Por Will Nygma

Uma das maiores vilãs da história está de volta aos cinemas, mas desta vez quem fica a cargo de substituir tamanha grandeza é Emma Stone (La La Land). Uma senhora responsabilidade, pois Cruella ganhou mais notoriedade pela brilhante e estonteante interpretação de Glenn Close (Ligações Perigosas), campeã de indicações ao Oscar e vencedora de diversos prêmios como melhor atriz antes e depois de dar vida a terrível vilã odiada pelas crianças por judiar de dóceis cachorrinhos e outros animais para fazer casacos de pele em 101 Dálmatas, adaptado do romance infantil da inglesa Dodie Smith, lançado em 1956.

A trama original segue o sequestro de dezenas de filhotes de dálmatas e dos filhotes do casal Pongo e Missis. A adaptação animada é bem fiel ao livro.

O filme de 1996 com Glenn Close se tratava de uma adaptação em live action do filme animado lançado em 1961, a maior bilheteria nos Estados Unidos, arrecadando 102 milhões de dólares (algo em torno de 547 milhões de reais hoje), já a adaptação de 1996 faturou mais de 320 milhões, o que até rendeu uma continuação mais focada na vilã em 102 Dálmatas de 2000 que faturou um pouco mais de 183 milhões, mas que mesmo assim se tornou um grande sucesso, fazendo com que Glenn Close ficasse conhecida como a personagem Cruella até hoje.

As diversas encarnações de Cruella no cinema

Dados esses fatos, como utilizar a vilã novamente nos cinemas sem sua diva? Oras…recontar…ou melhor…contar suas origens, nunca exploradas antes, e colocar atores mais jovens para viver os personagens, o que está muito em voga ultimamente em Hollywood por falta de boas ideias.

O jeito é faturar em cima do que deu certo antes, e nem sempre isso é positivo, na maioria das vezes o tiro sai pela culatra, mas parece que desta vez o novo filme tem tudo para dar certo, ainda mais com o streaming, pois em meio a uma pandemia será difícil bater o sucesso dos antecessores com a maioria dos cinemas fechados ou funcionando pra poucos adeptos no meio deste caos repleto de incertezas.

Mesmo assim o filme estreia no cinema e simultaneamente na plataforma Disney para alugar para quem não quiser sair de casa (mesmo com um precinho salgado, afinal, não adianta ser assinante do Disney Plus, é preciso pagar uma taxa extra de mais de 50 reais para assistir ao filme), ou aguardar ate julho, quando o filme estará disponível para todos os assinantes sem taxas adicionais.

Cobrar 50 reais de quem já é assinante pra assistir um filme é que é crueldade

Mas a grande questão é: vale a pena esse esforço todo, se arriscar a ir ao cinema ou pagar para ver em casa mesmo? Acredito que o filme entrega exatamente o que ele se propõe no trailer. Desafiador, porém nada original, ele entrega o entretenimento com qualidade, com ótimos personagens pertencentes ao clássico original, além de Cruella, retornando em novas roupagens, assim como seus atrapalhados ajudantes Horácio e Gaspar, entre outros, para os fãs mais atentos, que não estragarei a surpresa aqui, mas estão todos lá, sendo conduzidos por um roteiro ágil, divertido, dramático quando tem de ser e extremamente exagerado, como um desenho animado, cheio de personagens caricatos e situações absurdas que são mostradas com tamanha personalidade e perspicácia que é possível embarcar nessa terrível aventura de mais uma vilã da Disney que assim como “Malévola” de “A Bela Adormecida”, ganhou seu filme de origem, de uma maneira estonteante, com uma trilha sonora maravilhosa, com clássicos da musica pop inglesa, figurinos espalhafatosos como deveria ser e, claro, alguns dálmatas para enfeitar o ambiente e facilitar a identificação do público.

Quem rouba mesmo a cena são dois “vira latas” muito carismáticos e espertos, além, é claro, de Emma Thompson como a Baronesa, a grande antagonista da história, que precisa sobressair a vilania de nossa protagonista e Mark Strong (Shazam) que está brilhante como o “fiel” mordomo, que também é maravilhoso em todos os momentos que aparece, pois o ator é tão brilhante que se destaca até em filmes ruins, como seu caso vivendo Sinestro em “Lanterna Verde” 2011.

Claro que eu estou bem em Cruella, eu estava bem até no filme do Lanterna Verde

CRUELLA SEMPRE FOI CRUEL???


Emma Stone também está maravilhosa no papel principal e representa muito bem as duas personalidades da nossa grande vilã, fazendo o expectador torcer por suas malvadas ações, todas, claro, bem justificadas para não pesar a consciência dos mais conservadores, o que torna tudo meio que deixando claro o quanto tomaram cuidado na abordagem, impregnando o bom senso do expectador, seja positivamente ou negativamente, para não ter problemas com o politicamente incorreto, o que não é nenhum problema, mas talvez algo que se não fosse levado tanto em consideração, poderia deixar o filme um pouco menos obvio e verdadeiramente chocante e maléfico, para justificar a maldade de nossa protagonista.

Stone foge totalmente da doçura de suas personagens, como em “La La Land”, a inteligente e amorosa Gwen Stacy dos dois filmes de “O Espetacular Homem Aranha” com Andrew Garfield, a rebelde filha de Michael Keaton em “Birdman” ou “A Inesperada Virtude da Ignorância”, onde foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Então com uma carreira promissora destas não tinha como dar errado, e ela entrega o que lhe compete, uma interpretação um pouco mais contida que a histeria do desenho animado, usada a exaustão por Glenn Close, com a atriz mostrando um pouco mais de humanidade, obviamente também muito bem conduzida pela direção de Craig Gillespie de outras ágeis produções como o remake de “A Hora do Espanto” (2011), “ Em Pé de Guerra” (2007) e o mais recente “Eu, Tônia” (2017).

Chega mais pertinho Will, que eu te mostro a minha interpretação mais contida!

E pra costurar tudo (sem trocadilhos) uma maravilhosa trilha sonora bem rock and roll com pitadas de jazz e referências a David Bowie, começando pela música e passando para o visual do personagem Artie de John McCrea (“Todos Estão Falando de Jamie” 2018) dono de uma loja de roupas vintage em Londres, com um pouco de representação LGBTQI+, além de Queen, Iggy Pop, The Stooges, The Beatles, The Doors, Supertramp, Nina Simone, Blondie, The Clash, Bee Gees, Tina Turner, entre muitos outros clássicos onde o filme praticamente abre e fecha com Rolling Stones além da famosa canção “Call Me Cruella” que também conta com uma versão de Florence + The Machine.

Original, apelativo ou não, vale uma conferida, e se for no cinema, fica melhor ainda, mas para os que verão de casa mesmo, a dica é aumentar bem o som para curtir com mais emoção.

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Will Nygma é Ator, cantor, performer, roteirista e diretor de teatro e cinema. Formado em Produção Audiovisual e Teatro, estudou letras, música e crítica de cinema. Nerd convicto, cosplay vencedor por 6 anos consecutivos na CCXP, também é um ávido colecionador de filmes e action figures e criador dos filmes dos Maníacos De Arkham, além de especialista no universo do Batman e em fazer imitações de cantores, personagens de desenhos animados e dos professores na época de escola.

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