Inaugurando uma nova série sobre mundos reais ou imaginários visitados pela ficção cientifica, pousamos na Lua, o corpo celeste mais próximo da Terra e o único, por enquanto, pisado por seres humanos.

Por Sidemar de Castro

Dia 28 de abril de 2021 morreu um dos três primeiros homens na Lua, Michael Collins, aos 90 anos, piloto da Missão Apollo 11 e também conhecido como o “Homem Mais Solitário do Mundo”, por ter permanecido horas isolado no espaço. Ele era o menos famoso do trio – Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar outro corpo celeste e Buzz Aldrin, o segundo, que serviu de inspiração para o personagem Buzz Lightyear, de Toy Story.

Em 2020, Aldrin deu um merecido soco no queixo de um negacionista que o seguia importunando e queria que ele gravasse uma declaração de que a viagem à Lua foi uma farsa. Dos três, Collins foi aquele que passou mais de 20 horas voando na cápsula em torno da Lua enquanto seus companheiros na superfície recebiam a atenção do mundo todo, em julho de 1969. Armstrong morreu em 2012, e Buzz Aldrin, o último homem na Lua, tem 91 anos.

Apolo era o deus grego do Sol. A próxima missão programada pela NASA (se os chineses não forem antes) deverá ser a Artemis, nome da deusa grega da Lua, irmã gêmea de Apolo. E essa missão deverá ser pilotada por astronautas mulheres, numa data futura ainda incerta, para além de 2024. A Conquista da Lua em 1969 é história, hoje, não mais ficção científica. Durante a maior parte da história da humanidade, no entanto, viajar até a Lua era apenas loucura, fantasia, e somente muito mais perto de nossa época, ficção científica.

LUA, A DEUSA QUE VIROU UM MUNDO

À exceção dos mitos de todos os povos em que sempre existiram deuses e deusas ou dragões na Lua, ou foi ela própria uma deusa luminosa como a Jaci dos Tupis, as primeiras histórias sobre esse tipo de conceito, de viajar até tal lugar (sequer se sabia naqueles tempos que a Lua era um lugar e não uma criatura ou local sagrado dos deuses) podia ser considerado pura fantasia.

Na antiguidade clássica, no mundo de cultura grega, Luciano de Samósata, escreveu por volta do ano 180 “Uma História Verdadeira”, uma fantástica viagem à Lua que menciona a existência de vida extraterrestre e antecipa diversos outros temas popularizados durante o século XX pela ficção científica. Luciano imaginou uma trama em que um acontecimento físico – no caso, uma onda extraordinariamente forte, atingiu um navio e o jogou para os céus, até atingir a Lua – sem deuses, magia ou outro elemento fantástico. Alguns dos antigos filósofos gregos já especulavam, através de raciocínio e cálculos elementares, porém brilhantes, considerando a falta de recursos como telescópios, que a Terra era redonda (e não plana) e que a Lua, assim como o Sol, era outro mundo, talvez semelhante ao nosso. O que diz muito sobre a inteligência de muita gente na internet em pleno século XXI.

Para muitos, no entanto, a primeira viagem à Lua com base científica teria sido Somnium (Sonho) do alemão Johannes Kepler, um dos mais importantes astrônomos de todos os tempos. É um relato ficcional de um jovem astrônomo que viaja para a Lua e encontra habitantes extraterrestres e inteligentes, formas de vida inteiramente novas e adaptadas às condições lunares. O romance também funciona como um documento científico e foi escrito antes de Galileu apontar a primeira luneta para o céu e antes mesmo do próprio Kepler olhar para o cosmos através de um telescópio, por volta dos anos 1600.

A história, entretanto, tinha elementos fantásticos como criaturas chamadas “daemons”, que convocadas pela mãe feiticeira do protagonista, como artifício literário, levavam seu veículo à Lua, na falta de um propelente mais científico. Para muitos cientistas, o conceito de pular a velocidade da luz através do “hiperespaço” de tantos livros e filmes modernos, também é um artifício literário. Seja como for, inadvertidamente, a semelhança do personagem do livro com o próprio autor, levou a Igreja a prender sua mãe verdadeira sob a acusação de ser uma “bruxa”. Kepler levou cinco anos para conseguir libertá-la das masmorras e impedir que fosse julgada e executada numa fogueira.

Houve uma série de outros relatos proto-científicos ao longo dos anos, de viagens não apenas à Lua, mas também a outros mundos do sistema solar e além. Seria preciso esperar a Revolução Industrial para que o moderno conceito de “romances científicos” abrisse caminho para que a primeira e verdadeiramente profética viagem à Lua fosse publicada.

DA TERRA À LUA

Livro “Da Terra à Lua” de Jules Verne

A primeira vez que alguém ousou fazer uso dos conhecimentos científicos de sua época para imaginar algo tão fantástico quanto uma viagem à Lua foi obra de um dos pais da ficção científica, o francês Jules Verne, no clássico Da Terra à Lua (1865).

