Por Lorena Soeiro

Amor, morte, robôs e muitos spoilers no texto a seguir.

Este show da Netflix é uma coleção de contos animados que abrangem vários gêneros, incluindo ficção científica, fantasia, terror e comédia. É como se fosse a “Liquid Television” nos anos 90 (programa de animação experimental da MTV) da geração atual. Porém além de inovar em técnicas de animação, ela propõe temas atuais e reflexões filosóficas, o que a torna bem interessante.

Na temporada atual apresenta fragmentos de caos, em oito episódios com cerca de 12 a 18 minutos cada, que revelam monstros, robôs com defeito, caçadores de recompensas e um membro fálico gigante. Mais uma vez, reina a ficção científica. É um ato dinâmico, poderoso, vindo de uma variedade internacional de estúdios de animação e efeitos visuais. Esta série, mais uma vez, oferece um leque feroz de animação que varia de 2D a 3D e CGI Hiper realista.

Acredito que esta temporada seja ainda mais estimulante que a anterior, pois todos os temas estão conectados. Todos os episódios falam de sobrevivência. Vou falar um pouco de minha interpretação de cada um deles:

Serviço automatizado ao cliente

Faça suas preces, aspirador de pó dos infernos!

Logo no primeiro episódio surge o medo de uma revolta dos robôs: “Serviço automatizado ao cliente” nos leva a uma cidade ensolarada administrada por seres autômatos, onde os residentes mais velhos parecem desfrutar de uma das comodidades vistas na nave do filme WALL-E aqui na terra, que vai descambar em um dos filmes do Exterminador do Futuro com direito a uma Sarah Connor no final. Em uma bela visão ensolarada temos a protagonista, seu pet e seu vizinho partindo em uma jornada para tentar sobreviver.

Ao meu ver o episódio inicial se conecta diretamente ao episódio “Gaiola de Sobrevivência” estrelado por Michael B. Jordan como um fuzileiro naval abandonado que deve lutar contra um droide de manutenção louco. Nenhum desses episódios são conceitos exatamente novos, mas um dos pontos fortes de Love, Death and Robots reside em uma liberdade que nutre a capacidade de nos mostrar histórias semelhantes com diferentes tons, texturas e animação. Ambas são fragmentos de uma grande história de luta pela sobrevivência humana.

Gelo

Vamos precisar de um barco maior…

Em um futuro onde muitos humanos são aprimorados com extraordinária força e resistência, a sensação é que os sem aprimoramento serão deixados para trás. Em “Gelo” seguimos a história de Sedgewick, um adolescente da Terra que se mudou para esse planeta gélido. Embora não explicado no show, ele não sofreu alterações genéticas que o deixariam com mais forca, agilidade e velocidade como o irmão, que sofreu a modificação. E isso causa conflitos com seus pais e seu irmão aprimorado, Fletcher.

Sedgewick quer se provar a família, mas, no fundo ele quer provar ser capaz a si próprio…então, em uma noite, sai com irmão para fazer coisas irresponsáveis com outros adolescentes aprimorados, como irritar baleias voadoras. Eles estão correndo com amigos, quando o irmão aprimorado se Machuca e corre perigo de vida. Os outros adolescentes aprimorados o abandonam, mas Sedgewick mesmo em desvantagem de força e velocidade é o único que salva o irmão, carregando-o até estar salvo. Mostrando que laços de família são muito fortes para a sobrevivência do ser humano, independente do planeta. Bônus é descobrirmos que Fletcher nunca se machucou, fez aquilo para forçar o irmão a se superar. Ver que ele sempre teve força dentro de si e que é capaz de qualquer coisa, ao contrário do que o pai o fazia acreditar.

É significativo que esse episódio apresente baleias, pois elas têm um forte laço familiar que lhes garante a sobrevivência.

Esquadrão do extermínio

Um futuro onde agentes da lei caçam pobres para garantir a vida longa e próspera dos ricos não parece ser exatamente ficção, não é mesmo?

Em “Esquadrão do extermínio” nós somos questionados sobre o que faríamos para conseguir a eternidade…Que preço estaríamos dispostos a pagar para obter tal privilegio?

