Sweet Tooth: O Apocalipse chegou e para variar, os humanos são os vilões

Por Fernando Fontana

Na última semana estreou na Netflix a série Sweet Tooth, baseada nos quadrinhos escritos por Jeff Lemire, publicados pelo selo Vertigo da DC Comics em 40 edições entre 2009 e 2013, ganhando elogios de público e crítica, na direção oposta de “O Legado de Júpiter”, outra produção baseada em quadrinhos e que chegava com grandes expectativas.

Na trama, mais atual impossível, um vírus letal chamado apropriadamente de “flagelo”, surge com velocidade assustadora, causando a morte de bilhões de pessoas e quase colocando um fim na humanidade. Ao mesmo tempo, sem qualquer explicação, nascem os híbridos, com características de humanos e animais dos mais diversos tipos, imunes ao vírus.

Acompanharemos a história de Gus (Christian Convery), um híbrido especial, metade cervo, que foi criado pelo pai na floresta, longe do que restou da humanidade, resultando em uma criança bondosa e ingênua, livre da ganância e do egoísmo pregado de muitas formas pela sociedade moderna, uma espécie de Emílio de Rousseau com chifres.

Sweet Tooth e seu pai que o criou na floresta, longe da influência da sociedade.

O motivo para o pai (Will Forte) manter Gus afastado da sociedade é que, mais uma vez, sem qualquer comprovação científica ou lógica aparente, os seres humanos restantes decidem que os culpados pelo flagelo são os híbridos e começam a caça-los. Sim, um exército autodenominado “os últimos homens” caça e mata crianças híbridas, baseados na “FakeNews” de que eles são os responsáveis e transmitem a doença.

Seres humanos como grandes vilões de cenários apocalípticos não são novidade, quem assistiu filmes de zumbis ou a série “The Walking Dead” sabe que o grande perigo não são os comedores de cérebros, mas sim os seres-humanos, capazes das piores atrocidades em busca de sobrevivência e poder.

Essa selvageria não é necessariamente aparente, mas está lá, como na espécie de condomínio onde moram o Dr. Singh (Adeel Akhtar) e sua esposa, Rani Singh (Aliza Vellani), cercados por vizinhos bem vestidos, gentis e sorridentes, mas que ao menor sinal de que uma pessoa está contaminada com o vírus, incendeiam sua casa com ela dentro, enquanto do lado de fora comem bolo e cantam “Auld Lang Syne”, música normalmente cantada em países de língua inglesa para comemorar o início do ano novo, e que, ironicamente, fala sobre amizades antigas que não devem ser esquecidas.

E se o mundo está complicado para os seres-humanos e para os híbridos, para os animais e para a natureza, vai muito bem obrigado, com a água e o ar mais limpos, a vegetação tomando o cenário urbano enquanto zebras e girafas correm e se reproduzem livres. Aliás, já dizia o saudoso Agente Smith em Matrix: “vocês vão para uma área e se multiplicam, se multiplicam até que todas as reservas naturais sejam consumidas, a única forma de sobreviverem é mudando para uma outra área. Há um outro organismo neste planeta, que segue o mesmo padrão, sabe o que é? Um vírus”.

Tommy Jepperd, ou o “Homem Grande”, interpretado por Nonso Anozie em Sweet Tooth

Neste cenário, com caçadores de híbridos espalhados pelo mundo, Gus perde o seu pai, e precisa abandonar sua cabana na floresta, iniciando uma jornada em busca de sua mãe. Para isso, ele contará com a ajuda de Tommy Jepperd (Nonso Anozie) ou, como Gus o chama, “Homem Grande”, um ex jogador de Futebol Americano, que tenta sobreviver na nova realidade. Jepperd, a princípio, como era de se esperar, recusa a companhia de Gus, ou, como ele o chama, “Sweet Tooth” (Bico Doce), mas acaba sendo conquistado pelo garoto.

Além de fotografia e trilha sonora belíssimas, o trunfo principal de “Sweet Tooth” está em sua dupla de protagonistas, com a qual o público rapidamente se identifica. A amizade entre o Grande Homem e Gus não surge do nada, de forma gratuita, mas é construída com o decorrer da série, e é impossível não se comover com um objetivo tão nobre, procurar e encontrar a mãe de um garoto que acabou de perder o pai.

Quando Jepperd arrisca a vida para resgatar o cão de pelúcia de Sweet Tooth, você acredita na cena, porque o cão tem o cheiro do pai, e é a última lembrança dele. Aliás, “grande homem”, o apelido dado por Gus para Jepperd, claramente tem um duplo sentido que não se atém ao tamanho do corpo, mas da sua alma.

Se existem muitos seres humanos maus, alguns poucos demonstram toda a grandeza que pode ser alcançada pela alma humana, quando ela assim o deseja.

NEIL SANDILANDS como GENERAL STEVEN ABBOT e SARAH PEIRSE como Doutora BELL em SWEET TOOTH Cr. KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX © 2021

Por fim, a vilania dos “Últimos Homens” precisava de um rosto para encarnar a maldade, e ela é muito bem representada por Neil Sandilands, interpretando o seu General Steven Abbot, cujo objetivo é derrotar o vírus para salvar a humanidade. A questão é, se a humanidade salva por Abbot tiver figuras como ele como líder, talvez não compense o crime, talvez o mundo deva ser deixado para os híbridos e para os animais.

Caso você não tenha assistido e esteja em dúvida, indicamos sem medo esta nova e apaixonante fábula da Netflix.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra Homem”, é criador deste site e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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