A trama era tão extraordinária naquela época, que o livro tinha certo caráter irônico, focando a rivalidade entre dois fabricantes de armas que ficaram milionários durante a Guerra da Secessão Americana, então terminada. Seria algo como a rivalidade entre Jeff Bezos (Origin Blue, da Amazon) e Elon Musk (SpaceX), cujas empresas disputam contratos milionários com a NASA para a volta e exploração da Lua, inclusive. Com tanto dinheiro ganho com a guerra, os dois antagonistas milionários (os do século 19) deixaram suas rivalidades de lado e juntaram forças para construir um gigantesco canhão, o Columbiad, cujo objetivo era simplesmente disparar um bólido até a Lua. Em 1869 (exato um século da viagem verdadeira da Apollo 11), Verne publicou uma sequência, À Volta da Lua. Atualmente, são publicados juntos como Viagem ao Redor da Lua. No livro, o enorme projétil do canhão (mais ou menos o tamanho de um módulo da Apollo…) é disparado com três tripulantes em seu interior acolchoado e com tanques de oxigênio e escafandros, partindo de um local na Flórida muito próximo de onde hoje fica a base de lançamentos da NASA em Cabo Canaveral. Há muitas coincidências (ou especulações que se tornaram reais) entre a ficção de Verne e a realidade.

No livro, a cápsula viaja até a Lua, mas não pousa, fazendo sua órbita e, através do uso de retrofoguetes, retorna para a Terra, caindo no oceano Pacífico, sendo a tripulação recolhida pela marinha americana – exatamente como aconteceu com a Apollo 8, que antecipou a jornada da 11. As citações de Verne passam de previsões a coincidências muito grandes. Ele estimava que a missão custaria o equivalente a 12,1 bilhões de dólares em valores atuais, muito próximo dos 14,4 bilhões que custou a mesma Apollo 8, entre outras semelhanças, como o tamanho da cápsula e três tripulantes.

Outro clássico famoso sobre essa jornada foi escrita pelo outro “pai da ficção científica”, o inglês H. G. Wells, em Os Primeiros Homens na Lua, publicado no começo do século XX. Com menos física que Verne, a nave do romance fazia uso de uma substância antigravitacional fictícia para chegar ao satélite, que descobre habitado por uma sofisticada civilização de criaturas semelhantes a insetos – os quais acabam extintos pelo vírus da gripe que um dos tripulantes levou sem querer.

Ambos os romances inspiraram aquele que é considerado o primeiro filme de ficção científica do cinema, Viagem à Lua, de Georges Méliès, uma pantomima com um roteiro e efeitos especiais hoje ingênuos, que originou a icônica imagem que ilustra a abertura da matéria.

De lá para cá, a Lua perdeu espaço na imaginação humana (antes e depois da Apollo) para um mundo mais instigante, Marte, o Planeta Vermelho (tema de uma próxima matéria da Nemo). Mesmo assim, alguns romances e livros interessantes sobre a Lua foram escritos ou filmados, com destaque para Poeira Lunar (1961) de Arthur C. Clarke, o autor do famoso 2001, Uma Odisseia no Espaço (aqui), junto com Stanley Kubrick. Quando escrito, havia um temor apavorante de que qualquer veículo que na Lua pousasse afundaria nos desertos de areia finos como talco, o que acontece com a nave Selene da história. Clarke e os astrônomos da época que apostaram nisso erraram, pois a superfície do satélite se mostrou muito mais dura e composta de grãos bem sólidos. Mas o livro ganhava em tensão. O romance também foi publicado no Brasil como Os Náufragos do Selene.

Antes disso, o célebre repórter ruivo Tintim foi à Lua em dois álbuns em quadrinhos belgas: Rumo à Lua e Explorando a Lua. E mais recentemente, Andy Weir, que se tornou famoso com seu livro The Martian, que virou o filme Perdido em Marte (2015) publicou Artemis, que no caso não é sobre a futura missão à Lua, mas sim a primeira cidade lunar, fundada por um consórcio do Quênia. A cidade é formada por cúpulas com nomes dos astronautas da Apollo 11, cuja região de pouso virou atração turística. A vida não é fácil em Artemis. Nela, vive Jazz Bashara, uma jovem contrabandista de origem saudita que se vê envolvida numa intriga com a perigosa máfia… brasileira. Sim, o crime organizado brasileiro chegou à Lua. Artemis deverá ser filmado em breve.   

A LUA NO CINEMA

É estranho pensar que apenas em 2018 foi lançado um filme sobre essa que talvez seja a maior jornada do ser humano, desde que abandonou o continente africano e colonizou o planeta: O Primeiro Homem / The First Man, que conta a chegada do primeiro astronauta, o norte-americano Neil Armstrong, à Lua. Disponível na Netflix, o filme de Damien Chazelle, Oscar por La-La-Land (o que o capacitou para conseguir financiamento para a produção), focaliza a perspectiva humana da missão que mudou a história.

Pôster The First Man

Anteriormente, é significativo que apenas um filme importante sobre o projeto Apollo tinha sido produzido, e ainda assim sobre uma missão fracassada, que não chegou à Lua: Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo, de Ron Howard, com Tom Hanks, em 1995.

