Liga da Justiça de Zack Snyder: Ame ou Odeie, mas não ignore

Por Will Nygma

O Ministério da Saúde adverte: o texto a seguir pode causar estresse, taquicardia e hipertensão em pessoas que não gostam de Zack Snyder, leia com cautela

Finalmente a novela envolvendo as diferenças criativas entre o estúdio e os diretores acabou e em grande estilo, pois estamos diante de uma obra extremamente superior ao filme que foi para os cinemas em 2017.

Se de um lado tínhamos o visionário Zack Snyder com seus conceitos e originalidade na hora de transpor os personagens dos quadrinhos para as telas, com mais humanidade, muitas camadas que aprofundavam ainda mais a personalidade de cada um sem ir pelo obvio, criando conflitos e debatendo temas sociais, religiosos, morais entre tantos outros, fazendo analogias muito além de sua superfície, do outro tínhamos um estúdio que só queria faturar querendo que o diretor fizesse apenas o feijão com arroz, agradando as grandes massas.

Tanto que a saída do diretor no meio das gravações ocorre não apenas pelo fardo que Snyder teve de carregar com o suicídio de sua filha Autumn na mesma época, mas por estar sem forças para continuar tentando impor seu controle criativo sobre suas obras (o que já sofria desde Batman Vs Superman), levando-o a entregar o bastão e permitindo que a Warner conseguisse o que queria, tirar Snyder e sua visão complexa, e colocar em seu lugar um diretor que obedecesse os executivos, Joss Whedon (Vingadores 1 e 2) que na época fazia sucesso na concorrente, a Marvel

Whedon assume o cargo pela metade, muda tudo, vai direto ao ponto e apaga todos os conceitos complexos, além de forçar um humor desnecessário visando maior leveza, copiando a “fórmula do sucesso” que funcionou na outra editora (leia mais a respeito na resenha do filme de 2017 aqui na pagina), além das polêmicas de abuso de poder com o elenco que gerou até processo.

Cores são para os fracos!

O resultado? Uma colcha de retalhos sem sentido que quase fez um império desmoronar. Tudo que já havia acontecido nos anos 90 nas franquias do Batman de Tim Burton ocorria mais uma vez, com os executivos da Warner insistindo em se intrometer, destruindo o trabalho de diretores que ainda saem com uma má fama (Joel Schumacher que o diga).

A história, no entanto, não apenas muda de figura, como somos apresentados, quatro anos depois, para a verdadeira visão do seu criador. O diretor Zack Snyder em um feito nunca visto na história, consegue retornar para finalizar sua obra, graças aos pedidos dos fãs do mundo inteiro que suplicaram pelo tal #SnyderCut, com campanhas na internet e até arrecadando dinheiro para um fundo de prevenção ao suicídio. A HBO comprou a ideia e a Warner liberou Snyder para mostrar sua versão do filme para o mundo. Uma das coisas positivas geradas pela pandemia, unindo os serviços de streaming em busca de conteúdos com os grande estúdios.

A trama do filme parece a mesma, e a grosso modo é, mas a diferença está na abordagem, no visual, no desenvolvimento dos personagens e na forma de se contar a historia e suas entrelinhas. Três horas a mais nos são apresentadas, desde cenas totalmente inéditas, até a versão estendida do que já se via no filme de 2017, que muda totalmente não só a percepção e a experiência, como o sentido de tudo para algo muito mais plausível, além de muitos personagens que foram cortados na versão anterior, ganhando destaque na trama. Cenas a mais filmadas por Joss Whedon na época foram obviamente limadas por não terem nada a ver com a trama original.

Os sinais eram claros!

Só que o mais bacana de tudo isso, é que mesmo se o diretor tivesse finalizado as gravações naquele ano, ainda assim a versão que iria para o cinema não seria esta que vemos agora, pois obviamente a Warner não iria deixar um filme de 4 horas de duração ir para o cinema; haveriam muitos cortes e talvez uma versão estendida depois em Blu-ray.

O que nos leva a crer também que nem tudo foi negativo, pois com isso, estamos diante de uma obra prima, que muitos podem até não gostar, principalmente por ser longa ou complexa demais.

Com o criador tendo controle criativo para mostrar sua visão em um filme que iria passar na TV, para alugarmos ou até mesmo assistir em formato de série (o que também foi discutido), ele não precisou se apegar às armadilhas do tempo, pode explorar mais, não apenas o desenvolvimento da trama, mas principalmente dos personagens e sem pressa ou a euforia que se esperam de filmes do gênero, teve todo tempo do mundo para explorar esse universo e como em um drama épico, se aprofundando em cada detalhe e colocando uma lente de aumento em tudo, usando e abusando de seu talento, assim como Pollock fazia em suas pinturas, sem a preocupação de agradar o estúdio ou as grandes massas, coisa que a maioria dos grandes artistas fazem, contar sua historia, expor suas ideias, transpor seus conceitos e apresentar sua proposta diante da plateia sem a preocupação de aceitação total ou apenas agradar a todos, mas neste caso, ainda assim ele consegue colocar todos os easter eggs possíveis dentro de um universo amplo que são as historias em quadrinhos das quais a trama é adaptada.

