mas remova-o de Steve Rogers e ele continua a ser quem sempre foi.

John Walker (Wyatt Russel) o novo Capitão América

John Walker (Wyatt Russel) é a aposta do governo norte-americano para se transformar no novo Capitão América. Seria o físico, a aparência, decisiva para ser o herói? Durante a última semana, a internet, maldosa como sempre, comparou o ator que interpreta o Capitão com o humorista Marquito, famoso por suas imitações no programa do Ratinho.

Não vamos seguir por aí, e sim por outra característica do herói patriota; assim como Rogers, Walker é branco e isso não seria um problema, se o episódio não tivesse deixado claro que um negro jamais poderia vestir o manto.

Primeiro, temos a história de Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um super soldado negro que na série enfrentou Bucky quando ele ainda agia como um assassino no início da década de 50. Nos quadrinhos, o personagem fez parte da polêmica minissérie “Capitão América: Verdade – Vermelho, Azul e Negro”, publicada em 2003, com roteiro do falecido Robert Morales e desenhos de Kyle Baker.

Na HQ, ficamos sabendo que o governo norte-americano, em uma tentativa de recriar a fórmula do super soldado, a testou em 300 homens negros, resultando na morte de todos, com exceção de Isaiah, que se tornou uma arma de combate, mas sem jamais receber a mesma publicidade e honrarias destinadas a Steve Rogers. O fato de negros serem dispensáveis e não poderem ser símbolos da pátria, mostrava uma incômoda semelhança entre os Estados Unidos da América e a Alemanha de Hitler por eles combatida.

Isaiah Bradley (Carl Lumbly) na série e nos quadrinhos

Mais o que isso, Isaiah, tanto na série quanto nos quadrinhos, foi preso pelo governo e submetido a experimentos diversos. Se o passado é sombrio, o presente ainda se mostra distante do ideal. Temos a cena em que Sam e Bucky estão discutindo e são abordados por uma dupla de policiais, que imediatamente solicitam a identidade de Sam e perguntam para Bucky se ele o está incomodando. A situação é contornada quando os policiais são informados que Sam é um Vingador.

Ao trazer Isaiah e abordar o tema do racismo tão presente, embora nem sempre assumido, a série demonstra que pretende falar sobre as falhas de uma nação e os perigos do patriotismo exacerbado. Veja que, os Apátridas, os revolucionários que estão sendo combatidos por Sam, Bucky e o novo Capitão América, lutam justamente contra o nacionalismo. Destaque para o diálogo entre Sam e John Walker: “Revolucionários não são bons para a causa de ninguém” – diz Walker – “geralmente dito pelas pessoas com recursos” – responde Sam.

Sua líder, Karli Morgenthau (Erin Kellyman) aparentemente estava levando medicamentos para comunidades formadas após o retorno da metade da população que desapareceu com o estalar de dedos de Thanos, causando uma nova série de problemas sociais. A linha que separa o bem e o mal, vilões e mocinhos parece longe de estar evidente na série.

Seja o que for que fez de Steve Rogers o Capitão América, até o momento, John Walker, o escolhido para substitui-lo, não chegou nem perto, ele não é tão carismático, não tem a capacidade de liderança ou os valores de Rogers, e sua ameaça a Bucky e Sam quando eles se recusam a segui-lo, “fiquem longe do meu caminho”, só demonstra que ele não é o candidato ideal.

Sam e Bucky brincando de quem pisca primeiro

Por fim, este episódio nos mostrou pela primeira vez a dupla Sam e Bucky em ação e qual será a dinâmica, muito semelhante, como já dito na análise do primeiro episódio, às duplas de policiais dos filmes dos anos 80. Ambos possuem seu modo de enxergar a situação em que se encontram e seus próprios dilemas, e apesar da implicância mútua, tem tudo para dar certo como equipe.

Gostaria de não estar empolgado, mas estou! Podem me julgar!

______________________________________________________________

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *