Por Will Nygma

Há 26 anos atrás, em 16 de junho de 1995, era lançada a terceira grande aventura do Homem Morcego nos cinemas. No Brasil, o filme chegou no dia 07 de julho.

Em pleno ano de 2021 ainda circulam rumores de que o diretor Joel Schumacher, mesmo entrando com o objetivo de amenizar o clima sombrio deixado pelo diretor Tim Burton na época, chegou a gravar o filme de forma um pouco soturna ainda, com um primeiro corte contendo 40 minutos a mais, mas sendo obrigado a reeditar o filme e cortar o tempo de duração, tempo em que ele se aprofundava ainda mais nas questões emocionais e psicológicas de Bruce Wayne (Val Kilmer) e sua transformação em Batman.

Uma das cenas inclui uma sequência onde Wayne encara um morcego gigante, do tamanho de um humano, que inclusive é vista nos extras da edição especial do DVD Duplo do filme e na versão em Blu-ray, que conta com muitas outras.

Cena deletada em que Val Kilmer encara um Morcego Gigante

Alguns sites renomados dizem ainda que existe uma sequência de abertura com o vilão Duas Caras, interpretado por Tommy Lee Jones, escapando do Asilo Arkham (que também tem uma versão mais curta nos extras do DVD), e uma versão mais completa da invasão do Charada (Jim Carrey) à Batcaverna usando sua bengala como arma.

Embora seja negado pela Warner, parece haver planos para um #SchumacherCut. A revista Variety divulgou a existência desse rumor a partir de alguém de dentro e Val Kilmer, em entrevista, acabou soltando algumas informações que batem com a história.

Com o lançamento do #SnyderCut de Liga da Justiça e as negociações para um #AyerCut de Esquadrão Suicida, tudo pode acontecer, ainda mais em uma época de pandemia onde o isolamento ainda é uma realidade e os estúdios estão que nem loucos tentando preencher suas grades de conteúdos, o que é reforçado pela Warner tendo todo o conteúdo exclusivo da HBO Max que chega ao Brasil no próximo dia 29 de junho.

Vamos esperar pra ver. Quem sabe?!

Agora vamos a uma análise mais aprofundada sobre o filme e sua produção.

A LUZ E A ESCURIDÃO

Batman Eternamente Pôster

Financeiramente o filme foi um enorme sucesso, ganhando mais dinheiro do que seu antecessor, “Batman – O Retorno” (1992); foi o segundo filme de maior bilheteria em 1995 com uma receita de U$336.529.844 milhões de dólares, atrás apenas de Toy Story.

Apesar do sucesso, o filme peca muito em algumas coisas, como a concepção exacerbada do Duas Caras e uma Gotham City colorida demais, entre outros detalhes que deixaram os puristas incomodados, como os mamilos nos uniformes dos heróis, mas está longe de ser um fracasso ou um filme ruim, pois conta com fidelidade a origem do Robin, apenas transferindo a culpa de Tony Zucco para o Duas Caras, até que bem fiel às HQs, e introduz Edward Nygma como o vilão Charada, perfeito para época por seus aparatos tecnológicos, interpretado brilhantemente por Jim Carrey (O Máskara), que rouba a cena em um misto de quadrinhos e forte inspiração em Frank Gorshin do filme e seriado de 1966.

Carrey, por si só, além da cara de borracha, já é um desenho ambulante. Poderia não ser tão frenético, mas para época funcionou muito bem. Salvo as cenas deletadas da edição especial de colecionador que mostram diversos momentos mais densos e sombrios do filme.

O que destoa de tudo é Tommy Lee Jones (Força em Alerta) em uma terrível concepção de um Duas Caras que deveria fazer o contra ponto com o Charada, mas que parecia querer chamar mais atenção. Não sabemos se por escolha dele ou do diretor, Joel Schumacher, mas enfraqueceu muito o personagem, ignorando os planos de Tim Burton que já tinha Billy Dee Williams (Lando de Star Wars) como Harvey Dent no primeiro filme e contratou Jones em seu lugar.