E adaptação é isso, uma ideia de outra pessoa sobre um trabalho que não importa quem fez, mas sim o resultado final, pois existem jeitos diferentes de contar a mesma historia.

E Zack Snyder faz isso muito bem, como nas suas adaptações das Graphic novels Watchmen ou 300, onde, mesmo se baseando em obras fechadas, colocou sua visão. Quando tratamos de personagens como Batman, Superman e todos os outros membros da Liga da Justiça, tudo muda de figura, pois cada um deles passaram por diversas versões e reformulações ao longo dos anos, e é praticamente impossível ser totalmente fiel a algo que em sua base já é diferente na mão de cada escritor, ou seja, nas HQs, que dirá as outras mídias que os adaptaram.

Ou seja, pra ser totalmente fiel, só se o diretor, seja ele qual for, pegar uma história especifica e usar a HQ como Storybord, mas em que isso iria acrescentar pra mitologia do personagem e para o trabalho do diretor e roteirista? Nada! Inclusive pro expectador.  

Seria um trabalho sem criatividade alguma, uma copia transposta de uma mídia para outra. Os criadores precisam fazer escolhas e estarem muito cientes da historia que querem contar usando esses personagens, além das mensagens que pretendem passar, afinal são ficcionais e não pessoas reais, não tendo assim, nenhum compromisso com a realidade. E nestes quesitos, Snyder esta de parabéns, pois ele não apenas apresentou um trabalho digno de fã dos quadrinhos, mas uma obra prima do cinema como nunca havia sido feita antes, de uma maneira extremamente original que começou em “O Homem de Aço” (2013), tudo muito bem costurado para se explorar o universo que estava sendo construído filme após filme, mas que infelizmente sempre foi barrado, assim como outros diretores como David Ayer em “Esquadrão Suicida” (2016) que também sofreu com as intromissões do estúdio, o que não é segredo pra ninguém.

 O maior destaque de “Liga da Justiça de Zack Snyder” está no desenvolvimento de seus personagens. Claro que o filme tem muita ação e efeitos especiais, mas o foco do diretor não é esse, mas sim contar uma boa historia e explorar a personalidade e a relação de um com o outro e isso para os atores é de um primor tremendo.

Em Coringa, que era um filme de baixo orçamento, só pudemos ter a maravilhosa experiência que tivemos, principalmente por isso e mesmo assim o filme fez um sucesso estrondoso pois tínhamos um ótimo diretor e grandes atores de prestigio artístico envolvidos, o que mostra que podemos sim, ir além das camadas de uma obra baseada em revistas em quadrinhos e acabar com esse preconceito de que é só entretenimento.

Tanto que o filme faturou diversos prêmios importantes do cinema, aqui pode ser um pouco diferente, mas a questão de desenvolvimento de personagens é a mesma. Sem contar o fato de que também temos diversos ganhadores do Oscar no elenco como Bem Affleck, J.K. Simmons e Jeremy Irons.

Com isso, todos passam por transformações e precisam lidar com seus traumas, anseios e seus  relacionamentos, tudo está em conflito e ainda precisam se juntar para salvar o mundo de uma ameaça inimaginável.

Nós, expectadores já acostumados a ver filmes do gênero, podemos achar até piegas e sem tanta complexidade, mas não é bem assim para os personagens dos filmes segundo Snyder, apesar do lúdico ele apresenta tudo com o pé um pouco no mundo real, criando esse paradoxo com nossa sociedade onde todos sempre trazem um peso maior do que o que estão acostumados a carregar e precisam enfrentar seus próprios demônios, vide Batman e Cyborg principalmente com suas perdas. Todos tem um piano nas costas como Flash que precisa lidar com o assassinato de sua mãe e sofre por ter o pai na cadeia preso por isso injustamente, e carrega esse fardo de tentar o livrar disso, ao mesmo tempo que precisa lidar com seus poderes e fazer a coisa certa quando alguém a sua volta esta em perigo; a rebeldia de Aquaman por ser o filho bastardo, Mulher Maravilha que também precisa enfrentar suas perdas, fora outros personagens importantes como Lois Lane e Martha pela perda de Clark Kent, entre outros.

Todos perderam algo na vida e isso é talvez o pano de fundo que os une, o luto permeia toda trama construída por Snyder, cada um tem sua particularidade e uma função que exercem no momento certo, todos tem sua importância, e o filme tem espaço de sobra para cada um mostra-la, até mesmo os personagens secundários, que também não estão ali apenas de enfeite, cada um é uma peça fundamental para a engrenagem funcionar, desde Silas Stone, pai do Cyborg, passando pelo sempre competente Alfred, a rainha Hipólita, a Mera e Vulko de Atlantis, entre muitos outros como as pontas para uma continuação que já estava nos planos do criador como o Caçador de Marte e o Átomo, mas que não irei me estender muito para não estragar as surpresas de quem não viu, além, é claro, dos vilões Darkseid e Desaad, que também não apareceram na versão que foi para os cinemas, entre tantos outros momentos épicos e personagens que fritaram a cabeça dos fãs quando surgiram nos trailers.

O mais interessante de tudo, é que o #SnyderVerse (como o chamam) é de fato algo muito cheio de personalidade e segue uma linha evolutiva muito coesa, mostrando a relação dos Deuses, da Mitologia e os efeitos em nossa sociedade, principalmente se assistirmos na sequencia: “Mulher Maravilha”, “O Homem de Aço”, “Batman Vs Superman” (Versão estendida) e “Liga da Justiça de Zack Snyder”; cada detalhe esta lá e tudo faz muito mais sentido quando prestamos atenção nas entrelinhas e na evolução desses personagens.

Existem muitas camadas, muitas metáforas, analogias e referencias que tornam as obras muito ricas em todo conceito e contexto no qual estão inseridas, e quando percebemos isso conseguimos não apenas apreciar melhor, como não nos decepcionamos em cima de teorias e falsas expectativas.

A proposta esta lá e tudo é entregue muito bem pontuado além de gerar diversas discussões e ai que está a graça de se assistir a um bom filme. Não é aquele que é tão auto explicativo que depois de vermos, nos divertimos e fica por isso mesmo, as obras de Snyder sempre geram assunto para se debater, e é assim que uma boa obra de arte é, ela perdura com o tempo, não agradando a todo mundo, gerando discussões e reflexões.

Claro que assistir esta nova versão vai gerar comparações inevitáveis com a de 2017, como se fosse uma versão estendida do mesmo filme. Não é! Esse, sem duvida, é outro filme, são outras ideias, seria o mesmo que pegar um quadro de Leonardo Da Vinci pela metade e dar para outra pessoa terminar, ele vai distorcer a sua composição criando uma outra concepção.

Muitos podem não gostar da visão de Zack Snyder, do tempo de tela, do aprofundamento em demasia, da trilha sonora, das câmeras lentas e tudo mais, afinal, cada um tem uma visão das coisas conforme sua realidade, seu repertorio, sua visão de mundo, sem contar as falsas expectativas que são criadas em teorias mirabolantes que não fazem jus a proposta dos criadores, especulações de fãs fervorosos e ansiosos.

O que ninguém pode deixar de admitir é que Snyder tem personalidade, ele deixa a sua marca, e reclamar disso é o mesmo que reclamar que um filme do Tim Burton esta muito bizarro, que o Jim Carrey faz muita careta, que tem muito sangue e diálogos extensos nos filmes do Quentin Tarantino.

Ele é um artista nato e merece todo respeito por ser um revolucionário que fez todo mundo se curvar diante dele para assistir a 4 horas da versão de um filme que todos já haviam visto, fez um dos maiores estúdios de cinema do mundo deixar ele terminar seu legado, e por mais que ele tenha deixado pontas soltas para continuações que podem nunca ver a luz do dia (mesmo os fãs já clamando em nova campanha), já foi uma vitória e um evento único na historia da humanidade, que mesmo não agradando a gregos e troianos, deixaram todos curiosos diante da telinha para conferir uma obra muito bem elaborada, quer você goste ou não.

Afinal, nem Jesus Cristo agradou a todos na terra, e assim como Zack Snyder, foi crucificado e retornou do “mundo dos mortos” para mostrar a sua “palavra”, e todos pararam para ouvir.

______________________________________________________________________

Will Nygma é Ator, cantor, performer, roteirista e diretor de teatro e cinema. Formado em Produção Audiovisual e Teatro, estudou letras, música e crítica de cinema. Nerd convicto, cosplay vencedor por 6 anos consecutivos na CCXP, também é um ávido colecionador de filmes e action figures e criador dos filmes dos Maníacos De Arkham, além de especialista no universo do Batman e em fazer imitações de cantores, personagens de desenhos animados e dos professores na época de escola.

2 Comments

  1. Solange disse:

    E que análise

  2. Rodrigo Alves disse:

    O filme de fato e uma obra prima e a materia vai alem ao destrinchar toda essa novela epica que foi esse filme.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *