O Vale Nerd – “O Legado de Júpiter” – Netflix, precisamos conversar!

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje estou aqui para reclamar com a dona Netflix. Todos sabemos o quanto a plataforma é popular, amada e importante para o mercado de áudio e vídeo. Ocorre que, já faz um bom tempo que suas produções deixaram de ser um sinônimo de qualidade e, caso ela não tenha notado, a concorrência está crescendo.

Sim galera, eu sei que a Netflix não é uma pessoa e quando refiro-me à “ela” dessa forma eu o faço como um meme, afinal é assim que os administradores das suas redes sociais se comunicam com o público. Na verdade, quem está por trás dos motivos de minhas reclamações são os executivos. Resumidamente, a minha reclamação é a seguinte: Tem muita coisa ruim sendo lançada, muita coisa boa sendo cancelada, resultando num catálogo gigantesco de produções genéricas e efêmeras.

Estive pensando nisso enquanto assistia ao seu novo “grande lançamento”, a série “O legado de Júpiter”, baseada na HQ de Mark Millar (com quem a Netflix fez um grande contrato há alguns anos) essa é mais uma tentativa da plataforma de estabelecer seu próprio conteúdo de quadrinhos já que os heróis da Marvel não estão mais à sua disposição. Mais do que isso, a série é também uma tentativa de fazer frente ao sucesso da Amazon Prime: “The Boys”.

Pensa, Netflix, pensa, a concorrência tá chegando. vocês não ouviram falar da Disney Plus?

Eu sei que essa não é a primeira produção baseada em quadrinhos da plataforma, antes disso já tivemos “The Umbrella Academy”, “I’m not ok with this”, dentre outras. O diferencial aqui, é o investimento feito em Mark Millar, um grande nome da indústria dos quadrinhos e autor de um dos maiores sucessos da Marvel (a HQ de “Guerra Civil”). O acordo com Millar envolve os direitos de adaptação dos quadrinhos publicados pela “Millarworld”, o selo próprio do autor. Para quem não conhece, essa editora lançou quadrinhos que já ganharam as telas no cinema em obras como “O procurado”, “Kick-Ass – Quebrando Tudo” e “Kingsman: Serviço Secreto”.

Razão pela qual essa parceria entre Netflix e Millarworld parece uma boa ideia, mas só até assistirmos a “O legado de Júpiter”. Quando vi a obra na tela eu tive a impressão de estar assistindo à uma nova temporada de “Os Defensores” (peguei pesado!). O fato é que a primeira temporada de Demolidor é uma obra prima e foi realmente inovadora ao apresentar um clima mais sombrio, violento e deprimente para um herói da Marvel. Entretanto, isso era apenas uma parte da série (Demolidor não era só violência de depressão), mas o que veio a seguir com Jessica Jones, Punho de Ferro, Luke Cage e até com O Justiceiro foi uma porca e mal feita repetição dessa “fórmula” violenta e depressiva.

Sejamos francos, Jessica passa mais tempo bebendo e sentindo pena de si mesmo do que realmente investigando. Luke passa mais tempo “evitando se envolver” do que defendendo o Brooklyn, Punho de Ferro faz de tudo na série (menos usar o punho), e o Justiceiro simplesmente parece ter trocado as armas pelas lágrimas. Essa visão menos heroica dos quadrinhos é interessante, mas não pode ser tudo o que a série tem a oferecer. Agora adivinha o que tem demais em “Umbrella Academy”, por exemplo? Exatamente: lamentações, choradeiras, depressão e super-heróis sendo tudo, menos heroicos!

Vamos apenas fazer uma pose heroica e filosofar sobre a importância da vida enquanto pessoas morrem aos montes nas ruas.

A minha teoria é de que essa “fórmula Netflix” tenha surgido em seu primeiro e enorme sucesso original “House of Cards”, uma série com desenvolvimento lento, contemplativo, protagonizada por uma pessoa de caráter duvidoso e cheia de momentos sombrios e deprimidos e violentos (ainda não superei a cena da morte no metrô). E minha outra teoria é de que essa fórmula foi inspirada em outro sucesso disponível na plataforma: “Breaking Bad”. Provavelmente a administração do site está querendo me matar por todas essas referências, mas calma, eu tenho um ponto! A questão é que “O legado de Júpiter” cria um excelente plot ao questionar: “Como os super-heróis da era de prata dos quadrinhos encarariam o mundo real, nos dias de hoje?”. Até aí ok, não fosse o fato de que toda experiência pode ser arruinada por essa insistência da Netflix em produzir conteúdos lentos, sombrios, violentos, deprimentes e nada heróicos.

A série em si, tem muitos bons momentos, eu particularmente gosto muito do arco de origem dos super heróis (que remete a algo no estilo Indiana Jones com enigmas, mistérios, aventuras e uma boa dose de sobrenatural), é interessante também os links entre passado e presente, como nos momentos em que são revelados parentescos de personagens, ou pontos misteriosos da trama atual. Temos também a cena de luta contra o Estrela Negra que é muito boa, na verdade é tudo muito diferente do que eu imaginava, eu estava esperando algo mais na linha de “The Boys” com muita violência e enredo nonsense. O que encontrei foi algo mais contido e focado na ideia de “o que faz os heróis serem super?”.

