O Vale Nerd – Attack on Titan – Um problema gigantesco

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e hoje resolvi falar um pouco sobre um dos maiores animes dos últimos tempos (sim, isso foi um trocadilho). Considerado por muitos como o “Game of Thrones” do Japão, o anime que pôs pequenos humanos para lutar contras os gigantescos Titãs, hoje vou falar sobre “Shingeki no Kyojin” (ou “Attack on Titan” como ficou conhecido no ocidente). A matéria terá pequenos spoilers necessários, pois sem eles não consigo discorrer sobre algumas personagens.

Antes de começar a falar sobre a animação, eu preciso adentrar um pouco na estética dos mangás e animês. É muito comum nesses programas que haja um uso recorrente de arquétipos nas personagens. Para nos atermos ao tema da coluna vou falar sobre as personagens que parecem ser do Vale, mas que nunca são confirmadas ou mesmo trabalhadas de forma clara.

Quem não se lembra das personagens andróginas de “Cavaleiros do Zodíaco”? De cabeça eu posso citar Misty de Lagarto, Shun de Andrómeda, Afrodite de Peixes, ou do suposto relacionamento entre Kurama e Hiei em “Yuyu Hakusho”. Esse tipo de situação foi utilizado de forma recorrente pelos mangakás durante muito tempo, tanto que os otakus até se acostumaram com eles e passaram a enxergar como simples clichês de animê.

Shun de Andrômeda, você pode duvidar de muita coisa sobre ele, mas não que ele era capaz de dar uma surra na maioria dos cavaleiros

Acontece que “Shingeki no Kyojin” não é um mangá comum. Reza a lenda que, quando o criador Hajime Isayama tentou levar a ideia à primeira editora, ele teria ouvido do executivo “Isso aqui não é shounen, isso aqui é mangá!”. O que aqui no ocidente poderia ser entendido como “isso não é uma histórinha comercial para garotinhos, isso é uma verdadeira obra de arte”. Verdade ou não, o fato é que ele realmente recebeu um não antes de conseguir uma casa para publicar a história. O quadrinho foi um enorme sucesso de público e crítica, e como era de se esperar, ganhou as telas na forma de animê, repetindo o mesmo sucesso que havia alcançado com o mangá. Basta assistir ao primeiro episódio da animação para notar que “Shingeki no Kyojin” não é um animê comum (eu já disse isso? Bem, não é mesmo!).

No âmbito da representatividade, um certo diálogo entre duas personagens me chamou a atenção. Resumidamente a personagem feminina diz algo como “E eu achava que você jogava no outro time!” e a personagem masculina responde “Que eu saiba, quem não gosta de homem aqui é você!”. É uma fala horrenda, carregada de preconceito que deve ser execrada, mas que está dentro de um contexto (é o típico diálogo ofensivo entre soldados), mas o que realmente me chamou a atenção, foi ver o tópico da sexualidade sendo discutido às claras, sem rodeios, sem insinuações. Mais a frente veríamos a personagem Ymir (sem sobrenome mesmo) falando claramente que seu único arrependimento era de não ter se casado com Historia Reiss.

Reiner Braun e Bertholt Hoover, são um casal em “Attack on Titan”, embora ninguém diga com todas as letras

Sem dúvida, um avanço. No mangá temos até uma personagem de gênero fluido, mas que no animê foi transformada em mulher. Também é óbvio que Reiner Braun que afirma claramente “não se interessar por mulheres” e Bertholt Hoover são um casal, embora nesse caso nada seja dito de forma explícita (não se pode ter tudo na vida).

Falar de “Attack on Titan” sem ressaltar o quanto a obra está acima de outras produções é até injusto. A qualidade da animação é simplesmente deslumbrante, o traço das personagens é bastante incomum e cada um dos soldados possui características únicas, bem como os terríveis Titãs com seu visual perturbador e cuidadosamente diferenciado.

A mescla que se faz entre animação por computador e animação tradicional funciona muito bem, nada destoa. As cenas de ação apresentam coreografias espetaculares com movimentos rápidos, porém fluidos que privilegiam o tom épico da batalha. Os cenários são verdadeiras obras primas, a geografia do local é muito bem pensada e os efeitos utilizados para compor os locais são de cair o queixo, as texturas, a iluminação, a paleta de cores, as nuvens. Tudo, absolutamente tudo, é lindo. Não por acaso a animação está em desenvolvimento desde 2013 e tem apenas quatro temporadas (tamanha perfeição demora).

Tenho que confessar que não foi logo de cara que o anime ganhou minhas graças. De início me parecia que, exceto pelo visual deslumbrante e pela quantidade exorbitante de sangue e gore, nada ali fugia muito de um shounen de luta convencional.

