O Vale Nerd – Deuses Americanos e problemas mundanos

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje vim falar de “Deuses americanos” (“American Gods” no original), uma série da qual já escrevi para esse amado site e cuja critica você pode ler aqui: Deuses Americanos.

A terceira temporada finalmente acabou e já podemos tirar nossas conclusões, e a minha conclusão é: Não é fácil ser fã dessa série!

Para começar, devemos falar sobre a atípica periodicidade de “Deuses Americanos”, a primeira temporada foi exibida no canal Starz em 2017, a segunda apenas dois anos depois (em 2019) e para conferir a terceira tivemos que amargar mais dois anos. Só agora em 2021 pudemos ver a tão aguardada continuação das aventuras de Quarta-Feira, Shadow Moon e seus amigos (sim, isso pareceu narração da sessão da tarde, me desculpem).

Eu sei que produzir o programa não é nada fácil, é muito nítido que se trata de uma produção cara, fora a dificuldade que é adaptar a obra de um escritor consagrado como Neil Gaiman, é preciso lidar com expectativas e inevitáveis críticas dos fãs. O fato é que nada disso alivia a culpa da emissora que deu demonstrações de que não soube lidar com o produto que havia criado. A série era baseada no livro de Gaiman e o próprio escritor estava envolvido com a produção executiva do programa, ainda assim a Starz não conseguiu segurar o rojão que foram os bastidores do show.

Estou achando que ele vai falar mal da terceira temporada do show

Eu realmente não quero entrar nesse mérito, pois foram inúmeras confusões envolvendo elenco, roteiristas, produtores e muito mais. Sem dúvida os mais graves foram a debandada de atores e a perda dos showrunners originais, Michael Green (dos filmes “Logan”, “Blade Runner 2049”) e Bryan Fuller (das séries “Hannibal”, “Star Trek: Discovery”), seguida da demissão de seu substituto, Jesse Alexander (das séries “Alias”, “Lost”). A questão é que esse tipo de coisa vive acontecendo em Hollywood, às vezes os estúdios sabem como lidar com essas adversidades e às vezes não, “American Gods” definitivamente é um caso de às vezes não.

Vejam só, quando Gillian Anderson (“Arquivo X”, “Sex Education”) abandonou o programa após o término da primeira temporada, a produção decidiu não apenas mudar a intérprete, mas sim mudar a personagem, assim, a deusa Mídia que incorporava personalidades como David Bowie, Marilyn Monroe, deu lugar à Nova Mídia: Kahyun Kim (“Sexta Feira Muito Louca”, “Atração Obsessiva”). A ideia é realmente interessante, no lugar das personalidades clássicas veríamos esse novo fenômeno das mídias sociais e internet com K-Pop, curtidas e emojis. Como eu disse, a ideia é interessante, não fosse o fato de que a nova atriz nunca conseguir atingir o mesmo carisma da antecessora.

Então chegamos à terceira temporada, e a impressão que eu tenho é de que essa tentativa de substituir a atriz/personagem foi tão frustrada que a produção simplesmente desistiu de vez da ideia e decidiu que iria eliminar completamente da história qualquer personagem cujo intérprete tivesse saído da série. Bem, quase todos, pois não dava para fazer isso com o antagonista, e assim surge aquilo que eu considero a pior decisão de todas: as inúmeras versões do Sr/Sra Mundo.

Eu acho que o Everton não gostou de mim porque tem preconceito com K-Pop

A primeira coisa que eu soube antes da estreia foi que o ator Crispin Glover (“De Volta Para o Futuro”, “As Panteras”) não iria mais interpretar a personagem, e seria substituído por Dominique Jackson (“Pose”, “Call me”). Há até uma menção ao fato em sua primeira aparição quando uma das personagens diz “Gostei do novo visual, homens brancos não estão mais na moda!”. Por mim ok, eu amo “Pose” e amo o elenco da série, e tudo estaria bem, não fosse o fato de que toda essa nova ideia é jogada fora mais a frente quando a nova Sra Mundo se transforma novamente no Sr Mundo: Crispin Glover que conclui a cena com a frase “Fiquei bonito de novo!”. E a partir daí não há mais regra para o vilão, hora ele é Glover, hora ela é Jackson e hora é Trejo. Como assim Trejo? Bem, em certos episódios o Sr Mundo é interpretado por Danny Trejo, por quê? Por que sim! Os roteiristas nem perdem mais tempo em tentar explicar. Como disse há pouco, esse tipo de confusão costuma acontecer com frequência, mas quando as tretas de bastidores ficam evidentes para o público começa a ficar difícil manter o apego ao programa, e eu nem entrei na pior parte.

Tem tantas mudanças nessa temporada que nem parece ser a mesma série. Lembram do Sr. Ilbis (Demore Barnes) que na verdade era o deus egípcio Thoth e alternava na série como personagem e narrador da história? Que bom, pois os produtores parecem ter se esquecido, ele não aparece mais escrevendo com sua bela caneta tinteiro, não narra mais nada e só vai dar as caras lá pelos últimos episódios. Sabe o Jinn (Mousa Kraish)? Pois é, quem não sabe dele é o namorado Salim (Omid Abtahi), pois o Gênio saiu da série sem explicações e agora o objetivo -desculpa esfarrapada- de Salim é descobrir o porquê. Funciona? Não, ele passa o tempo todo sendo jogado para lá e pra cá na história sem função real.

