O Vale Nerd – “A família Mitchell contra a revolta das máquinas” – um aceno ao vale

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e amo desenhos animados, inclusive já escrevi sobre alguns deles aqui. Como não sou lá muito criterioso já falei de coisas mais familiares e inocentes do tipo “She-Ra e as princesas do poder”, mais jovens e cheias de ação como “Avatar, a lenda de Korra” e até mais adultas cheias de erotismo e violência como “Castlevania”. Para reiterar essa falta de critério resolvi escrever sobre uma comédia em computação gráfica. Hoje vou falar de “A família Mitchell e a revolta das máquinas”.

A animação que estreou recentemente na Netflix e figurou na lista dos mais assistidos da plataforma reúne uma equipe de peso que tem em seu histórico a série “Gravity Falls”, os filmes “Uma aventura Lego” e o oscarizado “Homem-Aranha no Aranhaverso”. É uma comédia familiar extremamente moderna, que parece ter como público alvo a Geração Z (da qual eu realmente não faço parte).

O filme tem uma excepcional capacidade de te fazer gargalhar e relaxar nesses períodos mais deprimidos, assisti-lo no domingo à tarde foi a melhor decisão, é simplesmente hilário. É preciso saber, entretanto, que trata-se de um tipo de humor bastante peculiar, tanto o roteiro quanto as piadas são incrivelmente ágeis, é tudo muito drástico e muito instantâneo, é tudo muito memético.

Memético é da geração de vocês?

A trama gira em torno da personagem Katie Mitchell, a filha mais velha da família (que no original é dublada pela atriz bissexual Abbi Jacobson). A garota tem como sonho ser animadora e passa seu tempo desenvolvendo filmes para a internet com a ajuda de seu irmão e de seu cão (uma atração à parte), tudo o que ela quer no momento é ser aceita na faculdade para “encontrar sua tribo” e deixar de se sentir estranha e deslocada.

Se você é do Vale, vai facilmente conseguir se identificar com a sensação, a personagem não é dublada por uma atriz bissexual por acaso, a própria Katie é do Vale e isso fica bem claro no final do filme. Sim, a revelação vem só no final e normalmente eu diria que isso é spoiler, mas considerando que a sexualidade da personagem fez parte até das campanhas de marketing eu creio que não haja mais spoiler envolvido (Katie aparece utilizando um broche de arco-íris logo na primeira imagem de divulgação). Mas além disso, se você prestar o mínimo de atenção verá que o filme não faz segredo disso em momento algum.

Quando fui assistir ao filme eu já tinha essa informação e pude notar tanto a sensibilidade quanto a naturalidade com a qual o assunto é tratado. Enquanto narra a própria história, a protagonista fala sobre o quanto demorou a se descobrir, quando fala de sua ansiedade por chegar à faculdade, ela fala claramente que tem uma garota muito legal que ela conhece da internet e que quer encontrar pessoalmente. Como já disse, se você é do Vale vai se identificar com a sensação, vai  conseguir notar todas as referências e toda a sutileza nas mensagens, enquanto se delicia com os absurdos da aventura.

Oh, meu Deus, eu apareci no Vale Nerd.

O fato da garota trabalhar com vídeos para web também não é uma escolha gratuita, quando você assistir irá notar a peculiaridade visual apresentada pela animação. Há um misto de animação em três dimensões com inserções de detalhes e interações em duas dimensões (lembram muito os emojis e stickers usados em stories). Tudo feito para remeter à linguagem de tik-tok, instagram e qualquer que seja a outra rede social do momento para qual eu sou obviamente velho demais para fazer parte. Isso traz uma identidade única à animação, ao mesmo tempo que pode afastar alguns espectadores.

Toda essa modernidade e agilidade pode soar frenética demais, e se você não faz ideia do que é um meme, uma assistente virtual, ou a diferença entre um porco, um cão e um pão de forma, poderá perder grande parte das piadas e acabar torcendo o nariz.

Com um roteiro absurdo, uma linguagem única, e um visual ainda mais, “A família Mitchell contra a revolta das máquinas” me arrancou gargalhadas e conseguiu me deixar uns dez quilos mais leve. Fazendo uso de muito humor, o filme discute relações familiares, a diferença entre a família real e família do instagram, o conflito de gerações, as práticas abusivas e de invasão de privacidade por parte das grandes corporações de tecnologia.

Oi, por acaso você sabe a diferença entre um porco, um cão e um pão de forma? É para meu TCC!

Alguns podem achar que a escolha de deixar a “revelação da sexualidade” da personagem para o final do filme não foi a melhor decisão. Pode soar como um queerbaiting no qual a sexualidade da personagem é anunciada para atrair o público LGBTQIA+, mas não é mostrada em tela para não afastar o público heterocisnormativo. Eu particularmente discordo, eu creio que a personalidade de Katie é apresentada de forma muito natural e totalmente dentro do contexto de desenvolvimento da trama.

E se você quiser conversar comigo, falar sobre o quanto esse filme te deixou com vontade de adotar um Pug. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é a antologia da Netflix “Love, Death and Robots” que não é nada familiar e muito menos engraçada, mas também é animada e tem robôs. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e sabe a diferença entre um porco, um cão e um pão de forma, mas não vai contar.

1 Comment

  1. Julie Any Garbin Frizarin disse:

    Nossa adorei, amo comédia, vou assistir sem dúvida!

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