O Duas Caras de Tommy Lee Jones que deveria ser um contraponto ao Charada de Jim Carrey

Marlon Wayans (Vizinhança do Barulho) havia sido escalado para Robin, mas decidiram substitui-lo por Chris O’Donnell (Perfume de Mulher).

AS COMPARAÇÕES

Pena que a terrível sequencia desta franquia, com George Clooney substituindo Val Kilmer, fizeram com que muitos colocassem os dois filmes em um único balaio, e com o tempo Batman Eternamente foi criticado como se fosse tão ruim quanto a sequencia, mas o fato é que fez um enorme sucesso na época e todos os envolvidos alavancaram suas carreiras.

Inclusive, não sabemos ao certo se o que Tim Burton planejava para esta sequencia teria funcionado bem na época, mas as mudanças drásticas no visual e no clima são de fato impressionantes.

O MANTO DO MORCEGO

Batman Eternamente sai um pouco daquele clima sombrio dos longas anteriores dirigidos por Tim Burton (Os Fantasmas Se Divertem), assumindo apenas o cargo de produtor, embora ainda estivesse lá no roteiro o lado mais sombrio, a essência dos personagens permanece, como a de Alfred, Gordon e principalmente Bruce Wayne.

Sai Michael Keaton (Minha Vida) e entra o charme de Val Kilmer (The Doors), um ótimo ator que trouxe um ar mais sereno e encantador para Batman e Bruce, sabendo transpor bem a dualidade dentro daquele contexto, de uma pessoa perdida, funcionando dentro daquele universo.

Antes de Val Kilmer ser contratado, Daniel Day-Lewis, Ralph Fiennes, William Baldwin e Johnny Depp estavam sob consideração para substituir Michael Keaton, que decidiu não reprisar seu papel como Batman, porque não gostou da nova direção, além de também desejar interpretar “papéis mais interessantes”.

O CHARADA FOI UMA CHARADA?

O Enigma do Charada de Jim Carrey

Tudo indicava que Robin Willians faria o Charada no filme, mesmo que ele aparentemente tivesse alguma desavença com a Warner por conta da escalação de Jack Nicholson como Coringa no Batman de 1989, onde, rezam as más línguas, o usaram como isca para atrair Nicholson, dizendo que Willians estava para fechar contrato para ser o vilão caso Jack não aceitasse.

E quando Batman Eternamente foi anunciado todos os rumores apontavam Robin Willians para o papel do Charada até que testes foram feitos e seu amigo Jim Carrey ficou com o papel.

A entrada de Jim Carrey, que despontava como um dos atores mais carismáticos na época após Ace Ventura, O Máskara e Debi & Lóide,  foi a escolha perfeita para levantar o astral da franquia, que pesou muito com o grotesco, porém maravilhoso Pinguim de Danny DeVito e a sexy e masoquista Mulher Gato de Michelle Pfeiffer.

O Charada interpretado por Jim Carrey, inspirado no Charada dos anos 60

A proposta de “Batman Eternamente” era ser mais colorida, mais ágil, com mais ação, largar as bizarrices de lado e, principalmente, ser mais leve e engraçado, então ninguém melhor como o astro do momento, em grande ascensão, para dar um novo rumo a franquia com seu rosto elástico e sua flexibilidade, que se assemelhavam muito com a persona de Frank Gorshin quando fazia o Charada nos anos 60.

Jim Carrey quebrou boa parte da mobília de seu trailer nos sets de filmagens simplesmente treinando o rodopio feito pelo Charada.

Até aquela época, a origem do personagem ainda não tinha sido mostrada com veemência, mesmo que alguns contos de Neil Gaiman mostrassem o personagem contando um pouco de onde veio, mas o cinema e a TV, até mesmo em desenhos animados como “Batman A Série Animada” que se iniciou em 1992, mostravam o personagem inclusive já em sua versão ruiva, que foi a escolha da produção para seu visual no filme, com um collant cheio de interrogações, como nas HQs, alinhando a flexibilidade quase circense do Jim Carrey a uma interpretação bem exagerada e alucinada.

É bem interessante a personificação e sua origem contada como um inventor que trabalha nas industrias Wayne e tem uma paixão e admiração profissional pela persona do Bruce Wayne; foram ótimos fundamentos e material rico para se compor uma pessoa que só quer atenção e se espelha em uma das maiores mentes de Gotham City, que além de tudo, é o homem mais rico, prato cheio para Jim Carrey deitar e rolar.

Tudo muda com a negação de um invento que ele criara seguindo sua obsessão pelo conhecimento, que sugava Energia Neural das pessoas, criando imagens em 3D e interação pela internet com outras mídias no conforto de nossas casas, o que hoje é super natural, soando até banal, mas para a época era uma evolução tecnológica assim como foram os aparatos tecnológicos que víamos em filmes como “De Volta Para o Futuro”.

Hoje, muitos daqueles inventos existem, ainda que não tão exagerados como os apresentados nos filmes; somos manipulados pelas redes sociais e programas interativos na TV, além do acesso a contas bancárias permitindo que hackers obtenham nossas informações apenas por estarmos conectados a rede.

AS DUAS CARAS DO DUAS CARAS!

O Duas Caras de Tommy Lee Jones e a representação do bem e do mal

Mesmo que Billy Dee Williams tenha assumido o papel de Harvey Dent no primeiro filme e estivesse ansioso para retratar Duas Caras em uma continuação, Schumacher escalou Tommy Lee Jones para o papel e ignorou os planos de Tim Burton.

Jones foi sempre a primeira escolha de Schumacher para o papel depois de trabalharem juntos em O Cliente, e o ator afirma que ao receber o roteiro, foi muito cauteloso, mas aceitou o papel porque o Duas-Caras era o personagem favorito de seu filho.

Pena tê-lo deixado muito caricato e exagerado, se fizesse algo nos moldes de seu personagem em O Cliente, ai sim teríamos um Duas Caras mais conciso e marcante, e talvez um filme não tão exagerado e frenético.

Se não fossem essas coisas que destoam um pouco do resto e os polêmicos mamilos nos uniformes (muitos acham sexy), o filme não teria sido apenas uma das maiores bilheterias de 1995, mas um dos melhores filmes de super heróis até aquela época.

A FIDELIDADE DO ROBIN

Pela maneira como introduziram o Robin na história, o filme se vale e muito, em levantar diversas questões pertinentes, além de cenas de ação e lutas bem divertidas e coreografadas, que até hoje acrescentaram agilidade ao universo do Batman.

Robin apareceu no roteiro de Batman: O Retorno, mas foi excluído por já existirem “muitos personagens.” Marlon Wayans foi escalado para o papel, e assinou contrato para aparecer em Batman Eternamente, mas decidiram substituir Wayans por outro ator; Leonardo DiCaprio e Chris O’Donnell tornaram-se as duas melhores escolhas, com O’Donnell ganhando o papel. Merecido, pois sua carreira deslanchou depois do filme, assim como a de todos os envolvidos. Já Marlon Wayans ganhou um cachê de um filme em que ele nem participou.

Chris O´Donnell como Robin em Batman Eternamente, ator não foi a primeira escolha

Em uma das discussões com Bruce Wayne no filme, Dick Grayson sugere que o seu codinome seja “Asa Noturna”, uma referência ao nome que o personagem usou nas histórias em quadrinhos, quando passou a agir em carreira solo.

A ENTRADA DE NICOLE KIDMAN

Na história temos uma personagem original para a trama, Dra. Chase Meridian, a psicóloga interpretada pela estonteante e sempre maravilhosa Nicole Kidman, utilizada pelo filme para levantas questões pertinentes e discutir sobre a dualidade dos personagens e as válvulas que desencadeiam a loucura.

A produção havia optado por Rene Russo (Máquina Mortífera) como Dr. Chase Meridian, mas com a saída de Michael Keaton, os cineastas decidiram que Russo era velha demais para Val Kilmer, substituindo-a por uma atriz mais jovem.

As atrizes Robin Wright Penn, Jeanne Tripplehorn e Linda Hamilton também estavam em competição para o papel, com Penn sendo a favorita, além de Sandra Bullock, que foi convidada mas recusou.

O “ANJO DE CHARLIE”

A pequena participação da Pantera Drew Barrymore e Debi Mazar como Sugar e Spice: Assistentes de Duas-Caras, tinha tudo pra dar certo, e até deu, pena que nem todos os fãs ficaram satisfeitos com as mudanças drásticas. O grande público nem percebeu e o filme ficou rico em novos cenários, efeitos especiais de primeira, um novo Batmóvel, além de outras Batnaves e uma enorme cidade cenográfica, transformando-o em uma das maiores bilheterias de 1995.

Batmóvel em Batman Eternamente

A TRILHA SONORA

Outro grande destaque da produção está na trilha sonora, que foi muito bem sucedida comercialmente, vendendo cópias quase tão caras como a trilha sonora de Prince para o filme Batman de 1989. Apenas cinco das canções da trilha sonora são destaque no filme, o resto são estritamente ‘inspiradas’. Os singles da trilha sonora incluem “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me”, do U2 e “Kiss from a Rose”, do Seal, sendo que ambas foram nomeadas para o MTV Movie Awards. “Kiss from a Rose” (cujo vídeo foi também dirigido por Joel Schumacher) também alcançou 1° lugar nas paradas dos EUA e hoje é um clássico.

As músicas adicionais contém Offspring, The Flaming Lips, Brandy (ambas músicas também foram incluídas no filme), Method Man, Nick Cave, Michael Hutchence (de INXS), PJ Harvey, e Massive Attack, uma tentativa de fazer o filme mais “pop” de acordo com o produtor Peter MacGregor-Scott. Além da trilha original composta por Elliot Goldental, substituindo Danny Elfman, parceiro de Tim Burton, para dar uma nova cara a franquia.

O diretor Joel Schumacher com Chris O´Donnell e Val Kilmer

PREMIAÇÕES

No Oscar 1996, a 68ª edição do prêmio, “Batman Eternamente” foi nomeado nas categorias de Fotografia, Som (Donald O. Mitchell, Frank A. Montaño, Michael Herbick e Petur Hliddal) e edição de som. “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me ” por U2 que foi indicado para o Globo de Ouro de Melhor Canção Original, mas também foi indicado para o Framboesa de Ouro de Pior Canção. No Saturn Awards, o filme foi nomeado para Melhor Filme de Fantasia, Make-up , Efeitos Especiais e Figurino. O Compositor Elliot Goldenthal recebeu uma indicação ao prêmio Grammy. Batman Forever recebeu seis indicações ao MTV Movie Awards 1996.

O ETERNO LEGADO

O filme abriu caminho pra muitas outras produções do gênero, mas  perdeu mesmo o rumo na terrível sequencia infantil com George Clooney assumindo o cruzado encapuzado, e acho que depois dessa bomba e das novas visões do Batman no cinema, com as versões de Christopher Nolan, muitos colocaram os dois filmes em um único balaio, e criticarem Batman Eternamente como se fosse tão ruim quanto a sequencia vergonhosa de Batman & Robin (1997), que gerou repulsa a tudo que Schumacher havia feito, não levando em consideração ótimas produções dele como o cult “Garotos Perdidos”, “Um Dia de Fúria”, “Linha Mortal”, “Tempo de Matar” e mais tarde filmes como ” Ninguém é Perfeito”, “Por Um Fio”, “O Fantasma da Ópera” e “Número 23”.

Não era assim antes de 2005, os tempos eram outros, a realidade era outra, mas isso já é uma outra história.

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Will Nygma é Ator, cantor, performer, roteirista e diretor de teatro e cinema. Formado em Produção Audiovisual e Teatro, estudou letras, música e crítica de cinema. Nerd convicto, cosplay vencedor por 6 anos consecutivos na CCXP, também é um ávido colecionador de filmes e action figures e criador dos filmes dos Maníacos De Arkham, além de especialista no universo do Batman e em fazer imitações de cantores, personagens de desenhos animados e dos professores na época de escola.

2 Comments

  1. Elizeu disse:

    Realmente esse filme fez um sucesso estrondoso na época, muito bem analisado.

  2. Jonathan disse:

    Não sabia muito sobre tudo isso que aconteceu mas sempre gostei do filme o oitro q foi muito zuado esse ate que é legal

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