Questionar até onde podem ir os heróis e se eles estão ou não agindo à margem da lei foi algo que Mark já fez muito bem na HQ de “Guerra Civil” mas aqui ele parece se concentrar especificamente na questão da morte. Prender um vilão que matou milhares de inocentes e que provavelmente irá fugir para matar outros milhares é a decisão correta? Usar superpoderes como justificativa para decidir entre vida e morte tornando-se juiz, júri e executor é extrapolar os limites? A discussão é válida, não fosse o fato de que é repetida à exaustão durante toda a temporada, na verdade, Millar tenta ser tão didático nessas questões que batiza seu protagonista de “Utópico”, mais literal do que isso impossível.

Eu queria descer a porrada nos vilões, mas meu pai me colocou de castigo.

Algo que me incomoda muito são os uniformes estofados que parecem querer emular o estilo visual do “Universo Cinematográfico DC”. Claramente não funciona e o elenco não parece nada natural ou confortável dentro deles. Mas nada supera a maquiagem de envelhecimento, as perucas da Netflix não costumam ser boas, mas dessa vez eles se superaram. As rugas do elenco não tem nada de natural, os cabelos brancos estão terrivelmente falsos e as “perucas de barba” atingem o auge do estilo “papai Noel de shopping”.

Resumidamente, embora a ideia de heróis velhos carregando o peso de toda uma vida de combate ao crime e mudanças na sociedade seja boa, o visual do elenco não acompanha e tira completamente a imersão.

Se é para falar dos pontos negativos da série, os arcos individuais dos filhos do Utópico são completamente dispensáveis e absurdamente desinteressantes. Vamos combinar, ninguém aguenta ver adolescentes birrentos nas telas, mas a combinação do chorão sem amor próprio tentando obter a aprovação do pai a todo custo e da vida louca usando drogas até desmaiar é o ápice do clichê irritante.

É claro que essa matéria não estaria no Vale Nerd se não houvesse alguma menção ao universo LGBTQIA+ na série. E pelo tom do texto até aqui, vocês podem imaginar que não é nada bom. Pois é, parece que a produção da série estava tentando cumprir algum tipo de cota de personagem e colocou duas mulheres lesbicas para fazerem uma cena de sexo no meio de um episódio para absolutamente nada.

Salvar o mundo? Não, prefiro cheirar todo tipo de pó que eu encontrar…

As personagens mal aparecem na trama, a cena não acrescenta nada ao resto, ou seja, uma completa perda de tempo. Não estou dizendo que toda personagem do vale tem que ter o objetivo de levantar uma bandeira, bancar o militante, ou trazer discussões complexas à história, mas estamos em 2021, a discussão sobre Queer Baiting já está avançada demais para que se deixe passar uma falha como essa. Veja que em “The Boys” temos uma personagem lésbica que está entre as protagonistas e apresenta um drama pessoal por conta disso. Em “Invencível” temos uma personagem gay que está entre os coadjuvantes, mas que tem um papel bem definido na trama como melhor amigo do protagonista e até um episódio de destaque no qual vive um romance.

Em “O legado de Júpiter” duas mulheres aparecem fazendo sexo em uma cena completamente aleatória, sem nenhum propósito, sem nenhuma função narrativa, sem acrescentar nada à serie e ponto.

É por isso que eu quero “conversar” com a Netflix. Coisas como essa não podem mais acontecer, não se pode desperdiçar uma boa história de forma tão amadora. Não é possível que eles não tenham ouvido os fãs fazerem as mesmas reclamações nas séries da Marvel, em Umbrella ou mesmo em outras séries que não tenham a temática de quadrinhos. O tempo da experimentação já passou e a plataforma já deveria ter aprendido com os erros do passado. Todos esses defeitos citados poderiam facilmente ter sido cortados ou, no mínimo, amenizados. Se a série não é lançada semanalmente, qual o objetivo de enrolar tanto? Para que estender os episódios além do necessário? Não seria muito mais fácil fazer temporadas com menos episódios ou episódios de menor duração e focar somente no que é interessante?

Ho, Ho, Ho, Feliz Natal!

É claro que redes como HBO fazem séries com episódios de mais de uma hora de duração que também são cheios de drama e de contemplação, a diferença é que eles sabem fazer bem feito, ao passo que a Netflix parece fazer isso apenas para enrolar o público, ou para parecer cult. Qualquer que seja a opção, não funciona! Por isso creio que a senhora Netflix esteja precisando urgentemente de uma boa curadoria para escolher melhor seus investimentos.

Como novidade por si só, “The Boys” e “Invencível” obtiveram uma recepção muito melhor na Amazon. “O legado de Júpiter”, tinha tudo para ser uma excelente série, mas quando chegamos ao final da primeira temporada resta a impressão de que acabamos de assistir a 8 episódios de um prólogo para aquilo que será a verdadeira história, a história do supervilão. Sim, a Disney também lançou duas séries que não passam de prólogo para filmes vindouros: “WandaVision” e “Falcão e o Soldado Invernal”. A diferença é que com todo o MCU solidamente estabelecido, ela pode se dar a esse luxo. Ao passo que, quem pode garantir para a Netflix que o público vai voltar para uma segunda temporada de “O legado de Júpiter”?

E se você quiser conversar comigo, falar sobre todas essas séries, sobre os melodramas excessivos da Netflix. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a animação “Superman contra A elite”, um filme animado que discute exatamente a mesma questão sobre super-heróis poderem ou não matar os vilões, só que de forma muito mais rápida e objetiva. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e está disponível caso a Netflix precise de um consultor para roteiros de séries.

2 Comments

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Adorei seu ponto de vista, acho que você seria um ótimo consultor mesmo!!!!!!!

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