O Vale Nerd – “A voz do silêncio” por um pouco de empatia

Por Everton Nucci

Olá todo mundo, bem vindes ao vale! Eu sou Everton Nucci e como a maioria dos Nerds, e dos Queer, eu já sofri muito bullying na infância e adolescência. Foi uma época terrível, traumática à qual só pude superar com muitos anos de terapia. E é desse tema bastante delicado que trata o anime “Koe no Katachi”, conhecido por aqui como “A voz do silêncio”.

Antes de começar, eu gostaria de dizer que esse anime não é para qualquer pessoa, isso porque trata de temas bastante pesados que vão desde abuso psicológico a suicídio. Portanto, se coisas assim podem gerar algum tipo de gatinho em você, eu aconselho a não assistir.

“Koe no Katachi” surgiu em 2011 na forma de one shot na revista Bessatsu Shōnen Magazine e mais tarde ganhou uma série pela revista Weekly Shōnen Magazine que foi compilada na forma de mangá em 7 volumes publicados entre 2013 a 2014. Em 2016, a obra foi adaptada não na forma de anime mas como um filme animado de 2h10 que, atualmente, pode ser visto na Netflix.

Koe no Katachi, mangá e anime que não é para todo mundo

O filme e o mangá estão repletos de personagens bastante interessantes, mas para essa matéria eu gostaria de me concentrar em apenas três: Shouko Nishimiya, Shoya Ishida e Yuzuru Nishimiya.

Na história, acompanhamos a relação de Shouko, uma garota muito amável e deficiente vocal que, ao chegar à nova escola, conhece Shoya, um garoto agitado e rebelde que resolve -junto com os amigos- fazer da garota o seu novo alvo de bullying. E, dessa forma, por um grande período de tempo passamos a acompanhar todo o abuso físico e psicológico praticado contra a criança que desejava apenas fazer amigos.

E aqui eu faço um alerta de spoiler, quem não quiser saber muito da trama pode pular para o próximo parágrafo. Para mim, o grande ponto de virada do filme, e que o diferencia de outras obras que tratam de bullying, ocorre logo no início, pois quando a direção do colégio toma conhecimento do ocorrido a situação se inverte e é Shoya quem passa a sofrer com os abusos antes direcionados à Shouko. Isso porque ao perceberem que poderia haver algum tipo de punição por parte da direção, os “amigos” abandonam o garoto e passam a acusá-lo de ser o único responsável por maltratar a garota, e assim, o valentão torna-se o pária da escola e a nova vítima bullying.

Shouko, vítima de bullying em Koe no Katachi

Outro diferencial do filme é o fato de haver um salto no tempo para mostrar a adolescência daquelas personagens que conhecemos como crianças. Dessa forma, passamos a acompanhar as consequências das atitudes praticadas durante a infância dessas personagens. Para alguns, pode parecer que o filme erra ao acompanhar o sofrimento do suposto vilão da história. Pode parecer que o filme “passa pano” para as atitudes do garoto, eu não enxergo dessa forma.

Na minha opinião, o que “A voz do silêncio” faz é humanizar todas as suas personagens fugindo do maniqueísmo. Essas personagens são retratadas como pessoas que podem cometer erros e podem se arrepender. Mas acima de tudo, eu vejo que o filme quer demonstrar que há uma enorme diferença entre buscar justiça e praticar punitivismo puro e simples. O filme vem para mostrar que não basta punir o malfeitor para tornar o mundo um lugar perfeito, isso não é justiça, é vingança. E como já dizia um filósofo mexicano dos anos 70 “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena!”

Seu Madruga, um sábio!

Por último, não posso deixar de falar um pouco sobre Yuzuru Nishimiya, uma personagem coadjuvante que me chamou muita atenção. Em sua primeira aparição, Yuzuru apresenta-se como “o namorado de Shouko”, o que obviamente é uma mentira dada a idade da criança. Acontece que, o que Yuzuru queria era proteger a irmã mais velha de importunadores, na verdade, a personagem passa o filme todo se dedicando a isso por meio de suas fotos. A grande surpresa ocorre quando, no filme, referem-se a Yuzuru no feminino, para falar a verdade, a informação me passou batida até o momento em que a personagem aparece na escola usando um vestido. Para mim, ficou muito claro o que acontecia, tratava-se de um garoto trans. Na verdade, a fala da personagem ao ser vista usando a roupa é: “Se fosse explicar, é tipo cosplay”.

É claro que para um assunto como esse não basta simples impressão ou opinião, e é por isso que eu procurei informações com a enciclopédia viva da cultura japonesa: Espectro Girl. Conforme conta nossa especialista no assunto, o fato da personagem ser uma pessoa trans não é Cannon mas sim Head Cannon. E para quem, assim como eu, não conhece o termo, ela explica: Cannon é quando a informação é oficial, já Head Cannon é quando a informação é invenção dos fãs, mas é levada tão à sério que alguns optam por acreditar nela como se fosse Cannon.

Para esse filme em questão, eu vejo que faz todo sentido Yuzuru Nishimiya ser um garoto trans, eu vejo que a história mostra todos os fatos necessários para que se entenda dessa forma. Entretanto, por uma questão de coerência, eu devo seguir a mesma linha de pensamento que estabeleci na matéria sobre “Luca”, levando em conta apenas a informação oficial. Assim sendo fica a curiosidade de que, embora tudo indique, o filme nunca bate o martelo sobre a identidade de gênero de Yuzuru. De qualquer forma, “Koe no Katachi” é uma obra incrível, cheia de sensibilidade, reflexão, com um visual lindo, que vale muito a pena conferir.

E se você quiser conversar comigo, falar qual o seu anime, mangá e filme animado japonês favorito. Mande seu e-mail para contato@superninguem.com.br, ou deixe seu comentário logo abaixo.

E a dica do dia é o filme animado “Meu amigo Totoro”, que é ótimo para relaxar e sorrir um pouco após acompanhar todos esses assuntos pesados. Por hoje é só, obrigado por lerem essa coluna, continuem acessando o site e fiquem em paz!

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Everton Nucci é tecnólogo por formação, servidor público por opção, ator por paixão, escritor fanfarrão, e segue a filosofia de vida do Seu Madruga

2 Comments

  1. Davi disse:

    Nossa e muito pesado mesmo ☺.parabens pelo resumo.

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