Neste episódio seguimos Briggs, membro de esquadrão que deve perseguir e matar criancinhas. Afinal, para haver eternidade precisa-se gerenciar recursos, não pode haver aumento na população. Para contingência, logo no início do episódio, vemos Briggs assassinar crianças. Enquanto um garotinho lhe ergue um brinquedo de dinossauro, mostrando que assim como os dinossauros, os infantes estão em extinção.

Briggs é um policial e vive na classe média do lugar enquanto caça os pobres que insistem em se multiplicar. Mesmo assim ele namora Alice, membro da classe alta que desfruta de grande privilegio enquanto a classe inferior padece.

A figura do dinossauro é um tema recorrente no episódio e constante lembrete que Briggs está ao lado dos ricos, corroborando com a extinção dos mais pobres. Ele assassina crianças (talvez por isso vemos que ele tem um semblante mais velho, indicando que não é fã do tratamento de rejuvenescimento).

Ë perceptível que Briggs apenas atura aquela vida enquanto sua namorada ama seu estilo e tudo que pode desfrutar na imortalidade. O problema aqui é o de sempre: enquanto ricos desfrutam de um excelente estilo de vida, os pobres passam extrema dificuldade.

Aparentemente casamentos são proibidos nessa sociedade. Depois de um discurso sobre as vantagens da imortalidade, Alice retorna à festa, toda trabalhada no vermelho, Briggs olha suas mãos manchadas de sangue. Relação explicita dos ricos do local vivendo às custas da vida dos necessitados.

Pouco tempo depois Briggs sofre um atentado do pai das crianças e percebe de vez a crueldade de todo aquele sistema. Tomado de culpa ele vai à loja de colecionáveis onde o dinossauro foi adquirido. Lá a vendedora diz que esse brinquedo virou um item de coleção há 200 anos (tempo que aquela humanidade desenvolveu a vida eterna, pelo visto). Lá ele encontra Eve, que está comprando um mini trem. Segue-a e vê que ela possui uma filha e vai questiona-la por que ela se arrisca assim. Ela o explica que vive há mais de 200 anos e que já viu tudo que há para ver. Agora ela quer olhar as coisas pela perspectiva de vida da filha e não por olhos sem vida, como o de Briggs.

Adoro o arco de Briggs que está disposto a se sacrificar por aquilo que jurou destruir. Ele também está machucado (talvez prestes a morrer) e na cena final que lembra Blade Runner (para mim), ele derruba lágrimas sob a chuva, com olhos mais vividos e nos deixa com um final esperançoso. Um final que garante a sobrevivência de uma espécie que está em extinção.

Snow no deserto

Rapaz, como faz calor no Pará…

“Snow no deserto” é uma das animações mais belas que já pude assistir. Com um visual que lembra Mad Max e/ou Star Wars, mostra o futuro distópico mais belo do show.

Snow, que é um fora da lei em um planeta Hiper quente, com uma vultuosa recompensa por sua cabeça, está tentando fugir até que seu disfarce é descoberto em uma taverna, onde é atacado, resultando na perda de sua mão. Ele quase encontra seu destino, até ser salvo por uma bela mulher chamada Hirald. Ela pede para viajar com ele –  ele aceita mas responde que está cruzando a planície de Thiran, o que não é fácil.

Snow também explica porque um rico comerciante chamado Baris o quer; Hirald menciona que ela sabe exatamente o porquê – o corpo de Snow tem um hormônio único que torna suas células regenerativas. Ele não é apenas imortal, mas também pode regenerar membros perdidos. Hirald revela que ela trabalha para a Inteligência Central da Terra e que a organização quer que Snow decodifique seu sistema reprodutivo e, assim, controle o poder da imortalidade. (Outro tema recorrente do show).

A razão pela qual Hirald se recusa a matá-lo ou levá-lo como prisioneiro é porque a Central da Terra quer estudar e entender o fenômeno. Os dois voltam para a casa de Snow, onde rola um clima e os dois tem uma noite de amor.

No entanto, quando Hirald acorda, ela percebe que ele fugiu e que Baris os encontrou. Snow luta contra os capangas de Baris, mas está claramente em menor número. Sendo assim, Snow se prepara para morrer, apenas para Hirald intervir e salvá-lo, até que ela seja mortalmente baleada na cabeça.

