“Animal Cordial” – Um filme chocante e brutal!

Por Everton Nucci

Se não me falha a memória, foi no programa “O mundo de Beakman” que ouvi a expressão: “Explosão é quando uma coisa torna-se muito grande, muito depressa”. Não vejo melhor forma de definir “Animal Cordial” do que como uma explosão de loucura.

Devo confessar que a produção é uma grande reunião de elementos que costumam me agradar. É um filme de horror cheio de gore e brutalidade, é um suspense psicológico brilhante, tem um roteiro completamente imprevisível, oferece uma crítica social digna de reflexão, está cheio de momentos catárticos, tem uma ótima qualidade técnica e, acima de tudo, é uma ficção nacional de gênero. E eu sempre serei o primeiro a aplaudir quando o cinema nacional resolve sair do lugar comum.

Com roteiro e direção de Gabriela Amaral Almeida (de “A sombra do pai”) e elenco que conta com Luciana Paes, Murilo Benício, Camila Morgado, Irandhir Santos dentre muitos outros rostos conhecidos do cenário artístico brasileiro, é o tipo de história da qual não se pode falar muito sem estragar. Tudo aqui fica muito grande, muito depressa.

Uma explosão de loucura é quando um filme fica muito perturbador muito depressa!

Num restaurante qualquer em São Paulo, em uma daquelas noites em que a definição de saco cheio pode ser lida no ar, alguns funcionários não veem a hora de encerrar o expediente, um homem solitário – que nitidamente acaba de levar um bolo – bebe deprimido, o cozinheiro quer a todo custo discutir questões salariais enquanto a garçonete tenta de todas as formas agradar o patrão: um homem de classe média que se dedica demasiadamente a aparentar um padrão de vida que nunca teve.

É nesse clima completamente impróprio, muito próximo do horário da cozinha fechar, que um casal visivelmente cheio de grana adentra o local. É muito óbvio que eles não costumam frequentar estabelecimentos como aquele, provavelmente foi o único que encontraram aberto nas redondezas. Como que interpretando uma personagem, o proprietário tenta demonstrar profundo conhecimento dos vinhos caros que oferece ao marido, enquanto a esposa sequer se esforça para esconder o desprezo que sente pela garçonete. Mas como nada no mundo é tão ruim que não possa piorar, dois assaltantes invadem o local, prontos para instaurar o terror.

Esse é o ponto chave para a virada do filme, se até aqui tudo parecia deprimente e tortuoso como um ciclo de vida no purgatório, basta um tiro ser disparado para que tudo se transforme no mais completo caos. Todas as regras de convívio social são jogadas no lixo, o corpo estirado no chão talvez simbolize a sociedade na qual vivemos, uma sociedade que agoniza lentamente sem que ninguém se disponha a estancar seu sangramento. A figura baleada continua ali por todo o filme, enquanto todas as personagens ao redor dela parecem enlouquecer numa fração de segundos.

O cara da mesa 03 disse que filme nacional é ruim, não esquece de cuspir na bebida dele

Aquelas pessoas viviam no limite, e bastou um evento forte o suficiente para que o limite fosse transpassado. Suas verdadeiras naturezas vem à tona e agora não existe mais bom ou mau, policial ou bandido, rico ou pobre. Naquele local, só existe a selvageria e o instinto animal, instinto esse que é graficamente retratado na cena em que duas personagens fazem sexo banhadas de sangue. Alguns, no entanto, se recusam a abandonar sua humanidade ou se esquecerem de quem são, se recusam até mesmo a abandonar o seu último fio de cabelo.

E se você acha que pode imaginar algo do que acontece nesse filme com base na minha pequena sinopse, pense novamente. O roteiro é absurdamente surpreendente, cheio de reviravoltas chocantes que passam longe de ser gratuitas. “Animal Cordial” é um filme de horror sublime que se sustenta exclusivamente na crueza do ser humano. Talvez tão genial quanto James Wan com seu “Saw”, com a diferença de que, enquanto Wan faz questão de colocar suas personagens em ambientes sujos, depredados e obscuros, aqui tudo ocorre no mais limpo, chique e organizado ambiente que a classe média paulista pode oferecer. O filme de 2017 foi lançado oficialmente no Brasil em 2018 e está disponível na Netflix.

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e após dizer que horror cheio de gore e brutalidade o agrada foi encaminhado para avaliação psicológica.

1 Comment

  1. Julie disse:

    Quanta agonia em 1h e 38min?

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