O próprio Tom Hanks também produziu, três anos depois, uma série para a HBO, Da Terra à Lua, contando em forma documental a história do projeto Apollo. Não por acaso, usou o nome do famoso romance de Júlio Verne, o primeiro com uma abordagem científica de como seria a viagem à Lua. Mas a série documental em 12 episódios foi baseada em sua maior parte no livro A Man on the Moon, do escritor Andrew Chaikin. É óbvio que Hollywood achou a segura missão Apollo XI e o frio astronauta Neil Armstrong, pouco tensos ou atrativos para uma aventura tão épica.

Outros filmes, antes de 1969, também abordaram a jornada ao satélite natural da Terra. O mais famoso (e um dos melhores filmes de todos os tempos), naturalmente foi 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, realizado um ano antes apenas, e que mostrava uma realidade que não se concretizou: o ser humano tem até uma base na Lua.

O filme, no entanto, prossegue muito além do satélite da Terra. Por outro lado, Lunar (Moon) feito exatamente 40 anos depois da alunissagem, dirigido por Duncan Jones, filho do roqueiro David Bowie, mostra com realismo um ótimo drama que discute conceitos mais profundos sobre a vida humana num lugar tão distante e solitário, num futuro indeterminado.

Os Primeiros Homens na Lua, adaptação do romance de H. G. Wells

Ainda sob o impacto da viagem em 1969, tivemos Gangster na Lua, produzido pela inglesa Hammer, o primeiro policial/faroeste espacial sobre a colonização lunar. Muito antes, tivemos Destino: Lua / Destination Moon (1950), baseado em obra de um dos papas da ficção científica, Robert Henlein. Ao contrário do realismo desse, no mesmo ano, Rocketship X-M mostrava que o primeiro voo tripulado à Lua seria desviado por uma inesperada chuva de meteoros e acabaria seguindo em direção ao planeta Marte (sempre ele), onde descobrem vestígios de uma antiga civilização destruída numa guerra nuclear e poucos sobreviventes bárbaros. Já Os Primeiros Homens na Lua (1964) foi adaptado do romance de H. G. Wells, onde astronautas vitorianos encontram uma civilização de insetos selenitas.

Claro que não apenas nos EUA e Inglaterra se viajava à Lua no cinema. Quatro décadas antes da chegada do primeiro homem, uma mulher chegou à Lua em Frau im Mond (A Mulher na Lua), filme alemão de 1929, produção, roteiro e direção de Fritz Lang, o mesmo do clássico Metropolis. O filme é baseado em novela da escritora Thea von Harbou. Mas a primazia da primeira viagem lunar coube mesmo à França, no filme de George Meliès, de 1902, Voyage dans le Lune, vagamente baseado em Verne e Wells.

THE FIRST MAN

O programa Apollo ainda continua a ser uma das maiores aventuras da humanidade, e o melhor filme feito sobre o feito histórico está disponível na Netflix: The First Man/O Primeiro Homem foi baseado na biografia de Neil Armstrong (Ryan Gosling), escrita por James R. Hansen, contando a história do engenheiro e piloto que se tornaria o primeiro homem a pisar na Lua.

De várias maneiras, o roteiro optou por tirar o glamour da conquista, enfatizando as dificuldades e sacrifícios que ela acarretou para os astronautas e cientistas envolvidos no projeto. Mesmo assim não foi uma jornada pouco dramática ou fatal. Ao longo de aproximadamente oito anos, de 1961 a 1969, candidatos a astronautas morreram durante os exaustivos testes de preparação para a missão Apollo, sem contar os protestos contra os altos custos durante a mobilização política contra a guerra do Vietnã e luta pelos direitos civis. A isso se soma o contexto da Guerra Fria contra a URSS, que de uma série de vitórias russas contra os americanos, perdeu a corrida final à Lua, após começar com as vitórias do lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, e o primeiro homem no espaço, Yuri Gagarin.

No filme, os dramas pessoais do astronauta e de sua mulher, Janet (Claire Foy), representam bem a humanidade de Armstrong, superando sacrifícios individuais e familiares em prol do objetivo maior, a missão espacial, passando ao largo de patriotismos e ideologias. São fantásticas e emocionantes as sequências reproduzindo o passeio na Lua de Neil Armstrong, seguido de Buzz Aldrin (Corey Stoll) e do piloto que não pisou no satélite, Michael Collins (Lukas Haas).

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Sidemar de Castro é escritor de literatura fantástica (principalmente ficção científica), roteirista e desenhista de quadrinhos nas revistas Calafrio e Mestres do Terror; atualmente trabalha, além de escritor, roteirista e ilustrador, na editoração e diagramação de livros, revistas e jornais; publicou contos e noveletas em mais de uma dezena de antologias impressas por editoras de Rio, São Paulo e Curitiba, além de uma revista francesa e tem na Amazon uma coletânea de contos: Memórias Pós-humanas de Quincas Borba e Outras Histórias Alternativas Muito Além do País do Futuro

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