Discutindo sobre Justiça em Star Trek: The Next Generation.

Por Fernando Fontana

O sétimo episódio da primeira temporada de “Star Trek: The Next Generation” recebe o apropriado nome de “Justiça” e, embora não chegue a se aprofundar no tema, permite algumas reflexões e muitas questões, assumindo que sua mente não esteja fechada para o debate por alguma ideologia que alegue possuir todas as respostas.

Ele começa com a Enterprise em órbita de um planeta classe M (semelhante à Terra, que permite a existência de vida), cuja população é descrita para o comandante Picard (Patrick Stewart) como extremamente amigável, selvagens em alguns costumes, mas puritanos em outros, com leis e costumes bastante simples.

Com a Dra. Crusher (Gates McFadden) insistindo em uma licença para a tripulação, exausta graças às missões anteriores, Picard decide enviar um pequeno grupo para avaliar melhor as possibilidades de descanso no planeta. Os escolhidos para esta agradável missão são o segundo em comando William Riker (Jonathan Frakes), Tasha Yar (Denise Crosby), Worf (Michael Dorn), Wesley Crusher (Wil Wheaton) e Deanna Troi (Marina Sirtis).

O grupo encontra um planeta que lembra uma espécie de paraíso terreno, tanto em sua natureza idílica quanto em sua população, com homens e mulheres ostentando corpos perfeitos e trajes mínimos, preocupados quase que inteiramente em se divertir e fazer amor em qualquer hora e em qualquer lugar (onde exatamente eles seriam puritanos???).

A tripulação da Enterprise bastante tentada a ficar no planeta

Como todos nós sabemos, quando algo parece ser bom demais para ser verdade, é porque geralmente é bom demais para ser verdade. Enquanto todos estão se divertindo – com exceção de Worf que considera as fêmeas humanas frágeis demais para o amor Klingon (obviamente ele nunca ouvir falar de Gracyanne Barbosa) – a tenente Yar conversa com nativos do planeta e tenta descobrir como o planeta atingiu o estágio onde se encontra, particularmente no que diz respeito a ausência de crimes, uma vez que sequer existe uma força policial visível.

Ela é informada que muito tempo atrás o planeta vivia em desordem, mas foi estabelecida uma nova lei, com uma única punição para qualquer tipo de crime: Morte! Sim, qualquer tipo de crime, desde estupro e assassinato premeditado até jogar lixo na rua e entrar na fila do caixa rápido com mais de vinte volumes, todas tem a mesma sentença, sem exceções.

Já posso até ouvir o pequeno Mussolini que existe dentro de alguns leitores dizendo: é isso, aí sim as coisas funcionam, por isso o lugar virou um paraíso terrestre, Pena de Morte para quem compra jogos piratas no camelô da esquina, porém, entretanto, todavia, há algumas características no planeta que merecem nossa atenção.

Primeiro, parece não haver divisão por classe social no planeta (ele disse classe social? Maldito comunista!), já que todos trabalham e se divertem ao mesmo tempo, não vemos quem construiu os edifícios ou produz os alimentos, isso sequer é mencionado, mas não há nada que nos leve a crer que existam milionários enquanto outros vivem na pobreza ou na miséria, e um sistema que perpetue essa desigualdade. Em um cenário assim, parece bem mais fácil acatar as leis sem que haja revolta. Se eu vivo bem, comendo, bebendo, me divertindo e fazendo amor, por qual razão eu iria querer derrubar o governo ou pisar na grama sem que fosse permitido? Qual dois dois elementos é de fato o responsável pela vida pacífica dos habitantes, a pena de morte ou o bem estar geral da população? E esse bem estar foi alcançado por causa da pena de morte?

O comandante Picard observa o Deus que orbita o mundo paraíso.

Wesley, sem saber das leis rígidas, acaba pisoteando flores por acidente, e é condenado à morte, o que dá inicio a um sério problema entre a Enterprise e os habitantes.

A primeira diretriz da Frota Estelar determina que os seus membros não interfiram com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade visitada por uma de suas naves, o que inclui o respeito pelas suas leis. Ao mesmo tempo, obviamente, Picard não está disposto a permitir que o jovem Wesley seja morto por ter pisoteado flores por acidente.

Nasce um debate, ainda que sem alcançar grande profundidade, sobre a necessidade de se matar para atingir uma sociedade pacífica. Os habitantes dizem que só vivem em harmonia porque qualquer crime é punido da mesma maneira, e que isso tem funcionado por gerações, enquanto Picard os informa que a sociedade terrestre abandonou a pena capital há muito tempo, desde que aprenderam a identificar a origem do comportamento criminoso.

Por que tá todo mundo me olhando desse jeito estranho?

Outro aspecto a ser levado em consideração é a crença dos habitantes em um deus que os protege e os pune, caso se revoltem e causem distúrbios. Essa crença é justificada, já que, de fato, há um “deus” orbitando o planeta. A Enterprise detecta a presença de uma nave desconhecida, que habita duas dimensões ao mesmo tempo, sendo uma delas a nossa. Desta nave surge uma “consciência” tão poderosa, que a própria voz faz a nave estremecer, exigindo que Picard explique o motivo de sua presença e ordenando que não interfira com o modo de vida de seus “filhos”.

Perceba que, além das leis “terrenas”, a justiça divina aqui funciona de forma implacável, com efeitos visíveis, palpáveis, e não em uma futura vida após a morte, tornando-se mais um motivo para a obediência. Ao mesmo tempo, com a Enterprise incapaz de enfrentar o “deus” que orbita o planeta, cabe à Picard dialogar e convence-lo de que as leis terrenas são sábias, o que ele consegue através do seguinte monólogo:

“Não sei como comunicar isso, ou mesmo se é possível, mas a questão da justiça tem me preocupado muito ultimamente. E digo a qualquer criatura que esteja me ouvindo, que não pode haver justiça enquanto as leis forem absolutas. Até a própria vida é uma prática de exceções”.

Fala que é completada por Riker: “Quando a justiça foi tão simples quanto um livro de regras?”.

A roupa dos policiais do planeta é, no mínimo, curiosa

Por se tratar de um episódio de 45 minutos, não há, como já dito anteriormente, possibilidade de se estender ou se aprofundar no assunto, mas “Justiça” deixa alguns questionamentos interessantes no ar. Cada vez mais vemos pessoas clamando por leis mais severas, entre elas, a pena de morte, como maneira de coibir a criminalidade e criar uma sociedade mais segura e harmoniosa.

Seria este o grande problema da sociedade? Os criminosos não sentem medo de serem presos e irem para a cadeia? Se a pena de morte fosse estabelecida para crimes graves, ou, até mesmo para crimes menos graves, como furto ou o ato de pichar uma parede, as pessoas iriam parar de violar as leis? E no caso de uma lei injusta, ou como Picard disse, uma exceção onde o criminoso violou uma lei por uma “boa razão”, uma não especificada na lei, devemos executá-lo?

O que seria mais eficiente para diminuir a criminalidade, leis cada vez mais severas, ou uma sociedade com bem estar social cada vez maior para seus habitantes, com moradia digna, alimentos, educação e lazer para todos?

Deixo para vocês refletirem sobre quais são as respostas para estas perguntas, mas digo desde já que episódios como “Justiça” são um dos motivos para eu gostar tanto de Star Trek – The Next Generation.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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