Porque a frieza dos números não é capaz de refletir a real dimensão da tragédia de uma guerra!

Por Fernando Fontana

Quando falamos das grandes guerras que assolaram o globo no século XX, os números da tragédia alcançam tamanha proporção que parecem se desvincular da realidade, quase inverossímeis, tornando-se difíceis de serem assimilados pelo cidadão comum.

Os soldados mortos nas trincheiras, o holocausto, as cidades transformadas em cinzas pelos bombardeios aéreos, as perdas de vidas se calculam aos milhões, e de repente, a frieza dos números estampados nas páginas dos livros não conseguem refletir a dimensão de uma tragédia.

A dificuldade aqui é observar tais eventos por um telescópio, quando são as pequenas coisas que nos aproximam e permitem a empatia.

Hotaru no Haka observa as consequências da guerra pelas lentes de um microscópio

“O Túmulo dos Vagalumes” (Hotaru no Haka, no original), anime lançado em 1988 pelo estúdio Ghibli, nos coloca para observar a dor e a tragédia humana decorrentes da guerra, pelas lentes de um microscópio.

Seita e Setsuko em “O Túmulo dos Vagalumes”

O anime é inspirado no conto homônimo e semiautobiográfico de Akiyuki Nosaka, que perdeu parte de sua família durante os bombardeios da cidade de Kobe no final da Segunda Guerra Mundial, e narra a história do jovem Seita Yokokawa e de sua irmã caçula, Setsuko, a quem ele tenta proteger com todas as suas forças.

Milhares de vidas ceifadas com o apertar de um botão

A crueldade que o ser-humano é capaz de praticar durante situações extremas, em particular nas guerras, é vista sob dois ângulos, no primeiro deles, os bombardeiros que lançam uma tempestade de fogo sobre os civis de Kobe.

Se nas guerras do passado, travadas com espadas, armas de fogo rudimentares e baionetas, os soldados enxergavam de perto a dor a e morte infligidas por suas ações, com o surgimento de armas com grande potencial de destruição e capazes de atingir o alvo à distância, a morte de centenas de pessoas tornou-se possível com o apertar de um botão, sem a necessidade de assistir suas vítimas agonizando.

Milhares de crianças como Seita e Setsuko perderam as vidas durante bombardeios à cidades como Tóquio, Londres, Berlim, entre outras, com destaque para a devastação causada em Hiroshima e Nagasaki, atingidas pelas bombas atômicas norte-americanas, que encerraram o conflito com o Japão.

Seita carregando Setsuko nas costas em “Túmulo dos Vagalumes”

Cruel também podem ser as pessoas quando colocadas em situações extremas, como a falta de comida e itens básicos decorrentes da guerra que esgota os recursos de uma nação. No anime, vemos diversos adultos se comportando de forma egoísta, desumana, negando abrigo e alimento para Seita e Setsuko, que mal conseguem obter o mínimo para sobreviverem.

O que crianças e vagalumes tem em comum?

Contrapõe-se a esse egoísmo e desumanidade, a inocência de dois irmãos que se amam, e a dedicação de Seita em proteger e cuidar de sua irmã.

Ao contrário de outras animações do Studio Ghinbli, não há magia aqui, Hotaru no Haka é um anime com os pés fincados na realidade, em um dos momentos mais sombrios da humanidade.

Você pode até tentar não chorar, mas será tarefa quase impossível, principalmente quando compreender a relação que existe entre crianças e vagalumes.

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Fernando Fontana é escritor e adulto amador, autor de “Deus, o diabo e os super-heróis no País da Corrupção” e da Graphic Novel “O Triste Destino da Namorada do Ultra-Homem”, criador deste site e colaborador do “Canal Metalinguagem“, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos.

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