O Garoto Técnico, para mim, é outra incógnita. Afinal, eu estou louco ou ele havia sido substituído por uma versão 2.0 na segunda temporada? Todo de branco, muito mais frio e sério? Nessa temporada sua versão adolescente milenial rebelde virado nas “dorgas” está de volta. Com a diferença que agora ele está bugado por… tanto faz o motivo. Ele passa a temporada toda tentando corrigir o bug. Tão desinteressante que não me deu a menor vontade de reassistir à temporada anterior para ter certeza de seu destino.

Garoto Técnico em American Gods, bugado e virado nas dorgas

Mas para mim, nada supera os arcos de Odin e de Shadow Moon. Começando pelo pai de todos, o Sr. Quarta-Feira (Ian McShane), sua motivação nessa temporada não poderia ser mais mundana, ele está atrás de patrocínio. Sim, isso mesmo, ele quer dinheiro! Afinal não se trava uma guerra contra os Novos Deuses sem grana não é? Bom, ele passou um tempo enorme nas temporadas anteriores fazendo rituais místicos para conseguir construir sua lança mágica, mas quem liga? Dinheiro é o que manda! Fora o fato de que a essa altura, quase ninguém mais se lembra de que Odin quer travar uma guerra. Pior do que isso, quem ainda se lembra, ou não liga ou quer mais que o pai de Thor perca logo para pôr fim à essa torturantemente tediosa busca. Quem não dormiu assistindo seu arco do asilo é o verdadeiro herói dessa temporada.

E o Shadow Moon (Ricky Whittle)? Então… Ele não deveria ser o protagonista? Pois é, ele foi jogado para escanteio numa história paralela que parece mais um filler do que qualquer outra coisa. Por algum motivo que ninguém entende, ele se afastou de Odin, mudou de nome, mudou de aparência (agora ele tem uma enorme cabeleira lisa) e resolveu começar uma nova vida. Não me levem a mal, o ator está mais lindo do que nunca e eu poderia assisti-lo fazendo vários nadas pela temporada toda. Mas como crítico, devo dizer que não vejo sentido em colocar a personagem em uma cidade isolada qualquer, para se envolver em uma trama de romance policial qualquer, com novas personagens que não acrescentam nada à trama principal.

Não estou dizendo que a temporada toda foi ruim, o arco da deusa Bilquis (Yetide Badaki) com as Orixás foi incrivelmente inspirado, principalmente ao colocar apenas mulheres pretas para interpretar aquelas que o sincretismo religioso brasileiro transformou em figuras brancas. Tudo o que envolve Bilquis rendeu cenas lindas, épicas, visualmente deslumbrantes. Mas, como todo o restante da série, é narrado como um arco próprio que praticamente não se liga à história principal.

Tem um trocado aí em nome de Odin?

Laura Moon (Emily Browning) talvez seja a personagem melhor aproveitada da temporada, seu arco é bem definido, simples, coeso e direto. O que é muito estranho para mim, visto que nas temporadas anteriores ela me parecia a personagem mais descartável da história, o episódio do purgatório é um dos mais bem escritos de toda a série e seu novo objetivo (vingança) é o único que, para, mim faz algum sentido nessa enorme coleção de aleatoriedades que se tornou a terceira temporada.

E se Salim não tem muito o que fazer na temporada, a não ser figurar como companheiro de viagem de Laura, ao menos ele traz um bom acréscimo ao panteão de deidades da série, muito interessante para nós do Vale. Principalmente para aqueles que estavam com saudades das cenas eróticas. A personagem protagoniza um dos melhores episódios da temporada e de quebra conhecemos o deus Tu Er Shen (“espírito lebre”) ou Tu Shen (“deus coelho”) a divindade chinesa protetora dos casais homossexuais. Eu particularmente fiquei surpreso ao descobrir que isso existia visto que a China é notoriamente um país avesso ao universo LGBTQIA+. Embora a homossexualidade não seja necessariamente proibida por lá, sabe-se que culturalmente é tida como vergonhosa, classificada como “comportamento anormal” e até mesmo censurada no rádio, TV e internet. Talvez esse seja um dos poucos casos no mundo no qual a homofobia não tenha raízes religiosas.

No fim das contas, resta dizer que a atual temporada de “Deuses Americanos” demorou demais para chegar e quando finalmente chegou, decepcionou demais. Mesmo com um nível de produção invejável, excelentes efeitos e momentos memoráveis, nada salva a coletânea de erros cometidos na narrativa atual. E para completar a ópera o público foi atingido em cheio com a notícia de que a série havia sido cancelada e que talvez, apenas talvez, a história seja concluída em um filme. É o mínimo que se pode desejar depois do gancho deixado no episódio final, só nos resta aguardar.

E se você quiser conversar comigo, e contar o que achou da terceira temporada de “Deuses Americanos”. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o livro “Deuses Americanos” pois talvez essa seja a única forma de ver o final da história. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e reza para o deus coelho pedindo para que o filme sobre Deuses Americanos seja melhor do que a terceira temporada

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