É a história de Eren Yeager, um garoto que perde alguém querido, jura vingança, treina muito e torna-se o melhor de todos em batalha. Toda a genialidade da qual sempre ouvira falar, parecia apenas fruto de um bom planejamento. Um grande universo havia sido construído, mas só tínhamos acesso a uma pequena fração dele, então cada nova informação a respeito desse universo é apresentada de maneira épica, e quando digo épica eu quero dizer realmente épica. Com uma grande cena surpresa, com uma enorme destruição, com uma trilha sonora tocada no máximo volume, com personagens gritando, tomando atitudes inesperadas, com enormes discursos motivacionais.

Eren Yeager, tacando o terror em “Attack on Titan”

Tudo parecia apenas uma forma de ludibriar o público com uma fórmula bem simples, característica da prestidigitação: uma informação é apresentada, você a toma como verdade absoluta e então, tá-dã, um elefante surge no palco. É assim no anime, de início sabemos que a humanidade foi praticamente extinta pelos gigantes conhecidos como Titãs, que podem atingir até quinze metros de altura e devoram humanos. Para se proteger, humanidade restante se escondeu atrás de muros de cinquenta metros, até que um dia, tá-dã, surge um Titã de sessenta metros que causa uma enorme destruição e põe abaixo tudo aquilo que se acreditava ser verdade. Isso acontece várias vezes durante todas as temporadas, frequentemente associada à morte de alguma personagem importante.

Com um clima medieval, uma enorme muralha, seres muito parecidos com zumbis (mas com algumas características diferentes), um elenco gigantesco e morte de personagens importantes, a comparação com “Game of Thrones” é inevitável. Talvez a maior diferença seja a substituição dos elementos de magia pelos de Steampunk. Cá entre nós, por mais que eu ame Steampunk, não há como negar que isso deixa o anime muito menos crível do que GOT.

Mas a grande problemática de “Shingeki no Kyojin” mora justamente no conhecimento de mundo. Aquilo que parecia ser apenas um truque de roteiro para surpreender o público é parte essencial da história, o fato de ninguém saber exatamente o que acontece naquele universo – nem as personagens e nem o público – faz com que tenhamos conhecimentos insuficientes para acreditar em qualquer tipo de maniqueísmo. De fato, acreditamos que os Titãs são apenas maus e que os soldados são bons, e quando o protagonista afirma que irá matar todos os Titãs do mundo para vingar a morte de seu ente querido e salvar a humanidade, nós acreditamos que ele esteja fazendo a coisa certa.

Tá-dã, eu tenho sessenta metros e vou devorar todos vocês!

Entretanto, tem muito mais coisas por trás desse objetivo simplista, coisas das quais não temos conhecimento e que podem mudar tudo. Esse é o problema de acreditar no que é dito em vez de questionar, procurar saber mais a respeito, verificar outras fontes ou mesmo colocar a informação em suspenso em vez de tomá-la como pura verdade. Isso gera a raiz do que definimos como pré-conceito, até onde se sabe, as pessoas que vivem naquele local nunca viram a extinção da humanidade, o surgimento dos Titãs ou sequer conhecem o que há no mundo fora daqueles muros.

Mais adiante, o animê nos mostra que a manipulação da verdade pode gerar verdadeiros desastres. Desastres muito parecidos com as tentativas de eugenia e genocídio ocorridas na história da humanidade, e foi só nesse momento que eu pude apreciar toda a grandiosidade desse desenho japonês tão cultuado e amado no mundo todo. Não acompanho o mangá e por isso ainda não sei o final da história mas posso garantir que se encaminha para algo realmente surpreendente.

Muito além de qualquer shounen que eu já tenha visto, essa não é uma história sobre heróis que alcançam a glória matando o inimigo. É uma história sobre pessoas aprendendo que não há vitoriosos na guerra, que o mundo é maior e mais complexo do que acreditamos ser. Sobre pessoas vivendo um ciclo interminável de ódio, sobre pessoas sendo doutrinadas a odiar. É uma história sobre pessoas enfrentando um problema gigantesco e sem o conhecimento adequado para isso.

Você só acha que sabe a verdade…

Talvez seja uma metáfora sobre a vida adulta e sobre como as crenças podem guiar o nosso comportamento para o bem ou para o mal, ou pior, para o entendimento de que existe algo além do bem e do mal.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre sobre a temporada final de “Shingeki no Kyojin” que estreou em 2020 só para descobrimos que, tá-dã, foi dividida em duas partes e ainda temos que aguardar até 2022 para ver o fim da temporada final. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a plataforma Crunchyroll, um streaming de animes com produções clássicas e produções originais que você pode conhecer sem pagar mensalidades (se estiver disposto a ser interrompido pelos irritantes anúncios que surgem três ou quatro vezes por episódio). Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, tentaria dialogar com os Titãs e morreria devorado.

3 Comments

  1. Carlos Morgilli disse:

    Anime muito bom mas com um final fraco, como você mesmo disse ele pode ser comparado ao “Game of Thrones” até nisso eles se parecem kkkkkk.

    • Everton Nucci disse:

      Kkkkkk obrigado pelo comentário Carlos. Eu só acompanho o animê, vc já leu o final no mangá?

  2. Julie disse:

    ????????????????

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