Snow está quase inconsciente enquanto Baris se prepara para matá-lo, mas, de repente, Hirald aparece novamente e o salva. Em seguida, é revelado que ela própria é um humanoide sintético (por isso ela sabe a importância de estuda-lo). Tendo sofrido um grave acidente, ela perdeu a maior parte de seu corpo, mas seu cérebro e seu tecido nervoso permaneceram, agora presos a um exoesqueleto robótico. Ela revela que ela também está viva há muito tempo, assim como o próprio Snow, e os dois encontram consolo, e provavelmente o amor, sobrevivendo juntos.

Grama Alta

Acho que me afastar do trem e procurar por luzes fantasmagóricas é uma excelente ideia

Grama Alta ‘ é um episódio de animação 2d belíssimo. Que explora o sobrenatural, aquilo que não pode ser explicado, apenas deve ser evitado.

No meio da noite, uma locomotiva quebra ao lado de um campo de grama alta, um dos passageiros resolve andar muito longe, perseguindo um vulto, enquanto fuma um cigarro. No meio do mato ele se depara com um grupo de aterrorizantes criaturas mortais, e se vê na luta pela sobrevivência. Sabe que, se não chegar até o trem seu destino será virar um daqueles monstros, mas é salvo pelo mesmo condutor que prometeu que não iria espera-lo…

Embora não haja maiores explicações para o episódio, ele lida com nosso medo maior, o medo do desconhecido, daquilo que não pode ser explicado. Algo que desperta o nosso nato instinto de sobrevivência.

Pela Casa

A Coca Cola achou que um velhinho de barba branca e roupa vermelha seria melhor para a publicidade.

“Pela Casa” é um episódio que começa super fofo. A animação é em stop-motion, minha técnica favorita de assistir. Vemos duas crianças descendo as escadas com entusiasmo para tentarem ver o Papai Noel deixando seus presentes debaixo da árvore (quem nunca?). Ao invés disso, eles ficam cara a cara com uma criatura que parece ter saído do “Labirinto de Fauno”. É assustador como eram os contos de fada quando surgiram.

Adoro episódios como este que subvertem nossas expectativas e ainda me pergunto o que teria acontecido caso eles não tivessem sito bons….

O Gigante Afogado

Olha só o tamanho do … dele.

Esta temporada se encerra de forma intimista e bem existencialista.

Quando um humano gigantesco do tamanho de um celeiro apareceu na costa de uma cidade, ele muda a vida de todos daquele lugar e, em especial, a vida de Steven, um cientista local que observa as mudanças no corpo que está putrificando na praia, enquanto observa as mudanças dos moradores do local diante desse acontecimento.

As Falas do narrador são o destaque deste episódio, explorando a vida, a morte, a humanidade e até o conceito de moralidade. Há algo extremamente desconfortável em ver as pessoas caminhando sobre um cadáver gigante sem respeito pelos mortos. O irônico é que o gigante era mito antes do ocorrido e volta a ser mito após.

Dado a temática recorrente destes episódios fica o questionamento: Depois de tanto se falar em sobrevivência do ser humano nos episódios anteriores, realmente vale a pena salvar uma espécie que não tem respeito com os mortos?

Love, Death and Robots Volume 2 Não precisava de mais de oito episódios, embora sua primeira temporada tenha dezesseis. Um catálogo mais curto é provavelmente o melhor aqui, já que o grupo de histórias deste ano é coerente com a temática de sobrevivência que todos enfrentamos atualmente na pandemia. A série continua a ser um mix estimulante, divertido, colorido, eletrizante de maravilhas animadas e perversidade, que te farão pensar durante dias, como eu.

_________________________________________________________

Lorena Ferreira Soeiro é Professora tradutora de inglês, Nerd, DCnauta e sempre foi uma boa menina para poder ganhar presentes no final do ano

1 Comment

  1. Ed Persona disse:

    Não conhecia a série… Seu texto tá muito bom, como sempre. Bem didático, isso é muito bom, assim até quem não viu consegue entender e se motivar a ler. Parabéns Lorena.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *